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Política

O que fazer com os tibetanos?

Quem é leitor de Tin Tin sabe onde fica o Tibete. Uma das historinhas mais famosas do jornalista belga e seu cachorrinho Milu se passa naquele exótico país asiático perdido entre as montanhas do Himalaia. É uma das poucas aventuras de Tin Tin em que não ele não encontra inimigos: o único motivo pelo qual ele resolve se embrenhar no Tibete é a busca pelo seu amigo Chang, tripulante de um avião que caiu nas montanhas. Tin Tin passeia pelo país e conhece um povo pacífico, religioso, amigo da natureza e tradicional, como os europeus imaginam que sejam todos os asiáticos – até mesmo os chineses, que dão todos os motivos para que os outros pensem que eles não são pacíficos, religiosos, amigos da natureza e tradicionais.

O livro foi um sucesso em todo o mundo e não demorou a chegar à própria China. Lá, porém, teve que acrescentar uma pequena palavra no título: em vez de “Tin Tin no Tibete”, os censores exigiram que o título mudasse para “Tin Tin no Tibete Chinês”, evitando assim mal entendidos entre os leitores da república dita popular. Se eles aprendem na escola que o Tibete foi salvo das garras da religião e do atraso pela bondosa intervenção do camarada Mao como é que esses ocidentais vão lá dizer que ele não é chinês? Que ele não tem nada a ver com a China? Que ele não abraçou a religião do proletariado, que não louva Lênin, Stalin e Mao, que acha que há um céu e ele não é vermelho? Que ele é, enfim, independente? Censura neles e não se fala mais nisso.

Lhasa, a capital do Tibete

É fácil calar qualquer coisa dentro da China, ainda mais em se tratando de tibetanos. Eles são muito poucos: somam apenas 5,4 milhões, esparramados por um território com mais de 1,2 milhão de quilômetros quadrados, mais ou menos o tamanho do Estado do Amazonas, em sua maioria composto por vales áridos e as montanhas geladas do Himalaia. Seu PIB é de 3,5 bilhão de dólares, a metade do da cidade de Canoas-RS. Mais da metade da sua população é analfabeta. Em tese, não deveria preocupar a ninguém. Mas preocupa – do contrário, os burocratas do Partido Comunista Chinês não teriam dado atenção a uma simples história em quadrinhos. A verdade é que esse povo analfabeto, pobre e atrasado é uma pedra no sapato da poderosa China do século XXI.

Os chineses têm boas razões para exigirem o Tibete para si. A oficial é a de que a região faz parte da China desde o século XIII e que é justo, portanto, que fique sob o comando de Pequim. Os tibetanos rebatem ao dizerem que nunca se misturaram com os chineses, tanto que falam outra língua. Discussão inútil, pois motivo verdadeiro é outro. O Tibete é pobre, mas rico em possibilidades. Seu solo seco e infértil esconde tesouros minerais especialmente importantes nesta época de escassez de recursos naturais e inflação mundial. Os tibetanos nunca se interessaram em perfurar o solo em busca de combustível para suas máquinas, pois nunca as tiveram. Os chineses têm feito esse serviço por eles, cortando boa parte do acidentado território do Teto do Mundo com ferrovias e rodovias. Afinal, conhecem bem o progresso e professam o progressismo desde que Mao deu o Grande Salto para a Frente, matando mais de 80 milhões de compatriotas pela fome e pela bala sob os aplausos da esquerda do mundo inteiro. Já os tibetanos não entendem o progresso, ainda que agora sejam obrigados a entendê-lo. E não é preciso lembrar da dificuldade que é pertencer a uma cultura fortemente religiosa num país comunista. Para subir de posto nos serviços públicos e ocupar cargos nas grandes empresas um cidadão chinês precisa ser filiado ao Partido Comunista, algo franqueado somente aos ateus declarados. Formar grupos e movimentos de reivindicaçãoé impossível. Pertencer à Câmara dos Representantes do Povo, o soi-disant Parlamento Chinês, nem pensar. Não é só isso: as crianças chinesas recebem doutrinação ideológica desde cedo.

