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Entrevistas, Geral

“Não comemoramos o Natal na sua verdadeira dimensão”

O jovem estudante José Bonifácio Schmidt estava sofrendo de um mal muito freqüente entre os seminaristas: saudades de casa. Achou por bem dirigir-se ao reitor do seminário a fim de comunicar-lhe o problema. Schmidt e o reitor eram de origem alemã, como boa parte do clero do Rio Grande do Sul de então e falantes nativos do idioma de Goethe. Após ouvir as queixas do jovem, o reitor respondeu, com franqueza tipicamente germânica: “Desculpe, mas essa palavra saudade só existe em português”. Bonifácio ouviu quieto e retornou para junto dos internos. Não voltou para casa. Por ironia do destino, essa e outras particularidades idiomáticas e de tradução acompanhariam a carreira do jovem seminarista para sempre. O vigário episcopal de Canoas, nascido em Bom Princípio em 1944, é especialista em exegese bíblica, trabalhou com os originais das escrituras em hebraico, aramaico e grego (além destes idiomas, domina o inglês, o francês, o italiano, o alemão, o espanhol e o latim), foi professor da disciplina e pretende dedicar-se, no futuro, à divulgação da Bíblia e da sua mensagem para o povo. Que é, aliás, o que tem feito em nossa cidade e na região desde que aqui chegou, em 2001. Leitor contumaz das obras do Padre Comblin e de Thomas Kempis e sua Imitação de Cristo – além de, logicamente, da própria Bíblia -, padre Bonifácio recebeu-nos nesta terça para falar sobre o Natal, a origem de sua comemoração e seu significado.

Para começar, vamos esclarecer uma dúvida básica: Jesus nasceu ou não em 25 de dezembro do ano 1? Há quem diga que não foi exatamente nesse dia.

PB: Pode ter nascido ou não. Não há como provar. Ao menos não nas condições atuais, o que não se pode dizer que no futuro não se consiga fazer isso. O Dis natalis foi estabelecido quando o cristianismo chegou a Roma. Agora, não se sabe como e quando os costumes pagãos se tornaram cristãos. Exemplo: a palavra “mitra” era o nome de um Deus. Agora, Mitra significa a sede de um bispado. O dia 25 de dezembro era o dia do Deus Sol. O que o cristianismo fez? Assumiu que Jesus Cristo, a Luz do Mundo, nasceu naquele mesmo dia, ou melhor, que se celebraria o nascimento de Cristo naquele dia. Isso lá pelo século III d.C.

 Como se comemorava antes?

PB: Não se comemorava.

 Os primeiros cristãos não comemoravam o natal?

PB: Não, o centro da tradição e das comemorações cristãs não era o Natal. Os primeiros anos de Jesus não eram importantes. Comemorava-se a morte, ou melhor, o significado da morte de Jesus. A Páscoa foi, desde o início, a grande festa do cristianismo e continua sendo o centro da fé cristã. O Natal não era nem comemorado. Depois, a Igreja assumiu que este que morreu na cruz tem uma história como nós, nasceu de uma mulher, foi homem como nós. São afirmações bastante importantes para a pessoa que procura seguir Jesus Cristo. Só São Paulo foi o primeiro a referir o nascimento de Jesus no ano 57 D.C., 27 anos depois da morte de Jesus.

 Jesus nasce numa manjedoura e vêm três reis magos para visitá-lo. Qual o sentido dessa visita?

PB: Ela é elaborada. É um mito. Não sei se por Mateus mesmo ou por outros, mas é mito. Está no texto para indicar a finalidade mais universal da religião que ali nasce , pois os reis magos vem de povos pagãos para adorá-lo. Não creio tanto na possibilidade de que tenha acontecido de fato. Essa narrativa quer simbolizar que toda a humanidade está lá representada. Na verdade, na própria tradução não é exatamente isso o que aparece. Não são propriamente “reis magos”, mas sim “sábios”.

Na literatura fora da Bíblia o nascimento de Jesus está documentado?

