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Reportagem

“O rock ainda não se consolidou em Canoas por uma questão cultural”

O cenário não poderia ser mais característico. Três amigos músicos, apaixonados por rock´n roll, reúnem- se em volta de uma mesa de bar e resolvem pôr um fim na banda que têm e partir para outro caminho. Passado algum tempo, a nova banda se consolida e está firme no caminho do sucesso. Fosse um filme, alguém diria que é uma cena malfeita, tantos são os clichês ali presentes. A cena, porém, é verdadeira, garante Carlos Vinicius de Sá, baterista da banda Os Flutuantes, acompanhado por Rodrigo Ribeiro (baixo), Vinício Eduardo (guitarra) e Fabiano Nasi (vocal). Aliás, este é o único clichê que pode ser associado a eles. Numa época em que “rock gaúcho” tornou-se um rótulo envergado por bandas desejosas de atrair um certo público, com uma certa roupa, com um certo sotaque e uma certa postura dentro e fora do palco, Os Flutuantes mostram uma surpreendente originalidade vinda dos mesmos lugares onde esse rótulo foi criado: o underground porto-alegrense. Originalidade calcada num passado de algumas décadas atrás – The Who, Jimi Hendrix, MC5, a Jovem Guarda – sem jamais resvalar para a simples imitação, atitude infelizmente muito comum entre os rockers do paralelo 30. Nesta entrevista, Carlos Vinícius nos fala da sua incursão pelo mundo da música, as especificidades que rondam o rock gaúcho, as dificuldades em seguir carreira de artista no Brasil e o passado e o futuro d´Os Flutuantes. E avisa que, no que se refere ao cenário roqueiro, Canoas pode vir a ser uma espécie de nova Detroit. Contato para shows: 8180.4399.

O teu interesse pela música vem desde cedo?
Carlos Vinícius De Sá: Desde cedo. Sempre escutei música em casa. Especialmente aos 10 anos, quando vi meu pai tocar pela primeira vez, na festa da empresa onde ele trabalhava. Comecei a ver vídeos, me interessar, meu pai tinha umas baquetas perdidas no armário e começou a me ensinar as coordenações, ritmo, essas coisas básicas. Como ele trabalhava, não tinha muito tempo de pegar e me ensinar com uma didática mais específica sobre bateria. Comecei a aprender de fato aos 13, quando me dei conta de que conseguia tirar as músicas.

O que ouviam em casa?
CVS: MPB tradicional, jazz, rock´n roll clássico, especialmente Beatles, Creedence. Primeiramente em vinil, depois em CD.

Crescer num ambiente onde se ouve muita música é um ponto a mais para quem quer seguir a carreira de músico?
CVS: É um “a mais”, porque a pessoa pode verificar o leque de opções musicais que existe e enveredar por aquele estilo que mais se interessar, que melhor cai ao ouvido. Queira ou não, muito do que as pessoas citam como influência são coisas que são mostradas pelos pais, como incentivo, a elas desde pequenas. Depois, a partir daí, a pessoa começa a escolher por si própria. Mas esse primeiro incentivo é sempre marcante.

 Lembro duma entrevista do Michael Stipe, do REM, em que ele diz que quando começou a ouvir música ele não tinha um pai ou um irmão mais velho que dissesse “escute isso, escute aquilo, não escute isso”. Ele ouvia então de tudo, de Beatles e Rolling Stones até música de desenho animado…
CVS: Isso também aconteceu um pouco comigo. Meu pai, por exemplo, colocava muita coisa para tocar sem me dar qualquer orientação. Jazz, por exemplo. Aliás, jazz é o estilo mais completo que existe, o que mais exige técnica, capacidade de improviso.

Quais bateristas te chamaram a atenção?
CVS: Stewart Copeland, do Police, João Barone do Paralamas, e, claro, o Keith Moon, do The Who, que sempre é uma grande referência. Mas o engraçado é que eu descobri o Moon depois e vi que ele influenciou muitos outros bateristas de que eu gostava. E o meu pai, que sempre me dá conselhos e me ajuda em tudo o que diz respeito à música.

