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Cinema

Entrevista com Antonio Jesus Pfeil


“Não adianta assistir a filmes estrangeiros, conhecer a cultura deles, saber tudo das cidades deles e não conhecer a rua que fica atrás da tua casa”


Quem tem o prazer de encontrar Antonio Jesus Pfeil caminhando por Canoas nota logo de cara um contraste. Literalmente, logo de cara – no meio de centenas ou milhares de faces preocupadas, amarradas, com os olhos saltados e a testa franzida, Pfeil nos apresenta uma cara tranqüila, um ar bem disposto, um caminhar desapressado e, não raro, uma trilha sonora composta por grandes músicos das décadas de 40, 50 e 60 e executada por ele mesmo, ali, à nossa frente, no meio do coro de buzinas, freadas, motores e gritos de comerciantes que caracterizam o centro de Canoas. Jesus Pfeil parece um legítimo outsider, um estranho numa terra estranha, destino bastante provável para quem, como ele, resolveu viver da arte e da cultura num lugar em que estas duas palavrinhas são muito pouco cultivadas. Cineasta há quase cinco décadas, três Kikitos na bagagem (pelos curtas “Cinema gaúcho dos anos 20”, “Leão do caverá” e “Porto alegre, adeus”) um sem-número de publicações sobre a história do cinema gaúcho (assunto no qual é pioneiro e eterna referência) e a de nossa cidade (os dois volumes de Canoas – Anatomia de uma cidade, constituem obra obrigatória para quem quer estudar a fundo a formação do município), Jesus Pfeil é um outsider até que bem sucedido. Ele provavelmente concordaria com isso não fosse o termo utilizado: ao ouvir que é um outsider, ele provavelmente apontaria o dedo e, sem abandonar a sua inata bonomia, diria: “deixa de ser colonizado, guri!”.

* *          *          *

Nasceste em Canoas?

Antônio Jesus Pfeil: Em Santa Rita, quando ainda era parte em Canoas. Canoas nasceu em 27 de junho de 1939 e eu nasci em 7 de outubro de 1939 e vim com 1 ano de idade para cá, ou seja, sou um pouco mais novo que a cidade (risos). Com 7 anos entrei para o La Salle e fiquei até a 1ª série ginasial. Mas estudei numa época em que se ensinava Latim e Francês, o ensino era muito melhor do que o de hoje. Até que um dia eu pensei “não quero ser médico nem advogado, nada do que exija diploma”. Eu quero cultura. E fui atrás de cultura.

Como surgiu a vocação cinematográfica?

AJP: Eu ia ao cinema do velho Matos, assistia aos filmes e dizia “quero conhecer o Rio, quero fazer cinema”. Foi despertando em mim esse meu lado e descobri que nada me interessava, apenas a arte, o que me dava prazer. E fui levando a vida assim, atrás de coisas que me dessem prazer. Depois fui fazer o serviço militar

Depois do serviço militar, trabalhou com o que?

AJP: Teatro. O TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) veio a Porto Alegre, com Leonardo Vilar precisavam de gente pra fazer uma figuração e eu fui. Foi pra morar com meu padrinho que morava no Rio e ali fiquei, ali na Cinelândia. Isso era 1962.

 Morou no Rio na época em que ele merecia o titulo de cidade maravilhosa, não é?

AJP: Era muito bom. Tinha bares que a gente freqüentava, como o Beco das Garrafas, onde a Elis cantou. Fiquei dois anos lá para fazer cinema. Ficava na Cinelândia vagabundeando com os amigos no bar amarelinho. Fui para lá com 23 anos. Nunca tinha saído de Canoas.

Para ti esse período da Cinelândia deve ter sido impactante, não é? Ainda mais vindo duma cidade como Canoas que tinha uns 100 mil habitantes na época…..

