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Entrevistas

Entrevista: Irmão Henrique Justo, educador e irmão lassalista

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Irmão Henrique Justo em sua biblioteca

A missão do educador cristão é formar para o Bem”

 

Por Celso Augusto Uequed Pitol

Os corredores do Colégio La Salle já se acostumaram com a presença do Irmão Henrique Justo. Não é para menos. Por estes corredores ele já passeia há nada menos do que setenta e cinco anos. Foi no ano de 1934 que o menino nascido em Poço das Antas, no interior gaúcho, veio para Canoas seguir com seus estudos, estranhando o fato de que nestas ruas o idioma corrente era o português, e não era o dialeto alemão de sua terra natal. Fundado em 1908, o La Salle conta mais tempo com a presença do irmão Justo do que sem ele. Emancipada em 1939, Canoas nem existia quando ele por cá aportou. Uma vida dentro de nossa cidade.

E uma vida dedicada à educação. O irmão lassalista soma nada menos do que sessenta e seis anos – tem oitenta e sete – dedicados ao ensino, das séries iniciais à universidade. Psicólogo com formação na França, na Espanha e nos EUA, é um dos pioneiros da psicologia humanista no Brasil, leitor de primeira hora de Carl Rogers, Igor Caruso e Viktor Frankl e responsável pela formação de vários psicólogos no Rio Grande do Sul e no Brasil todo. Leitor contumaz de Edith Stein, de Alfred Adler e de Fernando Pessoa, além dos já citados Frankl e Rogers, irmão Justo segue no mesmo La Salle que o abrigou há sete décadas, para o gáudio daqueles canoenses que, numa caminhada qualquer pelos velhos corredores do La Salle, podem encontrá-lo e desfrutar da generosidade e solicitude de um verdadeiro mestre.

Como começou a sua formação?

Irmão Henrique – Nasci em Poço das Antas, que na época era município de Montenegro. Comecei a estudar em escolas da paróquia, que foram muito importantes para localidades como essa. Se não houvesse essas escolas paroquiais, de iniciativa das paróquias, não haveria escolas, pois eram comunidades muito isoladas. Um Celso Pedro Luft, por exemplo, seria analfabeto, pois ele é de Poço das Antas também.

Fiz lá 4 anos de escola. Eu desde cedo fui muito ligado à Igreja, fui coroinha, mas não pensava em ser padre. Mas quando um irmão veio falar na minha escola, eu me agradei. Vim com 12 anos aqui para o La Salle para continuar os estudos no Internato São José (que funcionava junto com o Externato São Luís) a fim de me tornar irmão lassalista. Minha turma foi a primeira a fazer todos os estudos de fundamental e médio. Entrei em 1934 e fiquei até 1943, quando terminei a escola normal.

O senhor tinha 12 anos quando veio para Canoas e nunca tinha saído da região colonial alemã. Teve algum choque cultural?

IH – Não. Eu estava preparado, mas fiquei espantado porque aqui era falado o português por todos e isso não acontecia lá. Eu já sabia disso, porque meu irmão mais velho estava aqui e escrevia cartas em alemão, em letras góticas….

Em letras góticas?

IH – Sim, eu fui alfabetizado com o alfabeto gótico. Lia livros em letras góticas. Os livros mais antigos eram todos assim, em alemão e em alfabeto gótico.

E como era o estudo?

Estudávamos todos os dias, manhã e tarde. Vencíamos 7 horas em cinco, era um estudo muito puxado.

E porque escolheu a psicologia?

IH – Entrei na PUC em 1947 para cursar pedagogia. Não havia curso de psicologia na época. Estudei lá psicologia geral, psicologia do desenvolvimento…….ainda não estudávamos Freud e outras linhas de pesquisa. Estudávamos sensações, memórias, infância, adolescência, aprendizagem, psicologia diferencial. Depois, sim, fui conhecê-lo. Consegui então uma bolsa de estudos para Barcelona, no Instituto de Psicologia de Barcelona. Mas só consegui registro de psicólogo na década de 60, pois em 1962 saiu a lei que regulamentava a profissão. Aos poucos foram surgindo cursos de pós-graduação e depois a graduação.

E quando o senhor tomou contato com a obra do Carl Rogers, que é uma figura freqüente nos seus livros?

IH – Foi interessante porque eu saí da pedagogia da PUC achando que só existia a psicanálise no mundo. Só que eu não conseguia concordar com Freud. Achei determinista. Para ele, tudo acontece nos primeiros anos de vida. Mas eu pensei: como eu mudei desde pequeno! Quantas experiências tive! Pus em dúvida e fui à cata de outras coisas. Comecei a estudar Caruso – ele também era de Viena, seu pai era padre ortodoxo – , sobretudo o seu livro “Analise Psíquica e Síntese Existencial”. Depois de tanto buscar, acabei por encontrar o Rogers. Daí comecei a buscar livros dele, que deixou um campo aberto, não só para mim mas para toda a sua geração. Já Freud você não sabe onde ele buscou as noções. Há um livro de Erich Fromm “Grandeza e Limitações do Pensamento de Freud”, que faz justiça a Freud e o critica naquilo que tem de criticar. Fromm dizia que Freud era mestre de deduções, muito observador, mas sempre encaixava o que observava nos princípios que ele mesmo criava.

Assim como muitos marxistas, que têm o esquema pronto e colocam os fatos de acordo com o esquema….

