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Música

30 anos de “Nevermind the Bollocks”, dos Sex Pistols

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Os Sex Pistols duraram apenas dois anos. Lançaram somente um álbum, só fizeram shows na Inglaterra (além de uma pequena turnê pelos EUA), não tinham dinheiro para pagar o metrô e eram formados por quatro inúteis completos: um imigrante irlandês desdentado e desbocado (Johnny “Rotten” Lydon), dois ex-ladrões (Paul Cook e Steve Jones) e um drogado irrecuperável que acabou se matando (Sid Vicious), todos comandados por um picaretaço de marca maior (Malcolm McLaren) que elaborou todo o conceito da banda, desde os gritos de guerra até o vestuário. Legítimo caso para o Chico Bento virar para o Ze Lelé e soltar um consternado “aí num tem jeito não, Zé!”. Pois teve jeito. E como teve. A auto-intitulada “maior farsa da história do rock´n roll” mudou para sempre a história da música e da cultura popular com base apenas na própria incompetência. Pelo menos é isso que os próprios ex-Pistols sempre disseram. E será que é verdade?

Não sei. O fato é que não se comemora os 30 anos de Nevermind the Bollocks – lançado em 28 de outubro de 1977 – apenas pela piada. Há gente, e gente muito boa, que levou e continua levando os Pistols a sério. John Lennon, antes de morrer, declarou em uma entrevista que estava adorando “essa coisa punk”, referência óbvia à banda. Charlie Watts, dos Rolling Stones disse que “ninguém fazia barulho como os Sex Pistols. Eles eram demais!” e Kurt Cobain classificou Nevermind the Bollocks como o melhor disco da história do rock. E ninguém menos que Joe Strummer, líder da única banda do punk rock primitivo que de fato fez sucesso comercial, o Clash, qualificou a importância de Johnny Rotten e seus capos da seguinte maneira: “Sempre me achei um cara desagradável. Até que um dia fui assistir os Sex Pistols e me transformei num rei”.

Joe Strummer captou bem. Antes dos Sex Pistols, o rock´n roll era um reduto de gente agradável e simpática. Até bandas de heavy metal, como o Black Sabbath, tinham uma certa decência, pelo menos ao vivo. Gente suja e mal educada não cantava. Não se diziam palavrões em público. Ninguém xingava a rainha, Deus ou o próximo. E os Sex Pistols fizeram tudo isso, no mesmo álbum, em apenas 11 faixas que demoliam instituições e tradições com poucas notas, muito barulho e o riso ensandecido, tipicamente irlandês, de Johnny Rotten, a gritar “Deus salve a rainha/ E seu regime fascista / Eles te transformam num imbecil”. E tudo muito engraçado e irônico, porque, no fundo, os Pistols sabiam muito bem que essa história de revolução era uma grande conversa fiada. Ao contrário do Clash e de outros grupos punk politicamente engajados, eles tinham a perfeita noção de que o que estavam fazendo era uma grande palhaçada e que o “regime fascista” da rainha referido em God Save the Queen era tão totalitário e cruel que lhes permitia falar o que quisessem em público com o aval de todas as leis inglesas. Como não eram intelectuais, não se deixavam levar por idéias que contrariassem o mais elementar senso comum. Aliás, Johnny Rotten dizia que Joe Strummer era um coitado porque lia muitos livros e acreditava no que eles diziam. Os Sex Pistols riam do medo e da surpresa da classe média britânica, que realmente achava que um bando de moleques sem estudo e sem ambições eram realmente capazes de abalar as estruturas do Império.

Hoje, Nevermind the Bollocks já não assusta. O gangsta rap é muito mais violento, as bandas de grindcore são muito mais barulhentas e a conversa de “anarquia para o Reino Unido” é incompreensível para jovens que acham Eminem o máximo da subversão, até porque eles não têm a menor idéia do que significa “anarquia”. O que diferencia os Sex Pistols de todos eles – e o que eternizou aquele disco aparentemente horroroso – é aquilo que um Eminem, um Exploited ou um Tupac Shakur jamais terão: o senso de humor. Todos eles acham que são alguma coisa por xingar todo mundo com a proteção da Constituição e se levam muito a sério por isso. Os Pistols não se levavam a sério e se sentiam autorizados a não levar ninguém a sério. Foi o grande trunfo deles, e por isso a trajetória dessa banda de garagem sempre será referência para quem quer saber de fato o que é o show business, como ele funciona  e como deve ser encarado.

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