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A Vigésima-Quinta Hora, de Virgil Gheorgiu

Pouco se sabe da Romênia no Ocidente, e quase nada no Brasil. A etimologia nos remete a uma origem latina presente no radical “Rom”, o mesmo de “Roma”, “romanos” e “romance”. Abrimos um livro de história e descobrimos que, de fato, os romanos lá estiveram, primeiro sob as ordens de sua Roma natal, do ano 10 até o 410, e depois sob as de Bizâncio, até 1456. São, portanto, quatorze séculos de civilização latina, mais do que a maior parte dos países ocidentais. Concluímos que o radical “rom”, de romanos, é mesmo também o de romenos – aliás, desde o século VII, quando foi utilizado pela primeira vez. Por fim, desdobramos um mapa-múndi e direcionamos nossos olhos para o Leste Europeu, onde o nome do pequeno país aparece. Então nos damos conta de que este pequeno país latino está cercado por alemães, húngaros e vários povos eslavos, os quais o separam, por pouco, da Turquia e dos países do Oriente Médio. E foi neste país latino, circundado por vizinhos que circunstâncias históricas transforaram ora em aliados, ora em inimigos ou dominadores, que produziu um dos maiores romances sobre a barbárie que esteve perto de destruir toda a civilização que a Romênia carrega em seu nome: este romance é “A Vigésima-Quinta Hora”, de Virghil Gheorgiu.

Na epígrafe da edição portuguesa – traduzida por ninguém menos do que Vitorino Nemésio – há uma citação de Toynbee que diz o seguinte: “a história, como drama, é como o romance – filha da mitologia. Escrever a história é, também, fazer ficção: selecionam-se fatos, enfatiza-se alguns deles, interpreta-se outros. A “Ilíada” pode contar a história da Guerra de Tróis e “Guerra e Paz”, a das invasões napoleônicas na Rússia; a história da Segunda Guerra e de seus efeitos produzidos na alma dos homens, é o que – também – nos conta Virghil Gheorgiu, o romeno Virghil Gheorgiu, habitante de um país cristão e latino cercado por inimigos. Cristão e latino quer dizer ocidental – só que o Ocidente já esqueceu o que é ser cristão e latino. Na Europa Oriental, entretanto, o legado se conservou, fortalecido pela dura resistência ao avanço dos turcos otomanos. Uma resistência, antes de tudo, interior: mesmo após terem sido conquistados pelo Império Otomano, os romenos não abandonaram o cristianismo, diferentemente de seus vizinhos, tão facilmente convertidos às religiões materialistas inventadas depois do Iluminismo, como adolescentes imaturos às ordens de uma nova gangue!

O termo “gangue” cabe bem aqui. Pois o nazismo, o fascismo e o comunismo têm o mesmo poder de atração dos gângsters; seduzem pela violência injustificada, pela lei do mais forte, pelo assassíno em nome da causa – e um assassínio desses, amparado por uma causa sem sentido, e, também ele, sem sentido. Diante dessas gangues, os romenos não capitularam. Romenos como Johann Moritz, o personagem central de “A Vigésima Quinta-Hora”. Moritz vive numa pequena aldeia da Transilvânia, interior da Romênia. Seu único desejo, como todo aldeão romeno, é manter sua casa, casar com a mulher amada, ter uma boa família e seguir os 10 mandamentos. Nada mais do que isso. Aparentemente, não há nada de errado com Moritz. O seu problema foi ter vivido durante a Segunda Guerra Mundial sendo quem é – um cidadão comum que não empunhava bandeira alguma. Sem manifestar qualquer simpatia por causas maiores, Moritz é sucessivamente perseguido por nazistas, comunistas e democratas ocidentais, acusado de judaísmo (por ser amigo de judeus e ter um nome que soa judaico), reacionarismo (por ser cristão) e comunismo (por ter o azar de ter sido preso junto com eles). Ele não entende praticamente nada do que está acontecendo à sua volta – e, mesmo assim, jamais, em momento algum, deixa de ser quem é. Intuitivamente. Sem levantar bandeiras, sem proclamar nada, sem autoproclamar-se nada. Moritz é apenas um indivídio solitário oprimido entre mundos que não o compreendem e que ele não compreende. Assim como a própria Romênia, país latino entre não-latinos, pobre entre europeus ricos e corajosamente cristão entre ateus.

Tudo o que Celso Augusto Uequed Pitol publicou está aqui

Discussão

7 comentários sobre “A Vigésima-Quinta Hora, de Virgil Gheorgiu

  1. A curiosidade me fez atirar no que vi e matar o que não vi. Levantei-me, hoje pela manhã, com o título dessa obra na cabeça. Resolvi pesquisar no google. Deparei-me com este ótimo texto que me valeu por uma aula de história. Quanta informação interessante e relevante sobre a história de um povo do leste europeu, que, pela pouca importância econômica, inexiste para a comunidade européia (apesar de existir na cartografia) e mais ainda para o resto do mundo. Bravo povo romeno! A ele o nosso respeito.

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    Publicado por clara garcia amaral fernandes. | 11 de setembro de 2008, 10:38
  2. Gostaria de saber como faço e o que faço para comprar esse filme, A vigésima quinta hora, com Anthony Quinn, Virna Lisi . . . ???

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    Publicado por Ademir Francisco da Silva | 12 de outubro de 2010, 05:08
  3. Um dia, por acaso, li o livro, que mostra como a nossa sociedade transforma pessoas em máquinas e anula toda indiviadualidade. Foi uma aula de história romena e mundial, mostrando a nu como o poder transforma o homem em coisa.

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    Publicado por Claudinei Codonho | 17 de abril de 2011, 22:43
  4. Saudaçoes!Li esta obra na década de oitenta como também O Pássaro Pintado, de Jerzy Kosinsky. São 2 obras impactantes!!

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    Publicado por Aurelino Santos | 30 de dezembro de 2011, 13:48
  5. Às vezes, me identifico com a personagem central! Por não levantar nenhuma bandeira, atacam-me de todos os lados!

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    Publicado por Aurelino Santos | 30 de dezembro de 2011, 14:40
  6. Uma das melhores obras que já li. Aula de história e lição de vida! Uma história impactante!!!

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    Publicado por silvia ieda parreiras de moura pinto | 28 de fevereiro de 2015, 03:42
  7. Embora não tenha lido todas as obras considero A Vigésima Quinta Hora a maior obra literária do Século Vinte e Constantin Virgil Gheorghiu um gênio da Literatura.

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    Publicado por José Pereira Calças | 9 de maio de 2017, 11:22

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