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Esportes

Carta a um amigo europeu

Estimado amigo

Escrevo aqui momentos antes do principal acontecimento do ano. Já imaginas qual é, decerto. Lembro de ter comentado contigo em uma tarde de café qualquer quão importante é, neste lado do mundo, um jogo de futebol, importante ao ponto de nem saber se pode ser mesmo chamado de “jogo”.  Jogo é diversão, é brincadeira, tem um começo e um fim que não se transmitem para o mundo exterior a ele. Uma final de Libertadores, como sabes, não é bem assim. Sei que vocês aí recebem notícias meio aterrorizantes sobre o que é o futebol neste canto esquecido do mundo e de tudo o que o cerca – aliás, eu diria que qualquer coisa aqui parece aterrorizante a vocês, não é? – e acredito que até achem interessante.

Mas, como eu dizia, o futebol numa Libertadores da América não é um jogo. Um jogo, como eu também disse antes, é uma brincadeira. Assim como meninos brincam de soldadinhos de chumbo, vocês brincam de guerra no futebol. Vocês aí na Europa brincam de repetir as pelejas do passado, transformando o gramado em uma guerra metafórica num tempo em que as velhas batalhas de capa e espada já não existem aí. Aí, o futebol é um espetáculo, algo como as cavalhadas do Maranhão, no Norte do Brasil, em que são representadas as guerras entre mouros e cristãos. Aqui, não. Há algo de terrivelmente sério numa Libertadores da América. Há algo de profundamente vital, essencial, humano num jogo deste torneio. Num jogo aí na Europa, numa cavalhada no Maranhão, numa peça de teatro, num filme sobre a Segunda Guerra temos garantias de que, acabado o espetáculo, sairemos são e salvos para o conforto de nossas casas. Façamos uma comparação: quem ganha o campeonato europeu, ganha a Liga dos Campeões, título um tanto insípido, cujo nome pouco significa. Quem vence o torneio da América do Sul recebe uma taça que homenageia os homens que tiraram os nossos povos do jugo dos europeus – de vocês – e colocaram o nosso próprio destino em nossas mãos. Quem vence uma Libertadores recebe uma taça cheia de ressentimento, dor, passado desgraçado. Uma taça cheia de sangue – do nosso sangue.

Lembro de ter visto certa vez um documentário sobre um antigo jogo dos maias, semelhante ao futebol,  que tinha um significado ritual, religioso, onde o vencedor era obrigado a sacrificar-se a um deus de nome impronunciável. O jogo, se bem me lembro, tinha algo a ver com a representação da criação do mundo. Nesse sentido específico, há um jogo, sim, na Libertadores. Um jogo sério – o que, como eu disse antes, não é propriamente jogo – mas antes um ritual que, como todo ritual, reproduz simbolicamente uma situação. Jogar a Libertadores é repetir a aventura dos espanhóis e portugueses por estas terras que nunca deixaram de ser totalmente selvagens. Os estádios têm auras míticas, são encobertos por névoas, espíritos dos índios mortos pelos conquistadores (que não são os teus, mas sim os meus ancestrais, por mais que nos custe admitir), dos conquistadores abatidos pela doença e pelas feras reais e imaginárias, dos imigrantes enganados por falsas promessas de fazer uma América bem diferente daquela com a qual sonharam. Quem joga uma Libertadores da América sobe aos Andes com o Basco Aguirre e enfrenta a cólera dos deuses andinos, furiosos por terem sido acordados de seu torpor forçado: lá em cima, o Sporting Cristal, o Nacional de Medellin, o Millionarios de Bogotá, o Bolívar e o Blooming são sacerdotes de uma estranha magia que rouba o ar do visitante e o deixa abatido para a decapitação (Sim, não há leis contra jogar na altitude, todos sabem que faz mal, que prejudica os pulmões, que põe em risco a vida do atleta, mas não interessa: é preciso cumprir o ritual). Lá de cima, pode mirar outro desafio terrível, a cidade de Cali, caliente e úmida como são as cidades da planície na Colômbia, verdadeiro inferno verde do América – nome altissonante e elucidativo -, quatro vezes vice-campeão do torneio, que enverga uma camisa vermelha assustadora. Desce quase quatro mil metros e enfrenta o temível estádio Defensores del Chaco, localizado em meio às desoladas planícies subtropicais do Paraguai, longe de Deus e da civilização, onde os inimigos do Cerro Porteño e do Olímpia recebem a dura vingança do povo paraguaio esmagado por uma guerra injusta covarde; pega uma barca às margens do Rio Paraguai, desce pelo rio Paraná e chega ao Rio da Prata, onde no passado aportaram miseráveis de todo o mundo em busca de pão em uma Argentina cheia de trigo e de vinho, mas também cheia de governantes corruptos e desalmados; alguns deles amontoaram-se em casebres miseráveis nas proximidades do rio e, junto a bolivianos, paraguaios e “cabecitas negras” do Norte argentino, recepcionam com paus e pedras, bumbos e bandeiras, voz e coração, aos inimigos do Club Atlético Boca Juniors. Há bairros que tem um clube; o Boca Juniors é o único clube que tem um bairro, válvula de escape para os dramas, as frustrações e as desgraças dos pobres moradores dos arrabaldes de Buenos Aires. Ali perto, em La Plata, um pouco mais ao sul, situa-se o Estudiantes de La Plata, mestre incomparável na arte de torturar o adversário – fisicamente, é claro, aos pontapés, aos cotovelaços, aos furos de agulhas escondidas nas meias. Tanto sofreram os ingleses do Manchester United na final do Mundial de 1968 que, indignados, reuniram os demais clubes europeus e decidiram, de uma vez por todas, que naquele continente de incivilizados não jogariam nunca mais.

