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Literatura

Relendo o sertão

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O sertão é uma obsessão para os escritores brasileiros do século XX. De Euclides da Cunha a Guimarães Rosa, passando por Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna e Raquel de Queirós, todos encontraram farto material naquelas terras pouco tocadas pela civilização, onde os descendentes dos primeiros colonos portugueses, isolados do mundo, ainda mantinham costumes medievais e traços sebastianistas que nem em Portugal existiam mais, e a atmosfera, meio-termo entre o onírico e o real, se prestava ao mito e a lenda como nenhuma outra no país. Seja como crítica social explícita, seja como louvação, o sertão fornece infinita matéria ficcional, e não se limita às áreas tropicais: até mesmo o universo de Érico Veríssimo é, à sua maneira, sertanejo: um sertão do paralelo 30, meridional, onde sopra o minuano e a geada cobre os campos. O sertão está em toda parte, dizia o sertanejo-mor Guimarães Rosa.

Seria natural, portanto, que esta região de grande apelo visual servisse também de inspiração para histórias em quadrinhos. Não é, no entanto,o que se verifica. Por quê? Há muitas respostas, e uma delas pode ser a difícil concorrência. Para fazer frente a tantos clássicos de nossa literatura só mesmo um grande quadrinista. Felizmente para nós, um dos membros dessa nobre estirpe aceitou esse desafio: Flávio Colin. E venceu. O resultado está em Estórias Gerais (Conrad Editora, 158 páginas), roteirizado por Wellington Sbrek.

A história se passa em 1920, quando dois grupos de bandoleiros se enfrentam em Buritizal. O conflito envolve o lendário Antônio Mortalma, o bandido mais cruel do sertão – para muitos sertanejos, filho do próprio Demônio. O jovem jornalista Ulisses de Araújo foi destacado para apurar a história de Mortalma. Claramente inspirado em Euclides da Cunha, Araújo, assim como o autor de Os Sertões (e como a maior parte dos intelectuais da época), crê no progresso, nas luzes da civilização e da técnica para salvar aquela gente do atraso e da violência. Aos poucos, porém, vivendo entre os sertanejos, ouvindo suas histórias, partilhando de seus costumes, – e até encontrando, face a face, o próprio Mortalma – Araújo, também como Euclides, muda seu ponto de vista, passando da condenação explícita da cultura da região para a compreensão e a aceitação. Essa referência, assim como outras – a Guimarães Rosa (os diálogos dos sertanejos lembram muito os de Grande Sertão), João Cabral, Ariano e outros – , presentes em todo o texto, demonstram uma reverência por essa grande tradição das letras brasileiras. Flávio Colin expressa esse sentimento de respeito à cultura nacional – e da missão que ele, como quadrinista, deve ter – no depoimento que abre o livro: “Desgraçadamente, estamos substituindo o o que é nosso pelo alheio. Até a nossa linguagem. Povo que não se conhece, que não se estima e que não tem memória, não é povo. É bando”. Pois é esse povo, e não o bando em que estamos nos transformando, massificado, sem identidade, ignorante de si e dos outros, que Estórias Gerais mostra com rara beleza.

Onde encontrar:

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=4608&tipo=2&isbn=8576162555

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