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Entrevistas

Entrevista: Thiago Lázeri

“A televisão também é arte. Não pode ser apenas mercadoria”

Por Celso Augusto Uequed Pitol

Lembro de Thiago Lazeri no pátio do La Salle, onde estudamos juntos nos anos que antecederam o fim do milênio. No pátio jogava-se futebol, vôlei e basquete e também se conversava. No nosso caso – meu, do Thiago e de alguns outros -, sobre literatura, cinema, música, jornais que fundaríamos, idéias que nunca sairiam do plano das idéias. No pátio vivia-se. Parece curioso, mas não me lembro do Thiago na biblioteca. Na verdade, não é nada curioso Na biblioteca, na companhia sagrada dos grandes mestres das letras, das artes e das ciências, não havia aquela vivência intensa ao ar livre tão importante para os que desejam seguir a carreira de jornalista e escritor, como ele desejava. Ao homem que vive da pena não é aconselhável negar a vida. É preciso freqüentar a biblioteca, sim. Mas, principalmente, é preciso freqüentar o pátio. Não é à toa que as referências literárias do Thiago são de homens do pátio, como ele: Fausto Wolff, Hemingway, Salinger, Kafka, Dostoievski, Bukowski. A vida é o seu tema. É esta vida, a dele e a dos outros de sua geração – e alguns um pouco mais novos – que transparecia nos episódios da série POA RS, na Ulbra TV (depois VidaNormal, quando passou para a TV COM), série escrita a quatro mãos com Pedro Maron, talvez a primeira grande experiência gaúcha em teledramaturgia diária e, certamente, o primeiro retrato fiel e bem humorado da juventude da Região Metropolitana durante os anos 2000. Só podemos avaliá-la hoje, quando a década chega ao fim. Embora a modéstia do meu amigo Lazeri obrigue-o a negar, seus despretensiosos programas – concebidos, gestados e nascidos numa sucessão de felizes coincidências que lembram um filme da Sessão da Tarde, como a entrevista que segue mostrará – são mesmo um retrato de geração, ainda quê seus personagens, como John Updike no seu poema sobre Harvard,  provavelmente não saibam que foram uma geração. É preciso que alguém lhes diga que foram. Um escritor, um roteirista, um homem de letras, da televisão – um homem do pátio.

*          *          *          *

Como tu e o Pedro (Maron, co-roteirista) tiveram a idéia de criar o programa?

Thiago Lazeri: Eu e o Pedro (Maron) estávamos sem trabalho. Éramos blogueiros, não tínhamos nenhuma experiência de vídeo. Então eu juntei dinheiro para comprar minha câmera. Aí no mesmo dia a gente fez um roteiro, saiu para gravar no segundo dia, no terceiro dia estava montando. Deu só 7 minutos. A gente gravou no DVD, fez uma capinha e batemos na porta de todas as TVs pequenas de Porto Alegre. A gente não conhecia ninguém do meio! Fomos logo atrás da primeira TV comunitária e eles gostaram, foi a POA TV que só existia na TV a cabo. Isso foi ao ar e ficava passando  12 , 13 vezes por dia. Na semana seguinte, dissemos “isso tá dando certo, vamos tentar na Ulbra TV”. Fomos lá e a mulher que nos recebeu e disse que ia passar pro setor responsável. Depois de um mês e meio os caras nos chamaram para uma reunião. A gente colocou a melhor roupa então (risos) e fomos pra lá. Aí nos prometeram tudo o que a gente precisasse. E nós dissemos: precisamos de fita e vale-transporte para a gente se locomover pela cidade. Perguntaram se a gente tinha produtora e a gente não tinha nada (risos).

Uma história pelo menos insólita….