Nada disso é capaz de abalar as velhas crenças. A imensa maioria dos tibetanos professa o budismo, quase sempre às escondidas, sob o olhar atento dos guardas chineses a passear pelas tortuosas ruas de Lhasa, a capital da província. Os monges são tolerados, desde que fiquem onde estão – nos mosteiros. Se resolvem sair e pedir por absurdos como liberdade de expressão recebem o destino comum a todos os que têm coragem de pedir isso nos regimes comunistas. Não sabemos quantos monges morreram nos últimos anos em confrontos com a polícia: o governo chinês não divulga o número. Mas sabemos que não são poucos. Quem não morreu, como o próprio Dalai Lama, foi obrigado a fugir do país.

Templo budista

O Ocidente, é claro,não ignora nada disso. A pasta “Tibete” ocupa um espaço no arquivo das causas globais, que acessamos – principalmente europeus e norte-americanos – quando nossa consciência pesa sem sabermos direito porquê. O Tibete tem lá seus defensores, normalmente colocados na vala-comum dos ecologistas, bichos-grilo, defensores da liberação das drogas, Hare Krishnas e todos os chatos que, de tão chatos, parecem engraçados. E recebem a devida atenção da opinião pública, com passeatas, boicotes e tudo o mais. A indignação é muita, mas o concreto é pouco.  A ONU, estranhamente, não se interessa. Os EUA, apesar de toda a retórica sobre os valores americanos, são dos que mais investem (e lucram) na China e não querem cutucar o dragão com vara curta. A União Européia nem pensa muito nisso e resolve dizer que o Tibete é mesmo parte da China e ponto final, sendo que também é forte investidora no país. Não é lícito exigir que os grandes líderes do mundo ajam contra o seu próprio dinheiro. Seria esperar demais deles.

Essa falta de interesse talvez se explique por motivos que passam desapercebidos à primeira mirada. Os tibetanos não são simpáticos aos chineses, mas provavelmente também não seriam simpáticos aos Ocidentais. Seu pais nunca foi uma democracia liberal, nunca teve liberdade de culto, não aprovou nunca o casamento gay, não faz doações para o Greenpeace e não consta que esteja muito interessado nas consequências do aquecimento global. O Ocidente que eles conhecem é a doutrina marxista – temperada com uma boa dose de coletivismo asiático, é verdade – que os chineses lhes impingiram e os russos apoiaram, além de vícios típicos da decadência cultural de nossa época, como as drogas e a massificação cultural. Uma vez que abandonem a madrasta China ficarão livres e perdidos num mundo que não lhes é menos estranho do que o chinês (e que, aliás, guarda com ele algumas semelhanças insuspeitas que demonstram ser a presença européia e americana por lá algo mais do que obra do acaso). Será mesmo que os tibetanos estariam interessados em substituir a violência totalitária maoísta pelo globalismo reducionista, o laicismo e a americanização forçada? Será que querem substituir Mao, Stalin e Pol Pot por Foucault, Adorno, Kelsen e Freud? Não sei. É uma questão de escolher qual será o agressor e em que nível se dará a agressão. E é por isso que esta questão tibetana é muito mais do que o destino de um povo perdido nas montanhas da Ásia Central. É uma questão que nos obriga a olhar, com preocupação, não só para o Tibete mas para nós mesmos, para esta nossa civilização que inicia o século XXI e se mostra mais afim aos princípios da China revolucionária do que o velhos e sempre citados valores judaico-cristãos dos quais supostamente descendemos. A velha querela entre Ocidente e Oriente parece morta,e bem morta. Talvez pela primeira vez na História os Leste e o Oeste estão unidos para criar um admirável mundo novo – um mundo que não saberá o que fazer com gente como os tibetanos.

Tudo o que Celso Augusto Uequed Pitol publicou está aqui

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