Do outro lado do Rio da Prata, dois velhos gigantes aguardam cansados, quase adormecidos. São o Peñarol e o Nacional. Autênticos guerreiros, cheios de cicatrizes, com o olhar melancólico apontado para o sul ártico do mundo, olhar cansado e duro de quem muito lutou pela independência de dois gigantes vizinhos, os dois não assustam muito ao visitante desavisado. São clubes pobres de um país pequeno e pobre. Teoricamente, vencer uma equipe uruguaia é tarefa fácil.  Quase todos pensam assim.  O Brasil pensou assim em 1950.

Falando nisso: subindo os pampas uruguaios pelo noroeste penetra-se no continente Brasil. Ali os demônios que o peregrino enfrenta são outros, talvez ainda mais traiçoeiros. A simpatia e a bonomia inata dos brasileiros revela uma aqui uma face desconhecida e cruel. O Cruzeiro de Minas Gerais, terror dos argentinos e uruguaios, apelidado La Bestia Negra, joga seus adversários num campo imenso e cheio de armadilhas preparadas pelos escravos e pelos portugueses para quem se aventurar a tentar profanar o ouro inesgotável de suas Minas; o sorridente Rio de Janeiro despeja uma gargalhada malévola no Maracanã colorido pelo vermelho e pelo negro, as cores de Exu, o demônio da umbanda; já em São Paulo, cidade arrogante e poderosa, construída por uma raça de homens altivos e industriosos – os bandeirantes -, a cidade de todas as indústrias humanas, impõe-se o São Paulo Futebol Clube ao seu visitante com o dedo em riste e o olhar fime e desafiador. Em Porto Alegre, despertar a fúria do Grêmio de Porto Alegre  – o mais furioso de todos os nossos clubes – é despertar o furor do velho gaúcho defensor das fronteiras do Império contra o inimigo castelhano e convidá-lo para uma peleia de faca na mão ao som ribombante dos tambores da enlouquecida torcida do Tricolor chamado Imortal. 

Isso parece entretenimento, não é, João? Parece que dá uma certa graça ao torneio. De fato, achamos isso mesmo. Não creio que, para a gente, cadeiras almofadadas, lugares numerados, limpeza impecável nos banheiros e a presença efetiva – e não apenas simbólica – da polícia seja algo atrativo, desejado, esperado. Tudo isso transformará a nossa Libertadores em apenas mais um jogo, mais uma diversão, mais uma brincadeira. Pedir para que façamos isso é o mesmo que pedir a um católico que retire a comunhão da missa: sem o corpo de Cristo, a celebração não tem sentido. Sem o nosso corpo – exposto, maltratado, arriscado, sujo, enlameado – a Libertadores não existe e aqueles encontros de dois clubes passarão a ser meras partidas de um torneio qualquer como essa Liga dos Campeões. A Libertadores da América repete as contradições deste lado contraditório da América. A Libertadores da América é a confirmação do epíteto de que o futebol é como a vida. A Libertadores da América é, sim, como a vida – a nossa vida.

Sim, eu sei que escrevi muito. Fico por aqui.

Lembranças a ti e à família.

Um jogo é uma brincadeira. Assim como meninos brincam de soldadinhos de chumbo, vocês brincam de guerra no futebol. Vocês aí na Europa brincam de repetir as guerras do passado, transformando o gramado em uma guerra metafórica num tempo em que as velhas batalhas de capa e espada já não existem aí.Aí, o futebol é um espetáculo. Aqui, não.Há algo de terrivelmente sério numa Libertadores da América.

Jogar a Libertadores é repetir a aventura dos espanhóis e portugueses por estas terras que nunca deixaram de ser totalmente selvagens, que

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Discussão

Um comentário sobre “Carta a um amigo europeu

  1. Muito bom! Nada que eu já tenha lido, descreve tão bem a Copa Libertadores e de antemão, a América do Sul.

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    Publicado por Alexandre Berwanger | 16 de julho de 2009, 20:25

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