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Cinema

Um Holmes real

A resposta da crítica ao mais recente Sherlock Holmes foi irregular. O diretor, Guy Ritchie, foi acusado por alguns de ter produzido um Holmes que pouco tem a ver com o original de Conan Doyle. Para essas pessoas, o personagem interpretado por Robert Downey Jr. (que vem retornando em excelente forma ao primeiro time do cinema) é excessivamente “físico”: gosta de artes marciais (ou do que assim se chamava naquela época), envolve-se em combates (seja por esporte, seja por pura necessidade), é ágil e bem formado fisicamente. É, também, triste e deprimido, usuário frequente de drogas e apresenta, segundo algumas leituras (não a minha) um certo homossexualismo escondido. Alguns críticos chegaram mesmo a ver neste Sherlock Holmes de Guy Ritchie uma tentativa de desconstruir o mito em torno do personagem de Conan Doyle, aproximando-o de outras obras do diretor, como Snatch e Jogos, trapaças e dois canos fumegantes. O crítico australiano David Stratton foi definitivo sobre a história: “não é, de modo algum, o terreno de Sherlock Holmes”. Queria com isso dizer que Sherlock Holmes – o personagem, o cenário, o mito – não é terreno para Guy Ritchie. Este senhor deveria manter-se longe de um dos grandes personagens da literatura policial e tratar de ir fazer seus filmezinhos sobre bandidos, gângsters e gente violenta.

Será mesmo? Vejamos. Um estudo em vermelho foi a primeira história de Sherlock Holmes escrita por Conan Doyle. Nela, o doutor John Watson, recém retornado do Afeganistão, procura um apartamento para alugar e, por acaso,  encontra o famoso detetive através de um conhecido em comum. Combinam então de ir morar juntos, dividindo o aluguel. A convivência entre os dois é tranquila. Holmes vive entretido com seus tubos de ensaio, seu violino, seus relatos de casos escabrosos e seus encontros com clientes. Watson, por sua vez, vive observando o seu excêntrico colega de quarto com um misto de surpresa e admiração. Admira-o por a sua dedicação de trabalho, sua prodigiosa capacidade dedutiva e o absoluto domínio dos temas concernentes à sua profissão. Não deixa de ficar surpreso, porém, com a sua tendência a ficar deprimido (passa dias sentado em seu quarto sem dizer palavra, mirando o vazio) e a suspeita de uso de drogas (que será posteriormente confirmada), além da total ignorância que o detetive demonstra ter sobre coisas como a teoria heliocêntrica: o mesmo homem que conhece química como um especialista não sabe que a Terra gira em torno do Sol. Watson tenta avisá-lo da novidade; ele agradece e diz que fará o possível para esquecer, pois não quer ocupar espaço do seu prodigioso cérebro com tais frivolidades.

O espanto causado no velho médico do Exército Britânico leva-o a elaborar uma lista com aquilo que Sherlock Holmes conhece. Ei-la:

Sherlock Holmes – seus limites

l. Conhecimento de literatura: nulo.

2. Conhecimento de filosofia: nulo.

3. Conhecimento de astronomia: nulo.

4. Conhecimento de política: fraco.

5. Conhecimento de botânica: variável. Entende de beladona, ópio e venenos em geral. Não sabe nada sobre plantas úteis.

6. Conhecimento de geologia: prático, mas limitado. Distingue, à primeira vista, diferentes tipos de solos. Depois de suas caminhadas, mostra-me manchas em suas calças e diz, a partir da cor e da consistência, de que parte de Londres são.

7. Conhecimento de química: profundo.

8. Conhecimento de anatomia: acurado, mas assistemático.

9. Conhecimento de publicações sensacionalistas: imenso. Parece conhecer cada detalhe de todos os horrores perpetrados neste século.

10. Toca violino bem.

11. Perito em esgrima e boxe. Um espadachim.

12. Bom conhecimento prático das leis inglesas

A lista do doutor Watson apresenta-nos, em resumo, o Sherlock Holmes que aparece nos livros de Conan Doyle. Um sujeito ágil, forte, bom lutador e com espírito prático, mas também cerebral, excepcionalmente competente e com dotes artísticos inegáveis. Por um lado, um compenetradíssimo profissional, com inabalável senso de dever. Por outro, um viciado em drogas  que se afunda em crises depressivas. E é este, exatamente este, o Holmes que aparece em Sherlock Holmes, de Guy Ritchie. Sem tirar, nem pôr. Parece que o diretor inglês tirou um xerox da lista do Dr. Watson, pregou-a na parede e passou os dias a recitá-la antes de iniciar as filmagens.Poder-se-ia, inclusive, acusar o diretor inglês de alguma falta de imaginação e de coragem ao transpor Holmes para as telas. Sim, senhores: ao contrário do que muitos dizem (provavelmente aqueles que nunca pegaram um livro de Conan Doyle para ler), Guy Ritchie é um sherlockiano ortodoxo.