The Who é uma grande referência para o rock daqui do Sul, não é? Por que isso ocorre especialmente por aqui?
CVS: Bom, acho que por uma série de motivos. Primeiro, é que nós aqui no Sul ouvimos muito rock antigo, Creedence, Rolling Stones, e o próprio Who, isso é algo que as pessoas de outros lugares do Brasil sempre notam. E notam também que aqui a gente escuta muito rock em geral, somos muito roqueiros. Depois, isso é algo que vem na tradição do rock gaúcho, do TNT, Cascavelletes e outros que também bebiam nessa fonte de mod, rock clássico, blues, que inclui o The Who. Então se criou essa identidade a que muitas pessoas de fora associam. Agora, também tem outro lado, que são aquelas bandas que querem parecer com essa imagem, ou seja, usam uma roupagem que faz com que se assemelhem, mas não sejam de fato.

Qual a percepção que gente de outros Estados tem do nosso rock?
CVS: Dá para dizer que é a melhor possível. A cena daqui sempre foi bem vista. E também pelas bandas underground que são descobertas e aparece em zines, blogs, jornais e vários outros caminhos. O trabalho de bandas do underground daqui é bem visto. Há um respeito e reconhecimento que ajuda na aceitação.

Acha que é merecido?
CVS: Em consideração com as bandas que vem trazendo trabalho próprio, eu diria que sim. A nossa produção merece. Separando o joio do trigo, claro, tirando aquelas bandas que vestem carapuças e olhando praquelas que fazem trabalho verdadeiro. E não só na cena mod, em todo o rock.

E tu, como vês essa cena hoje?
CVS: Nos anos anteriores, se via mais lugares, mais movimento, e até maior trabalho das bandas. Hoje, a coisa está dividida entre bandas com selo, que tocam em locais específicos, e outras bandas, que tocam em bares pequenos e médios em Porto Alegre e Região Metropolitana e não têm tido a mesma divulgação que em outros anos teriam. Em Porto Alegre a gente vê menos cartazes do que anos atrás, menos espaços, há uma espécie de afunilamento.

Podemos dizer que a década de 2000 foi uma década de efervescência do rock gaúcho? Do ponto de vista da ultrapassagem de fronteiras, ao menos?
CVS: Sim, tivemos uma atenção maior da mídia local e da nacional. Surgiram muito mais espaços para a divulgação de bandas independentes, mas isso na atualidade tem diminuído em função do processo que eu apontei antes, de afunilamento.

E em Canoas? É possível falar num cenário canoense de rock?
CVS: É possível, sim. Tem surgido cada vez mais espaço para bandas de Canoas. Nesse Fórum Social Mundial, Canoas valorizou bem as suas bandas. Nós, por exemplo, tivemos a chance de tocar no mesmo palco de Os Mutantes e Nação Zumbi, que são referências dentro dos seus estilos. Sei que em Porto Alegre sempre se fez isso, sempre colocam uma banda local para abrir para outra banda. Pode parecer que é algo ditatorial, mas é uma oportunidade para o artista local mostrar o seu trabalho. E em Canoas, aos poucos, está incorporando isso de valorizar o rock local. Ao mesmo tempo, estamos vendo bares em Canoas com espaço privilegiando o rock. O rock em Canoas é algo que está em formação e que ainda não se consolidou por uma questão cultural.

Fale um pouco dessa “questão cultural”.
CVS: Desde que eu comecei a acompanhar a cena em Canoas, a grande dificuldade sempre foi lugar para tocar. Lembro que existiam lugares como o estúdio Purple – que ficava na Sete Povos, atrás do Tênis Clube -, o próprio Gullys, que durou algum tempo e chegou a ser alguma referência até mesmo fora daqui. Enfim, vários espaços que acabaram fechando. Isso é uma grande dificuldade para as bandas que surgem aqui, elas muitas vezes não têm onde tocar. Mas, como eu disse, agora a coisa está melhorando. Canoas precisa de gente com iniciativa para ajudar as bandas locais.

Eu noto isso – e não só eu – em outras áreas da cultura. Isso não é uma síndrome de cidade-dormitório?
CVS: É aquele lado cultural de que eu falo. É o problema de ser uma cidade próxima de pólos como Porto Alegre, São Leopoldo, Novo Hamburgo, isso acostumou Canoas no mau sentido. Mas por outro lado fez florescer algo meio Detroit anos 60, uma cidade-dormitório que cresceu, virou operária e ali passou a florescer um trabalho de bandas. Canoas é assim, é uma cidade dividida pela BR, por trem, uma cidade cinza, como um amigo meu da faculdade dizia (risos), de barulho, das indústrias…

É uma Motor City em gestação! (risos) Está aí uma boa ideia, vender o rock de Canoas desse jeito!
CVS: E não seria nada de estranho. As bandas que têm surgido para tocar são bandas com proposta rock´n roll de diversas influências. É rock´n roll mesmo. Não é algo que se veja com facilidade em outros lugares Tenho notado essa tendência mais do que em cidades vizinhas.