TL: É. Mas eles nos prometeram então equipamento pra gravar, uma salinha pra trabalharmos, profissionais para dar auxilio e disseram que o programa ia ser diário. Eu olhei pra cara do Pedro e ele pra minha e a gente ficou sem muito o que responder (risos). Mas a gente concordou na hora! Se o cara dissesse “quero um programa de hora em hora, quero que dancem em cima da mesa” na hora a gente aceitaria, a gente não tinha nada!. Mas não sabíamos a fria que era, porque ninguém faz um programa diário. Só com muita grana, com antecedência, com vários profissionais envolvidos. Naquela semana a gente pôs todas as idéias no papel. A TV não filtrava, tudo o que a gente escrevia ia pro ar. Terminamos um dos capítulos uma vez 5 minutos antes de entrar pro ar. Ficamos lá por 10 meses. Foi fantástico porque a gente escrevia tudo o que a gente vivenciava. A gente era tudo o que os personagens eram. Nós não tínhamos dinheiro pra sair, gostávamos de conversar bobagem, falar de musica, artes.

Sempre me pareceu um retrato de um grupo de jovens da região metropolitana durante os anos 2000, com aquele tipo de roupa, aquela maneira de pensar….

TL: Cara, foi uma coisa que a gente fez de maneira despretensiosa. A gente só tentou botar no ar um programa que falasse sobre a gente. Tinha uma coisa super curiosa porque as pessoas na rua me diziam “que não é todo jovem que vocês colocam na série” e nós dizíamos “não queremos retratar todos os jovens e sim nós, os que nós conhecemos”. Eu só podia ser verdadeiro dessa forma, falando do que eu conheço. Eu  estaria mentindo se falasse de outros jovens. E o público de TV é muito crítico. Se ele está vendo algo que não gosta ele muda de canal da hora. Eram pós-adolescentes que fugiam de todos os compromissos, encontravam qualquer razão pra fazer festa, se encontrar com amigos pra assistir filme. E eu vi muito daquilo na geração que eu vi passar. É diferente da geração que está vindo aí. Eles vêm com outra cabeça, gente que nasceu na frente do computador, o que não foi o nosso caso. Nesse sentido, sim, acho que a gente retrata uma geração, uma geração que na época as pessoas ainda não estavam tão dependentes do computador, se encontravam mais na rua, viviam mais a vida ao ar livre.

E como foi a ida para a RBS?

TL: A série foi cancelada na ULBRA sem qualquer pré-aviso. Nem uma cópia nós recebemos. Mas é como eu digo, eu tenho muita sorte (risos). Bem no dia em que a gente saiu do ar, o Luis Augusto Fischer colocou uma coluna na ZH falando bem da gente. O que eu achei curioso, porque sempre pensei que os intelectuais que gostam de cinema iam rir da nossa cara. O que o Fischer colocou na coluna é que ele estava zapeando na casa dele e descobriu uma série que se fazia em Porto Alegre que falava gírias, que era narrada como as séries tradicionais dos EUA, tinha senso de humor rápido, e eu disse “porra , alguém entendeu, cara!!”. Ele foi nosso padrinho, foi na RBS, colocou pilha. Aí começaram a criar várias comunidades no Orkut, várias pessoas mandaram cartas pra ULBRA. Depois, mandamos um email agradecendo a ele e avisando que infelizmente ele não podia mais ver porque o programa tinha tirado do ar naquele dia. E no dia seguinte, entra uma coluna dele pedindo pela volta do programa. Então a gente acabou recebendo proposta da Bandeirantes e da TV COM. Aí aceitamos a da TV COM.

Quais as diferenças entre trabalhar na TV Ulbra e na TV COM??

TL: Cara, é outro universo. Foi um choque. Porque agora a gente não era mais só roteirista, tínhamos que lidar com 30 funcionários. Fomos contratados como uma produtora, aí nós tínhamos que contratar serviço de áudio, maquiador, figurinista, fotógrafo, locação de câmera, enfim, nós viramos empresários. Tínhamos que lidar com mais de 30 funcionários, pagar imposto. Aí a gente não apenas escrevia. Era uma vida de empresário. Isso em 2008 , eu tinha 27 anos. E a gente tinha um contrato: tínhamos que gravar 26, 27 episódios num mês. Teve uma época que a gente se atrasou e tivemos que gravar dois ou três programas por dia. E tinha que lidar com funcionários, temperamento de pessoas, pagamento de aluguel, contador. Minha vida se resumia ao programa. Vendo de fora hoje, esse não era o melhor jeito de fazer as coisas. Eu acho que funciono melhor como roteirista.