PB: Sim. No II século há muitos documentos, que são os chamados evangelhos apócrifos, que trazem alguns casos interessantes e até engraçados. Num dos documentos, na fuga para o Egito, um leão se dispõe a cuidar do boi que levava a carroça de Jesus. Noutro, eles chegam a um oásis e Jesus percebe que a mãe estava com sede. Então ele manda a palmeira baixar até à frente dela para que ela pudesse beber o coco. Em outro, Jesus transforma pedras em passarinhos. Então, criou-se algumas coisas que parecem um tanto míticas. Os evangelhos canônicos, isto é, os escolhidos para fazerem parte da Bíblia, não têm tantos casos assim. Não são tão anedóticos e são mais coerentes entre si. Mesmo assim, há casos em que aparecem divergências.

O primeiro evangelho é o de Marcos, não é?

PB: Sim, do ano 65. Outros falam em 70 e o situam na região da Síria. Eu já penso que foi em Roma. Mas essa é uma questão técnica, de interpretação de textos originais. Todos os evangelhos coletaram tradição oral referente a Jesus, coisas que estavam sendo ditas pelo povo e que eram aceitas como verdade.

Todos os evangelistas presenciaram a vida e a pregação de Jesus?

PB: Não. Lucas certamente não presenciou. Marcos talvez alguma coisa, pois talvez tenha sido um menino que era de Jerusalém, de classe social mais elevada, que teria fugido nu e largou nas mãos dos soldados o lençol de linho, o que seria um indicativo de que se tratava de uma pessoa de mais posses. E Marcos tem uma visão bem interessante de Jesus. Se ele tivesse escrito vinte anos antes, ele teria escrito outro evangelho.

Porque?

PB: Porque ele mudou de mentalidade. Ele era um judeu, de Jerusalém, e não concordou com Paulo. Em Atos dos Apóstolos 12 está escrito que ele voltou para Jerusalém e não acompanhou Paulo. Depois do Concílio, no ano 49, Paulo diz a Barnabé para visitarem as comunidades que fundaram. Só que Barnabé sugere para que levem João Marcos. Houve briga e os dois se separaram. Barnabé e Marcos foram para Chipre e Paulo levou Silas e foi para a Anatólia. Portanto, se Marcos tivesse escrito naquela época o Evangelho teria sido bem diferente.

Padre José Bonifácio Schmidt

Como foram as primeiras comemorações do Natal?

PB: São Francisco foi o primeiro a fazer presépios, no século XII. Antes disso, não havia o aspecto visual, a representação do fato.

E a tradição de dar presentes?

PB: Tem a ver com os reis magos. Na tradição alemã, era comum dar presentes antes do Natal. Nós, em casa, recebíamos no dia 6 de dezembro, no dia de São Nicolau. São Nicolau é a base para a figura do Papai Noel e foi um bispo da Ásia Menor que tornou-se conhecido por dar presentes. Depois, passaram isso para o Dia da Epifania, que é o dia dos reis magos, no dia 6 de janeiro.

O cristianismo nasce com o nascimento de Jesus Cristo? Ou é algo construído posteriormente?

PB: O cristianismo se diz originário deste Judeu que nasceu em Belém, provavelmente, criado na Galiléia, que depois foi morto pelo poder invasor com a aprovação total do Sinédrio, que era a autoridade máxima judaica. Ou seja, uma persona non grata, uma pessoa destinada a ser esquecida e sua crucificação era um aviso para os que o seguiam. Ou seja, alguém que não servia. Uma coisa é o reconhecimento de que ele é o divisor de águas. Com ele começa uma nova história. Outra é a concretude. Os que se dizem cristão ficam muitas vezes mais no desejo de serem Jesus, segui-lo, do que propriamente serem, e nisso inclui-se bispos e padres. Há mais desejo de seguir do que segui-lo propriamente.

Mas a condição de discípulos não é inerente a todo cristão? Ou seja, alguém que erra e acerta, como um aluno em sala de aula? O cristão não está aí para errar mesmo? E para tentar acertar?

PB: Ele teria que ser o seguidor. Mas acontece que, em torno de Jesus, criou-se muitos mitos e as pessoas às vezes pensam que seguem Jesus mas na verdade seguem apenas os mitos pessoais, que elas mesmas criaram, acerca de Jesus. Na Igreja Católica, há um esforço para seguir quem é este Jesus. E o testemunho é a Bíblia, mais concretamente os quatro evangelhos, que nos dão os fatos da vida de Jesus e o que devemos fazer para segui-lo.

