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Política

O último reduto da oposição

Injustamente ofuscada pela entrevista de Lula na TV Bandeirantes , a participação de Roberto Freire, líder do PPS, no programa É Notícia, da rede TV, muito bem comandado por Kennedy Alencar, foi um dos poucos alentos recentes para os brasileiros que acreditam numa vida política civilizada neste país.

Aos 68  anos, Roberto Freire não tem medo de nada. Não tem receio algum, por exemplo, de dizer “nós, comunistas” quando se refere aos seus companheiros de partido, assim como não tem receio de fazer algo aparentemente esquecido em nossa débil democracia: o papel de oposição. E Freire o exerce verdadeiramente. Numa democracia sadia, este papel incluiria lembrar algumas coisinhas hoje esquecidas pela opinião pública: de que o PT foi contra o saneamento financeiro, contra a responsabilidade fiscal e contra tudo o que levou hoje o país a crescer e a inserir-se no mundo;  que o Brasil vem crescendo com taxas menores que os demais países da América Latina; que, apesar de toda a propaganda governamental, o país não está, de modo algum, inserido na economia global como o governo vem incessantemente dizendo. A crise, diz Freire, é no centro do sistema capitalista. Ora, o Brasil não foi tão atingido porque, muito simplesmente, está na periferia deste mesmo sistema. Está fora do raio de ação do problema. Por isso, não é atingido.

As críticas ao governo são contundentes e não o são menos as críticas ao próprio PT como instituição e o seu papel da vida política nacional. Freire não esquece a falta de apoio do partido a Tancredo, mesmo sendo um país oriundo da transição democrática por ele representada, e fala, com todas as letras, que as greves do ABC não têm a ver com a criação do partido, fruto, segundo ele, da atividade da Igreja Católica.

Quanto ao crescimento do PT, faz uma análise muito original e digna de um verdadeiro marxista inteligente, espécie tão rara no Brasil quanto um dinossauro na Floresta Amazônica. Freire avalia o PT como um partido essencialmente conservador. Concentra votos no interior do país, no Nordeste, na parte mais atrasada e deixa de ganhar votos nas partes mais desenvolvidas do país, como São Paulo.  Ou seja, ele sobrevive em redutos conservadores, onde o progresso econômico, social e político ainda não chegou. Freire é marxista quando fala da passagem da economia semifeudal do interior do Nordeste brasileiro ao capitalismo adiantado do Sul e do Sudeste, que Marx admirava e considerava como a ante-sala do verdadeiro comunismo. Da mesma maneira que considera essencial ocupar a Amazônia com a República, como ele diz,  o que quer dizer trazê-la do estado semi-selvagem em que se encontra para a civilização à qual efetivamente pertencemos, respeitando sempre as particularidades locais e a questão ecológica. Típica progressão histórica bem marxista, portanto. E, repetimos, de marxismo inteligente.

Na mesma linha, Freire criticou a política  do governo. O Bolsa Familia é contra o trabalho e tem uma funcionalidade conservadora, segundo ele. Impede a criatividade, a inovação econômica e, no fim das contas, o próprio fim definitivo da miséria no país.  Avalia Getúlio como um dos maiores brasileiros da história, ressalvando sempre as suas atitudes ditatoriais. Revela estar lendo, e apreciando,  “Uma gota de sangue”, de Demétrio Magnoli, que algum ativista já chamou de representante de uma tal “direita social” – seja lá o que isso for – por defender a idéia, estranha para alguns, que o Brasil não deve combater o racismo com receitas de países com histórico de discriminação racial muito piores que os nossos. Freire atenta, assim, para o perigo da divisão do país por cor e etnia, que encontra defensores por aí.

No fim, ficamos com a impressão de que não estão mortas as chances de haver um debate político franco e inteligente, onde o homem público chama a atenção não apenas pela esperteza, pela capacidade de jogar para audiência e pelo jogo de cintura mas sim pelas idéias que efetivamente defende e põe em prática. Para quem crê numa democracia verdadeira, feita de alternância de poder, de partidos fortes, de debate franco, de tendências conservadoras e progressistas debatendo acalorada e decentemente,  esta entrevista veiculada em canal pequeno e em hora avançada revelou para muitos – não para mim, que já conheço seu pensamento – uma feliz esperança. E uma certeza: a de que Roberto Freire  é, além de ser o último reduto da verdadeira oposição ao governo, o maior nome das forças progressistas na política brasileira.

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Discussão

2 comentários sobre “O último reduto da oposição

  1. O problema foi escolher com quem fazer oposição… hehehe

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    Publicado por Artur | 11 de maio de 2010, 14:44
    • “A crise, diz Freire, é no centro do sistema capitalista. Ora, o Brasil não foi tão atingido porque, muito simplesmente, está na periferia deste mesmo sistema.”

      Graças também a diversificação dos mercados destinos das exportações e o tino de vislumbrar oportunidades fora dos ‘centros’ tradicionais…

      No fim das contas, que bom, não é? Aderir a um sistema pronto serve aos interesses brasileiros? Penso que não. Nenhum país se consolidou como potência aderindo e sim propondo.

      Que vantagem teríamos se estivéssemos então no centro do sistema que cai de podre?

      Atrelar nossa economia às ‘potências centrais’ já se mostrou equívocado, vide as 3 crises pelas quais passamos na década de 90…

      Curtir

      Publicado por Artur | 11 de maio de 2010, 14:56

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