Deixemos claro: por “ortodoxo” entendemos “fiel ao livro”. Não há nada no filme que não haja nos livros de Conan Doyle.  O Sherlock Holmes de Ritchie não se parece, isso sim, com o Holmes do cinema, aquela figura clássica consagrada por Basil Rathbone e imitada à exaustão por todos os diretores posteriores. Este é um Holmes não suja os pés de barro, não luta com ninguém, não tem amigos no submundo (os famosos irregulars, que tanto lhe auxiliam, são figuras absolutamente inverossímeis nestes filmes) e só se mete com bandidos porque, sem isso, não há história. Está bem longe do Holmes de Conan Doyle e de Ritchie, que bem pode ter caminhado pelas dark streets of London do fim do século XIX e só não teria ocupado o 221B da Baker Street porque este não existia à época (à época, a Baker só ia até o número 100).

E não só porque tem a ver com os livros. Robert Downey Jr. encarnou com perfeição um típico cidadão inglês do fin de siécle, uma mistura de dândi e gentleman, um cidadão do Império e um europeu culto, apreciador de novidades e disposto a experimentar tudo. A Londres de Holmes é a do fim do século XIX. Após as reformas sociais de Gladstone e Disraeli, as cidades inglesas não se parecem tanto assim com aquele amontado de casas de tijolos à vista envoltas em fumaça e cheias de miseráveis que aparece nos romances de Dickens e na obra de juventude de Engels, A Situação das classes trabalhadoras da Inglaterra, que hoje pode ser lido como um excelente livro-reportagem. Quem o reconhece é o próprio Engels no prefácio da edição inglesa de 1892:  “Again, the repeated visitations of cholera, typhus, small-pox, and other epidemics have shown the British bourgeois the urgent necessity of sanitation in his towns and cities, if he wishes to save himself and family from falling victims to such diseases. Accordingly, the most crying abuses described in this book have either disappeared or have been made less conspicuous.” Ainda há pobreza, claro, mas nada que passe dos limites.

Além disso, Londres já começa a ter a feição multicultural que hoje a ela associamos. O Império Britânico está no seu auge, os ingleses exportam de tudo para o mundo todo e começam a importar, pela primeira vez, o que vem das suas colônias. Bem fiel ao gosto pelo exótico que caracterizou o fim do século XIX, fazem sucesso na cidade as tapeçarias árabes e aromas indianos e sociedades secretas divulgam entre iniciados os conhecimentos esotéricos aprendidos em terras distantes. Quem passeia pelas suas ruas  vê indianos, chineses, alguns negros e, ao dobrar uma esquina, escuta-se o fiddle irlandês. Já não é, seguramente, a cidade imunda e desagradável das primeiras décadas do século XIX. Esta Londres é a capital do mundo, e, seu cidadão é um cidadão do mundo.

É o caso de Holmes. Os filmes feitos até agora mostram apenas o seu lado ascético e compenetrado, deixando de lado as suas incursões – bem descritas no livro e muito presentes na personagem – pelo lado, digamos assim, dionisíaco da vida. O Holmes que Conan Doyle criou é este aqui – e, se de fato tivesse existido, provavelmente também seria mais ou menos como ele.

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Discussão

2 comentários sobre “Um Holmes real

  1. Watson fez a planilha do Holmes para RPG… hehehe.

    Curtir

    Publicado por Artur | 11 de março de 2010, 17:02
  2. O Jesus é uma das poucas pessoas que continuam autênticas e sem se dobrar às facilidade. É um coração que não se vende. A sua grande contribuição para a cultura – entendida e exercida como uma busca consciente – só não é plenamente reconhecida porque ele continua dando chute em ponta de faca. Mas se ele fizesse o contrário, beijasse a lâmina que castra, não encarnaria um certo encanto canoesnse que já existiu. O Jesus é o espírito irrevernte de uma Canoas que a mediocridade sepultou. Lí a entrevista e,daqui, distante, mando o meu abraço.
    Adilson Brilhante
    Boa Vista – RR

    Curtir

    Publicado por Adilson Brilhante | 12 de março de 2010, 21:59

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