AJP: E como! E foi ótimo. Conheci escritores, vi Otto Maria Carpeaux passando na minha frente, conheci o Walmir Ayala, Lucio Cardoso, enfim, vários. Depois fui trabalhar na Herbert Ritchers, ficava na produção, fazia uma ponta num filme e noutro. Depois comecei a trabalhar como assistente de direção em filmes como “O Tropeiro”, fui assistente também em “Um certo capitão Rodrigo”, do Anselmo Duarte. Aqui quando filmamos “Um certo capitão Rodrigo” do Anselmo Duarte, eu fui assistente de direção e fiz uma ponta. E estava no centro dos acontecimentos. Eu saí, na verdade, por causa da revolução de 1964. Fui para Minas entregar uns filmes quando recebi a noticia de que havia estourado o golpe militar. Aí me vim embora pra Canoas. Aqui, 1969 eu fiz um filme em Super 8, o câmera foi o Claudio Martini, que hoje é médico, o filme era “O Sonho do Pedreiro”. E a partir de 1966, três anos, eu comecei a estudar a fundo o cinema do RS.

O que te motivou?

AJP: Após ler livros, como “70 anos de história do cinema brasileiro”, que só citava dois filmes gaúchos, eu pensei “só isso? Não pode ser”. Então fui a museus, comecei a estudar jornais antigos, descobri quando vieram os primeiros filmes. Ajudei a fundar o centro de pesquisadores do Cinema Brasileiro e a fazer a primeira mostra de cinema brasileiro em Gramado. E em 1973, no primeiro festival de Gramado, fiz parte do 1º. júri. Depois mais tarde descobri vivo o Eduardo Abelim, que filmou na década de 20, foi um dos pioneiros do cinema gaúcho, lá em Niterói, estado do Rio. Trouxe-o para cá. Escrevi um livro chamado “Os caminhos que levaram Eduardo Abelim a um sonho sem fim”. Depois criaram o premio Eduardo Abelim e eu fui o primeiro a dar o prêmio. No discurso, um amigo meu, o Carlão, começou a falar de trabalho, da importância do trabalho de quem encontrou os filmes e o próprio Abelim. Eu disse “Carlão, pára de falar de trabalho, tem que falar sobre a importância do ócio, sem isso eu não tinha descoberto o Abelim, foi vagabundeando que eu descobri o Abelim” (risos). O cinema todo riu.

Eu noto que boa parte da tua obra é feita de obras de história, recuperação do passado, mais até do que obras de ficção.

AJP: Sim, o meu trabalho é história. Eu tenho filmagens da posse do 1º prefeito, em 1939, a construção da Praça da Bandeira. Está tudo comigo. Tenho filmagens do Capão do Corvo da década de 40. Tenho mais de 2 horas de imagens antigas de Canoas filmadas. Tenho coisas dos anos 60, 70. Tenho filmes de 1912 de Porto Alegre. Enfim, gosto de recuperar essas coisas todas. Depois comecei a me interessar pela história de Canoas e passei a escrever também. Escrevi o “Canoas – anatomia duma cidade” e estou juntando material para o 3º. Volume, que cobre de 1965 pra cá.

Tu fizeste algumas críticas sobre o uso do Super Oito, que era muito utilizado naquela época por ser mais barato, não é?

AJP: Sim, eu dizia pro Walmor Chagas que a ditadura tava perdendo um grande instrumento de tortura, o cara podia escolher entre 30 minutos de porrada ou 5 minutos de super oito (risos).

Por conta disso e de outras coisas, tiveste algumas dissensões de opinião com o Gerbase, Assis Brasil e outros que estavam começando na época, não?

AJP: Sim, eu fiz algumas criticas a eles. Mas eles me conhecem, hoje nos damos bem. Discordar é natural. Eu sempre fui fã do cinema nacional, mas sempre critiquei coisas tipo Teixeirinha e tal. Ate que o Paulo Emilio Sales Gomes me disse que o pior filme brasileiro nos diz muito mais do que o melhor filme estrangeiro. O Teixeirinha representa um pouco do que nos somos. Não adianta assistir a filmes estrangeiros, conhecer a cultura deles, saber tudo das cidades deles e não conhecer a rua que fica atrás da tua casa. O colonizado é um capacho, um traidor. Eu tenho horror de colonizado.

Sempre tiveste essa preocupação com a dominação cultural?