IH – Sim, se os fatos não estão acordo com a teoria, pior para os fatos. Cito um exemplo de um rapaz que atendi certa vez e sentia-se muito triste por ser filho de mãe solteira. Eu disse “Graças a Deus”. Ele perguntou-me porquê e eu disse “Você pelo jeito tem sido bem servido. Está numa escola particular, acabando o colégio, tem boa aparência….”. E perguntei: “Escute, e se não fosse esse incidente você teria nascido”? E ele ficou pensando….nunca tinha pensado nisso. Agora, se eu fosse psicanalista – e eu sei do que falo, pois passei por psicanálise – ia começar a falar do passado, tentar resolver as questões que estão no passado…..e eu pergunto: de que adianta? Não se muda o passado. Ele dizia “eu acho que meus pais não me quiseram”. E eu disse “e agora?”. O que fazer agora? O caminho está à frente, não atrás. É para frente que se tem de olhar.

Existe o perigo de fazer do paciente um prisioneiro do seu próprio passado….

IH – Sim, de piorar uma situação do individuo, pela sugestão, pela interpretação, pois a interpretação é a chave da psicanálise e é algo extremamente complicado e perigoso. Como disse o próprio Jung, interpretar um subconsciente é como dar um tiro no escuro. Porque um fato pequeno para mim pode ser um fato muito importante para você e vice-versa.

E quanto a Jung? Que pensa dele?

IH – É bem diferente de Freud, apesar de ter trabalhado com ele. Tem algo de místico, é mais aberto, trabalhou com um volume de informações impressionante, estudou religiões a fundo, viajou para o Oriente…..

Então, Carl Rogers ajudou a ampliar-lhe horizontes?

IH – Sim, sem dúvida. Ampliou-me muitos horizontes. A gente agradece ao Freud, assim como agradecemos aos médicos do século XVIII, XIX que desenvolveram a ciência e a medicina. Agora, não é por isso que eu vou me consultar com um médico daquela época (risos). Vou buscar algo mais atualizado. Agora, note que Carl Rogers não quis fundar uma escola. Quando ele esteve no Brasil – e eu tive cursos com ele nos EUA e no Brasil – uma psicóloga carioca disse “eu também sou rogeriana” e ele disse “Não e possível! Só há um rogeriano no mundo e este alguém sou eu!”. Isso era fantástico nele. Rogers queria que cada um pensasse por si próprio. Quando se fala numa corrente com um nome, isso quer dizer que esses princípios, essas descobertas, continuarão iguais. Engessa. No caso da psicanálise, é sempre a mesmíssima lenga-lenga, encaixando tudo o que o paciente sente em conceitos prontos, já estabelecidos, que nem sempre correspondem à realidade.

Em 1970, foi quando o senhor parou de dar aulas no Ensino Médio (que recebia outro nome na época). Deu, portanto, três décadas de aulas para adolescentes. Nota alguma diferença do ensino daquela época para o atual?

IH – Sim, noto. Há outros problemas, claro que muitos são sociais, a mãe trabalha, famílias menores, mas eu noto que havia uma unidade de visão, unidade de atitude, até porque todos os professores eram irmãos, religiosos,, e isso eu noto que não existe hoje.

Eu, quando pego um livro didático da geração dos meus pais, ou de gente mais velha, eu sinto até vergonha, tenho a impressão de que o ensino de ciências humanas no Brasil piorou bastante….

IH – Veja então que aqui, no La Salle, eu fundei aqui um Grêmio Literário – do qual participou gente como o Walter Galvani, por exemplo – e ele até hoje se impressiona ao lembrar, porque eram meninos, com 14, 15 anos, liam Camões, clássicos……

Mas o senhor acha possível repetir isso hoje?

IH – Acho que sim. Dá para superar o problema da falta de leitura com mobilização, não com repetição de fórmulas. Lembro de um professor de filosofia que reclamava que a turma não estava atenta, e eu dizia que o aluno passava os dias com ruídos, buzinas, barulhos, e quando chega à sala de aula o professor só fala, fala, fala….. Porque não dá o texto para eles? Porque não os faz pensar? Lembro do Irmão Teodoro Luiz, catalão, que chegava na sala de aula e dizia “livro tal, página tal, leiam”. Saía então da sala e meia hora depois voltava e perguntava: “o que vocês entenderam”? Isso fazia os alunos pensarem, raciocinarem. Lembro que dei aulas de latim para jovens, quando o latim foi incluído no currículo dos alunos de 12 anos. Diziam na época: “é impossível ensinar latim para alunos tão novos”. Aceitei o desafio. Mas ensinava o latim em função do português. Por exemplo: porque “manual” tem a ver com mão? “Advocacia” com advogado? “Aquático” com água?

Falando em latim: o senhor acha que os estudos clássicos, que eram comuns na sua época, podem ser retomados hoje para os jovens?

IH – Acho que sim, mas é preciso motivar, despertar curiosidade. Senão, nada feito.

Qual é a missão dos educadores?

IH – La Salle diz que o mestre é o auxiliar e substituto dos pais naquilo em que ele não tempo ou não pode ensinar. Veja que, antigamente, os pais ensinavam tudo aos filhos, que nem freqüentavam escola, muitas vezes, pois o que lhes era ensinado bastava. Hoje, não. É preciso que o professor cumpra esse papel. E que use o seu tempo para o estudo e o conhecimento, para aperfeiçoar-se. Dizia La Salle: “vossa ignorância seria criminosa, já que teria como conseqüência a ignorância dos alunos”

E um educador cristão, como o senhor?

IH – Formar para o bem. Sempre. A religião cristão é isso, orientar a pessoa na direção do bem. As pessoas pensam “ah, estou ofendendo a Deus”…..Sinceramente, acho que Deus não está tão preocupado assim. Ele não precisa de nós, nós é que precisamos Dele. Ele é perfeito, nós somos imperfeitos, ele de nada precisa e nós precisamos da presença Dele. Então acredito que um educador cristão deve fazer isso: formar para o bem.

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