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O nosso patriarca e o deles

Os EUA são um país de múltiplas faces. Ao contrário do que sua imagem estereotipada pode passar, convivem no interior da sociedade americana desde os esquerdistas mais ferrenhos até os conservadores mais empedernidos, todos participando intensamente do debate público e promovendo leituras e releituras contínuas de fatos, pontos de vista e personalidades. Disto não escapam nem os grandes mitos da história americana, como John Kennedy, Ronald Reagan, Franklin Roosevelt e Abraham Lincoln, fustigados por ataques periódicos e sujeitos a altos e baixos conforme as tendências dominantes.

Neste país tão variado, há, entretanto, uma unanimidade, que todo americano, de direita ou de esquerda, liberal ou conservador, cristão ou agnóstico, negro ou branco, admira sinceramente e pelas mais diversas razões: a figura de Thomas Jefferson. É o mais proeminente dos Founding Fathers americanos, o maior presidente que o país já teve, um grande humanista do século XVIII, mestre inspirador da democracia americana e, acima de tudo isso, um exemplo de ser humano para todos os seus compatriotas. Os esquerdistas o leem como um precursor da social-democracia, preocupado que era com a distribuição equitativa de renda e com o fim das classes sociais. Os direitistas vêem nele um conservador que guiava sua vida por valores atemporais e, segundo algumas leituras, mesmo religiosos. O jornalista I.F. Stone, socialista convicto, dizia que inspirava-se mais em Jefferson do que em Karl Marx, e quando John Kennedy recebeu uma comissão de quarenta e nove vencedores do Prêmio Nobel na Casa Branca, quis fazer um elogio aos visitantes e declarou que aquela era a maior reunião de talento e conhecimento que já se havia reunido na Casa Branca – exceto quando Thomas Jefferson jantava ali sozinho.

A reverência parece exagerada, mas é bem justa. Os EUA devem mesmo muito a Jefferson. A ideia de república federada, absolutamente inovadora para a época, é criação sua. A noção do “American exceptionalism” também é dele. Seu horror à sociedade dividida por classes, típica da Europa de então, gerou um senso de igualitarismo quase feroz até hoje entranhado na sociedade americana e que muitos visitantes europeus confundiam – e ainda confundem – com plebeísmo mediocrizante. Por outro lado, Jefferson defendeu ardorosamente os princípios da liberdade individual e da livre-associação, duas das maiores marcas dos EUA desde sempre, como forma de equilibrar a balança e impedir que a democracia americana degenerasse em demagogia, como previu Aristóteles.

Por tudo isso, Thomas Jefferson não é somente um grande personagem histórico para os americanos: é um personagem atual e dos debates atuais. Quando alguém critica a proibição ao uso das armas de fogo (tema candente hoje) ele é lembrado por dizer que a razão mais forte para portar armas é ter, em último caso, possibilidade de defender-se contra a tirania governamental. Quando um grupo nazista resolve fazer uma manifestação nas ruas de Washington, o advogado lembra da sua defesa apaixonada da liberdade de opinião. Invocar seu nome numa discussão é um poderoso argumento de autoridade, algo como um católico citar Tomás de Aquino ou um comunista citar Marx num discussão entre pares – e os pares são, neste caso, todos os americanos.

A tudo isto nós, brasileiros, observamos com aquela velha mistura de admiração e inveja que aparece ao compararmos o Brasil aos EUA. E a comparação é inevitável: trata-se de um país gigantesco, multiétnico, culturalmente variado, cheio de recursos naturais e, acima de tudo, jovem, vigoroso e contente consigo mesmo, como nós gostaríamos que o nosso fosse. Quando assistimos aos filmes que se passam na Califórnia, no Alabama, na Lousianna, no Mississipi, na Virginia, no Tennessee, no Texas ou na Flórida vemos cenas que poderiam perfeitamente ser filmadas aqui. As ruas, porém, são mais limpas, os carros parecem mais novos, e sempre que algum nome ligado à fundação da república americana é citado – e não apenas Jefferson – faz-se respeitoso silêncio. O Brasil toma os americanos como exemplo em muita coisa, mas não neste ponto: não lemos o que os equivalentes brasileiros do passado escreveram, não imitamos suas atitudes, não tomamos suas palavras em consideração. Não os consideramos dignos de serem lembrados.

Não é por outra razão que muitos brasileiros, mesmo os mais cultos, desconhecem um homem como José Bonifácio de Andrada e Silva. Conhecem, claro, de nome. Com certeza há ruas em várias cidades homenageando ao Patriarca da Independência e muitos sabem da importância de sua figura para a História do Brasil. Nada além disso. Se José Bonifácio fosse lido por aqui, poderíamos, seguindo a nossa tradição de nos comparar com os EUA, chamá-lo de nosso Thomas Jefferson. Não creio que suas obras completas tenham sido publicadas alguma vez no Brasil e, se foram, estão esquecidas. Pode-se dizer, sem medo de errar, que José Bonifácio não representou praticamente nada para o debate público brasileiro de hoje. Será muito mais fácil encontrar algum admirador de Jefferson entre os nossos so called conservadores.