AJP: Sim. Os caras falam, “ah, a cultura é universal”. Eu concordo, a cultura é universal. O cara pode saber tudo dos EUA, mas tem que saber da Alemanha, da França, etc, etc. Ser colonizado é valorizar apenas o que os americanos fazem.

E dentro dos filmes americanos, quais tu destacas?

AJP: O que acontece é que a maioria dos filmes americanos bons não foram feitos por americanos e sim por diretores estrangeiros que iam para lá, italianos, franceses, alemães, russos. Isso durou até os anos 50, a partir dos 60 só veio filme com efeitos especiais que se repetem. Eu assisti a todos os filmes clássicos americanos. Orson Welles, por exemplo, é um grande diretor, na época dele se fazia cinema com qualidade e o principal, criatividade. Chaplin, o velho Hitchcock, eram ingleses, mas trabalharam lá. Depois deles vieram os efeitos especiais e as historias passaram a se repetir. Atrizes como Marlene Dietrich, Greta Garbo, eram bonitas e faziam filmes bons. “E o vento levou” é um grande filme…..os filmes mudos…..enfim, havia muita coisa boa.

E o cinema europeu?

AJP: Eu gosto, mas não passa em lugar algum. É mais um sintoma da dominação cultural.

E o cinema brasileiro?

AJP: Já fomos o terceiro maior produtor de cinema do mundo. Primeiro a Índia, depois os EUA e depois nós, fazíamos uns 300 filmes por ano. Isso em 1974. Depois que o Collor entrou acabou com a EMBRAFILME e aí acabou também o nosso cinema.

Qual a tua opinião sobre o fim dela?

AJP: Mas foi o fim da picada. Esse país não tem macho. Tirando eu, todos morreram em 30. A EMBRAFILME tinha produtora, distribuidora, tinha uma lei que exigia que cada Cinema tinha que passar 174 dias de cinema brasileiro. E tinha fiscais. Todo cinema tinha fiscais da Embrafilme.

Mas hoje o cinema brasileiro está retomando espaço, não?

AJP: Não é bem assim. Tem essas leis de incentivo a cultura, essas coisas, que ajudam a fazer o filme. Mas só passa filme brasileiro na TV se a Globo estiver produzindo, senão não passa. Com incentivos fiscais o cara só ganha dinheiro se fazer o filme e não exibir. E depois tenta exibir, sem grandes espaços, raramente se vê um filme brasileiro exibido nos grandes cinemas. Por isso eu não dou mole para americano. As vezes querem que eu vá pros EUA e eu não vou.

OT: Alguns filmes brasileiros já são exibidos no exterior…..

AJP: Mas sabe como é lá nos festivais lá? No Oscar de melhor filme estrangeiro? Não pode ter cartaz do filme, fotos, nada. Só o nomezinho do filme na bilheteria e bem pequeno. Não pode ter cartaz. Eles só são democratas quando concordam contigo. Eu sempre digo que a democracia é lado cínico da liberdade. A ditadura não engana ninguém, se tu queres brigar com eles, tu sabes que vai ser torturado e morto. Na democracia tu vais contra eles e eles se juntam e armam algo contra ti, eles soltam algo contra ti na imprensa, até tu provares que és inocente estás desmoralizado.

Mas e filmes como Cidade de Deus, Tropa de Elite, que conseguiram um bom espaço internacional?

AJP: O Cidade de Deus é bom, Tropa de Elite também, eles mostram o aspecto social. Mas o importante é invadir o mercado. Eu noto, sim, que estamos recuperando aos poucos. Eu que eu acho é que deveria retomar a EMBRAFILME, com todos aqueles incentivos, aí sim o cinema brasileiro vai retomar o espaço que tinha antes. E claro que melhorou tecnicamente. Mas, do ponto de vista criativo, eu tenho minhas duvidas.

E o cinema dos nossos países vizinhos, chega a acompanhar?

AJP: Mas, guri, teve época que passava filmes mexicanos, argentinos, tudo isso passava. O Cantinflas era um ídolo aqui e era mexicano. Hoje nada entra. O cinema europeu também, a não ser numa Casa de Cultura ou algo parecido. No mercado, não. A Índia que é o maior mercado mundial de cinema, é totalmente desconhecida aqui. O Glauber dizia que o cinema era uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Hoje eu digo que o cinema atual é feito de muitas câmeras na mão e nenhuma idéia na cabeça (risos).