Que bandas de rock daqui de Canoas tu gostarias de destacar?
CVS: Poderia citar várias. Los Arcaides, Pólvora… são muitas.

 Os Flutuantes começaram quando?
CVS: Em 2004. O primeiro disco é de 2007 e o próximo deve ser lançado em 2010.

Naquele disco a gente nota a influência sessentista, que nós já abordamos, mas me pareceu que é um som de rock gaúcho não tão gaúcho assim.
CVS: Bom, nós temos em comum com todas as bandas a veia sessentista. Mas procuramos desenvolver um estilo próprio, sem apelar para clichês que se associam ao rock daqui. Temos algumas referências comuns às bandas gaúchas, mas temos outras coisas que também nos diferenciam. Temos muitas referências de The Smoke, passando por outras bandas, Grandfunk Railroad, Family, além daquelas que eu citei. Teve gente que já disse que fazemos uma mistura de Hendrix com MC5 com embalo e letras jovenguardistas. Se fosse perguntar como é o som da banda, como eu definiria o som da banda, eu diria isso. Mas creio que a tendência sempre é acrescer ingredientes.

Como foi o início de vocês em 2004?
CVS: Nós já nos conhecíamos, tínhamos uma banda chamada In Vitro, que tinha outro enfoque, era uma banda um pouco diferente. Três integrantes eram os mesmos dos Flutuantes de hoje. Resolvemos então fazer uma mudança geral, o que resultou na mudança de nome.

 A mudança era da necessidade de mudar o som?
CVS: Também. Associada ao desgaste, que é normal, mas principalmente mudança de som. Então resolvemos virar a página. Nós temos tocado algumas músicas que tínhamos gravado pela In Vitro, inclusive uma queremos regravar, porque ela diz muito sobre o que os Flutuantes fazem hoje em termos musicais, apesar de ser uma música da outra banda.

 E o que Os Flutuantes fazem hoje?
CVS: Além de manter o pop, pegar esses elementos de rock garagem, reforçar a influência de bandas como Os Incríveis e Renato e Seus Blue Caps, que sempre tiveram uma pegada mais rock´n roll. Esse lado da Jovem Guarda é uma grande influência para nós.

 Tenho notado que muitas bandas de hoje, inclusive do cenário independente, citam a Jovem Guarda como referência. O que não deixa de ser interessante porque, quando essas bandas surgiram, nos anos 60, eram vistas como música de segunda categoria, meros modismos…
CVS: Sim, é verdade. Acho que as pessoas estão reconhecendo o valor deles, que foi muito grande. Sem contar que muitas dessas bandas eram supercriativas e não se prendiam facilmente a rótulos. É só olhar para Os Incríveis. Com eles aconteceu algo parecido com o que aconteceu com o Jam, que foi colocado dentro punk porque surgiu com eles. Eles não eram nada disso, mas acabaram entrando junto. Com Os Incríveis aconteceu algo parecido, não eram Jovem Guarda no início, mas depois acabaram agrupados no mesmo rótulo.

E o novo disco? Está sendo gravado?
CVS: Tem duas músicas já prontas e um single foi lançado em final de março de 2009. Outras músicas vão entrar, algumas já são tocadas em shows. Inicia no decorrer do mês de fevereiro e, lançar, se tudo der certo, será entre maio e junho. Queremos fazer uma coisa mais espontânea, dentro do possível.

Passaram-se três anos desde o lançamento do primeiro disco. Ele vendeu bem?
CVS: Pode-se dizer que sim. A primeira tiragem foi vendida, a segunda praticamente toda. Sobrou muito pouco disco. Tem uma estimativa de que se vendeu em torno de dois mil discos.

OT: Vocês levam uma vida dupla, não é? Quem resolve trabalhar com arte no Brasil é obrigado a isso, na maior parte das vezes. Como é conciliar as duas coisas?
CVS: Muitas vezes o não-artista garante mais a sobrevivência do artista ou sustenta o artista. O nosso objetivo é o de que nós acabemos por nos sustentar sendo artistas. E isso não é visto como utopia, e sim como algo que achamos ser possível de acontecer no futuro.

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