Alguém dirá: e daí? De quê nos valeria a leitura das obras de um provável pseudo-pensador bacharelesco do Brasil antigo? Sim, pois os homens próximos a José Bonifácio eram pouco mais do que isso – quando não eram exatamente isso – e foram, com toda a justiça, esquecidos. A questão é que José Bonifácio não era um deles. Além de cientista brilhante – era membro da Academia de Ciências de Coimbra e publicou trabalhos sobre botânica e geologia – foi um escritor prolífico de tratados e ensaios sobre temas que, vistos hoje, causam espanto pela sua atualidade. Foi quase contemporâneo de Thomas Jefferson, mas não há mostras claras de que se tenha inspirado nele para alguma coisa. Não poderia esperar, talvez, que os brasileiros acabariam por tomar Jefferson como modelo – e modelo naquilo que Bonifácio tinha muito mais a mostrar.

Difícil de acreditar? Vejamos, então. No seu ensaio “A Escravidão e a Formação Nacional”, José Bonifácio diz o seguinte:

“É preciso que cessem de uma vez os roubos, incendios e guerra que fomentamos entre os selvagens da Africa. É preciso que não venham mais a nossos portos milhares e milhares de negros, que morriam abafados no porão dos nossos navios”

Até aqui, Bonifácio é louvável como defensor dos direitos do homem num país escravocrata. Um homem corajoso e valoroso, como tantos outros em sua época. Porém, é no trecho a seguir que encontramos alguém que vai além disso – um visionário destacado de seu tempo e precursor de ideias que, no Brasil, só seriam admitidas na década de 30 do século XX:

“É tempo que vamos acabando até os últimos vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar uma nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes… cuidemos, pois, desde já em combinar sabiamente tantos elementos discordes e contrários, e em amalgamar tantos metais diversos, para que saia um todo homogêneo e compacto”

Temos aí nada menos do que um defensor da mestiçagem racial, numa época em que raça era um fator importante de diferenciação em todo o mundo. O negro, no Brasil, devia amalgamar-se ao branco, para produzir uma etnia nova, diferente e tipicamente brasileira. Como bom cientista que era, José Bonifácio decerto sabia que a mestiçagem, ao contrário do que pensava grande parte dos pensadores europeus de sua época, não era degenerativa. E, como brasileiro vivendo em Portugal, sabia que a própria ex-metrópole tinha uma população fortemente miscigenada com negros escravos e árabes. Não era, portanto, nada de tão novo na história da humanidade, e menos ainda no universo cultural do qual o Brasil fazia (e faz) parte..

O anglo-saxão Jefferson provavelmente não tinha notícia disto e tratou o problema da escravidão negra em seu país desta forma:

“As duas raças – brancos e negros – ….. não podem viver sobre o mesmo governo. Natureza, hábitos, opiniões criaram uma linha indelével de distinção entre elas”.

De acordo com o historiador Stephen Ambrose, “Jefferson, como todos os donos de escravo e outros momentos da sociedade americana branca, via os negros como inferiores, infantis, pouco confiáveis e, é claro, como propriedade. Jefferson, um gênio da política, não conseguiu ver maneira dos negros americanos viverem em sociedade como homens livres”. A solução que ele apresentava era expulsá-los do país, como os espanhóis fizeram aos mouros.

E Jefferson foi além:

“O amalgamento entre brancos e negros produz uma degradação na qual nenhum amante do seu país e nem amante da excelência do caráter humano pode consentir inocentemente.”

Assim pontificou o mestre e assim procederam seus diletos e esforçados alunos. De suas palavras saiu uma sociedade profundamente dividida pela raça, na qual até a década de 60 um negro não podia dividir um banco de ônibus com um branco e nem entrar nas universidades mantidas pelo Estado.

Neste momento, em que a contínua separação entre negros e brancos por muros institucionais, levada a cabo sem pudor e sem reservas pelo atual governo a partir da importação malfeita de ideias e políticas públicas que pouco têm a ver com a formação cultural brasileira, é de se perguntar se não falta justamente àqueles mais afeitos à “defesa do interesse nacional” quando o assunto é economia – o único assunto em que a palavra “nacional” parece ter algum valor para eles – um pouco mais de sentimento de brasilidade e de ligação com a própria cultura. Ou, vendo as coisas por outro lado, talvez pudessem imitar os americanos neste ponto em particular: o da veneração pelo seu patriarca. Que, aliás, merece muito mais atenção do que o deles.

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