O que o cristianismo trouxe de novo para o mundo? Quais as grandes diferenças que o Mundo Cristão apresenta em relação ao Mundo Antigo?

PB: Acho que uma das diferenças que são acentuadas é que com Jesus Cristo não deveriam mais haver barreiras. Ele é alguém que convida todas as pessoas a fazerem parte da grande família católica, e católica, como sabemos, quer dizer universal. Sem barreiras. Sem ligação entre raça e religião. Além disso, o cristianismo é revolucionário ao dizer que toda pessoa tem dignidade e cada alma tem um valor específico. Recentemente, li uma notícia que me deixou escandalizado: dentre os nove homens mais ricos do mundo, quatro são indianos. Só que então me dei conta que há lá as castas e que elas legitimam que haja essa diferença abissal. Antes havia essa legitimação divina, era desejo dos deuses, era o destino, enfim, os homens eram colocados em patamares diferentes. O cristianismo acabou com isso.

Então, é um corte essencial na história da civilização?

PB: Sim, sem dúvida. Mas principalmente para o mundo ocidental. O mundo oriental não o acompanha tanto assim. O Islã já acompanha um pouco, porque Cristo é reverenciado por eles, claro que o maior é Maomé, mas Cristo é tido como profeta. Mas e os outros povos do Oriente? Os xintoístas, budistas, hinduístas e outras religiões? Será que podem olhar para isso como nós olhamos? Mesmo assim, acho que não podemos olhar só para o nosso lado. Temos que olhar planetariamente. Queremos salvar o planeta, o mundo todo, todas as pessoas. O planeta Terra é uma planetinha sem nenhuma importância no universo. O universo é algo imenso, gigantesco, e por trás deste universo deve haver uma inteligência. Não é possível que tudo tenha acontecido por acaso. O que esta inteligência pretendia ao criar este universo todo. Os seres que habitam esse planetinha Terra têm a pretensão de que Deus, o criador desse universo, que deu força evolutiva a uma energia concentradíssima, alguns têm a pretensão de que Deus tenha se apaixonado tanto pelas criaturas que vivem na Terra que dizem que essa criança é, além de pessoa humana completa, Deus. Essa é uma afirmação de fé. E quem diz isso são os cristãos. Eu digo isso. Como é que pode uma coisa dessas? Como é que Deus vai olhar para esta coisinha que é a Terra? E ainda para esses seres? Que não estão conseguindo se ajeitar neste planeta? Então, de fato, eu penso que uma visão planetária, uma visão generalista, se faz necessária.

E como poderíamos resumir o significado do nascimento de Jesus? Porque nós comemoramos o Natal?

PB: Celebra-se muito a inocência, a ternura, a amizade entre os familiares, mas não comemoramos o Natal na sua verdadeira dimensão. Comemoramos a reunião com os familiares, algumas coisas boas….mas não é o suficiente. O Natal é muito mais do que isso.

O entusiasmo do vigário episcopal de Canoas quando o assunto é a leitura e a interpretação da Bíblia motiva até ao mais empedernido descrente a conhecer melhor o livro mais importante de nossa civilização. Saí das modestas instalações do Vicariato Episcopal convicto de que o carisma do vigário foi um dom recebido justamente para despertar essa sede de conhecimento ao rebanho que lhe foi entregue para conduzir.

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Discussão

2 comentários sobre ““Não comemoramos o Natal na sua verdadeira dimensão”

  1. Navegando tive a satisfação de encontrar esta matéria que me deu SAUDADES dos tempos em que o Padre Bonifácio estava em Viamão, com quem tive e privilégio de atar relações de amizade. Lendo a entrevista confirmei a enorme cultura deste meu amigo pastor. Um grande abraço.
    Ao mesmo tempo recordei dos tempos em que estive ombro a ombro nas campanhas políticas do Jorge Uequed. Bons tempos aqueles. Se possivel transmitam um abraço para o amigo Jorge.
    Renato

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    Publicado por Renato Kerkhoff | 19 de janeiro de 2010, 10:14
  2. Favoritado para a próxima corrente de Natal.

    Curtir

    Publicado por Artur | 29 de janeiro de 2010, 11:55

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