 Nunca pensaste em sair de Canoas?

AJP: É a minha terra. Eu não tenho vontade de ir para algum lugar. Tenho vontade de passear, de ir a Paris, que eu planejo ir. Mas lá o futebol já domina, até lá já chegou (risos). Eu queria ter nascido burro para me contentar com cervejinha e futebol.

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Discussão

4 comentários sobre “Entrevista com Antonio Jesus Pfeil

  1. O Jesus é uma das poucas pessoas que continuam autênticas e sem se dobrar às facilidade. É um coração que não se vende. A sua grande contribuição para a cultura – entendida e exercida como uma busca consciente – só não é plenamente reconhecida porque ele continua dando chute em ponta de faca. Mas se ele fizesse o contrário, beijasse a lâmina que castra, não encarnaria um certo encanto canoesnse que já existiu. O Jesus é o espírito irrevernte de uma Canoas que a mediocridade sepultou. Lí a entrevista e,daqui, distante, mando o meu abraço.
    Adilson Brilhante
    Boa Vista – RR

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    Publicado por Adilson Brilhante | 15 de março de 2010, 14:55
  2. O único estudioso do cinema que mora em Canoas é Antônio Jesus Pfeil. Ele viveu e vivenciou o que acontecia no eixo Rio-São Paulo em termos de cinema, mas acabou deixando o centro do País e retornou a Canoas, onde vem se dedicando ao resgate da cinematografia gaúcha. É um dos raríssimos que se mantém nativistas. É elogiável a sua dedicação pelo resguardo das coisas relacionadas com o cinema gaúcho, porém discordo quando ele cita que o fim da Embrafilme acabou com o cinema no Brasil. A Embrafilme privilegiava, isso sim, um grupelho de cineastas e pseudos cineastas, tipo Arnaldo Jabor (“Eu TE Amo”, “Toda Nudez Será Castigada” e “Eu Seu que Vou Te Amar”), e que serviu para a auto-locupletação de muitos, pois todos os filmes (havia muito mais de pornografia do que de arte), eram subsidiados com recursos públicos, e sem a propalada fiscalização referida por Jesus.
    De arte mesmo, dos muitos filmes brasileiros que tentei assistir, me restam a lembrança de “O Pagador de Promessa” (1962), com direção de Anselmo Duarte, vitorioso com a “Palma da Ouro”, em Cannes / França e, ressalvando como meritóprio, as “famosas chamchadas” com Oscarito, Grande Otelo, Ankito, Zé Trindade, Mazzaropi, Vicente Celestino (destaque-se “O Ébrio”), Anselmo Duarte, Leonardo Villar, Geraldo Del Rey, Norma Bengell, Eliana Macedo, e as cenas musicais com Francisco Carlos, Cauby Peixoto, Marlene, Emilinha Borba, Agnaldo Rayol, etc e etc. Depois desses uma meia dúzia dava para assistir, a menos que estivesse com “sede de sexo” e afim de se …
    É preciso, sim, uma entidade que incentive a retomada da produção de filmes no Brasil, e não apenas ter que se assitir as produções da Rede Globo (monopólio da comunicação na forma mais abrangente possível), mas filmes com bons enredos, bons roteiros e sem as apelações que tinha, PRATICAMENTE 80% A 90% dos filmes como aberrante bordão a expressão “PORRA!”. Se não tivesse esse bordão não era filme brasileiro com certeza …
    Ass: Xico Júnior – Jornalista, Acervista, Historiador e Escritor, e diretor/editor da Gazeta de La Stampa – Canoas-RS.

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    Publicado por Xico Júnior | 26 de maio de 2010, 00:07
  3. Por favor, eu gostaria de saber o nome do filme que o Antonio Pfeil dirigiu em 1979 sobre o pianista Roberto Szidon… Alguém sabe?

    Curtir

    Publicado por Andrea | 31 de maio de 2012, 13:26

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