Cinema

Aqui, a história é outra

http://cinema.uol.com.br/ultnot/2008/02/17/ult4332u664.jhtm

Trope de Elite foi premiado em Berlim. Ganhou o Urso de Prata, a maior honraria do festival de cinema daquela cidade. Não ganhou o troféu de melhor filme estrangeiro, tido por muitos como uma espécie de prêmio de consolação para os pé-rapados do Terceiro Mundo: foi o melhor entre todos, incluindo europeus e americanos. Foi o campeão geral. Sem afagos, mimos, condescendência ou peninha da platéia. Pior: sem sequer apresentar uma tradução decente. A cópia da película com as legendas em inglês sumiu e uma moça foi escalada às pressas para fazer uma tradução simultânea, que incluiu, entre outras pérolas, um”ask to quit” para o célebre “Pede pra sair!” do Capitão Nascimento. O filme tinha tudo para virar piada. Não virou.

Hector Babenco não precisa de legendas para ver Tropa de Elite. Assistiu o filme no original, num cinema bem perto de você. Ou comprou uma cópia pirata, num camelô ainda mais próximo. Ouviu “Pede pra sair!” diversas vezes, assim como “O senhor é um fanfarrão!”, e não “You´re a buffon”, opção da pobre moça no calor do momento. Ouviu “Nunca serão”, e não “Never will be”. Ouviu “Pega o saco”, e não “Bring the plastic bag”, talvez a mais confusa (e engraçada) de todas as traduções. Ouviu macho com voz de macho e fêmea com voz de fêmea. Tudo perfeitinho, tudo maravilhoso. Don Babenco era da comissão encarregada de selecionar o filme brasileiro para o Oscar. Não escolheu Tropa de Elite: escolheu O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger. Assim justificou sua opção: “Tropa de Elite não para em pé. Usa demasiadamente a narração em off, em detrimento da imagem”. Da voz dos personagens, nada falou. Ainda bem. Algo de bom o filme deve ter.

O ano em que meus pais saíram de férias, o nosso escolhido, não foi indicado pela Academia de Hollywood para o prêmio de melhor filme estrangeiro, mas isso não importa. O que importa é que, mais uma vez, nossa classe artística demonstrou que não se curva diante dessas imposições mercadológicas, dessas megaproduções, desses filmes popularescos que os desdentados adoram. Ah, os europeus também? Danem-se. Nossa crítica mostrou a eles que está muito à frente. Que é mais observadora. Que é mais sutil. Que vê nuances e aspectos ocultos que aqueles alemãezinhos simplórios, primos desses colonos de Ivoti e Morro Reuter, formados naquelas universidades de meia tigela, comedores de chucrute, bebedores de cerveja e, sobretudo, horrorosamente cintura-duras, não conseguem ver. Afinal, nenhum deles, ao que parece, viu o mesmo que Hector Babenco com seu finíssimo olhar de cineasta experiente e profundo estudioso da sétima arte.  Aliás, ouvi dizer, não sei onde, que Tropa de Elite pode concorrer ao Oscar no ano que vem. Mas, dessa vez, não na categoria de filme estrangeiro, e sim de Melhor Filme (assim, em maiúscula), como em Berlim. Não dependerá, portanto, de pré-seleção brasileira. Bom, se quiserem escolhê-lo o problema deles. Nossos rígidos critérios naõ aprovam qualquer um. Tropa de Elite é filmezinho para festivalzeco de europeu fresco e americano gorducho comedor de McDonalds. Aqui, companheiro, essas coisas não se criam. Aqui, a história é outra.

 Linkrelacionado:

https://perspectivabr.wordpress.com/2007/11/29/o-pior-dos-7-pecados-capitais/

Discussão

Um comentário sobre “Aqui, a história é outra

  1. cheio de ironia…

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    Publicado por Eugenio | 21 de fevereiro de 2008, 13:08

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