O programa na TV Com começou em 2007, não é?

TL: Lá por março de 2007. Foi bem no comecinho de 2007. A  gente chegou a ter umas 40 pessoas que tinham de ser transportadas em vans. Era uma coisa bem grande para o que a gente estava acostumado, que era socar todo mundo numa Kombi, gravar no parque da redenção. Só que o luxo se transformou em lixo porque parecia que a gente estava com grana mas, na verdade, era muito pouca grana. Cada capitulo custava 5 mil reais. Nenhum curta metragem gasta menos de 60 mil. Depois eu tive uma equipe de roteiristas, na parte final, que foi a parte mais legal do processo, a parte em que mais a coisa andou. Foi legal porque eu criava as escaletas, que são duas ou três linhas que a gente dá e o roteirista escreve. Foi com alunos de cinema, que vieram prontos. E o bom é que não era uma gurizada arrogante, metida. A humildade e a falta de pretensão fez o programa da ULBRA TV ter fãs até hoje. Tínhamos muito improviso, nosso, dos atores.

E onde encontraram aos atores?

TL: Ah, eram amigos. Nenhum deles era profissional. Eram amigos meus, do Pedro, nem recebiam. Isso no inicio, depois, quando fomos pra RBS, começaram a receber. O programa ficou um ano na TV Com. Embora nunca tenha tido resistência da TV Com quanto ao nosso trabalho – a não ser coisas pequenas, específicas, de palavrões, essas coisas –  teve uma com a direção da RBS que foi engraçada. Teve uma vez que a gente foi pra festa da Uva para fazer a gravação. Na hora que a gente gravou, eles estavam nos brindando com champanhe. Quando o material vai para a direção da emissora, eles nos telefonam. “Quanntas vezes a gente falou vocÊs que bebida alcoólica não pode?”. Respondi: “Tá, mas a gente tá na festa da uva…” “Mas isso é a festa do vinho, mas como é champanhe não pode!!!!” “Mas isso não é vinho também”? (risos).

Chegaram a sentir o gosto da fama?

TL: Desde a época da ULBRA já éramos reconhecidos na rua. Até hoje nos reconhecem. Não muito eu, mas as outras pessoas que trabalhavam dão autógrafo na rua. Tinha público dos 12 aos 18 e tinha muito público que era surpreendente, de pessoas com mais de 40 anos que nos mandavam opiniões por e-mail. Mas o mais perto que eu cheguei da fama que eu consegui sentir na pele, foi agora recentemente num trabalho que eu fiz, numa reunião super séria, que o cara me perguntou meu nome, eu disse e ele disse que era o mesmo nome daquele que escrevia o Vida Normal (risos). E eu disse que era eu. E o cara parou a reunião e me cobrou os DVDs. Tem mais de 90 capitulos que tem coisas memoráveis. Acho que na TV faltam essas coisas mais autênticas hoje, sem passar por tanto filtro. Eu lembro por exemplo da TV Pirata, são programas que não tem mais hoje. Sem falar do politicamente correto, que é a censura dos nossos tempos. A TV é arte, também pode ser arte, não pode ser apenas mercadoria. Tu não podes cobrar do Dostoievski que todos os personagens dele sejam moralmente perfeitos. Na televisão é a mesma coisa, são pessoas que escrevem para outras pessoas. Eu acho que o politicamente correto está sendo mais censura do que na época da ditadura militar. É só tu veres o que eram as novelas da Globo nos anos 70, o cinema brasileiro, cheios de coisas que hoje não passariam.

Qual a tua opinião sobre a teledramaturgia do RS?

TL: Não existe, cara. Só existe com os curtas da RBS , o que é uma coisa super legal, tem coisas muito legais, mas fica nisso. A teledramaturgia do RS vai crescer quando a galera que está na faculdade disser “ah, não tem mercado pra nós? Vamos criar o nosso mercado”. Eu acho que a faculdade não é 100% responsável pela formação da pessoa, mas sim ela, a pessoa, tem que ter a centelha de perceber que precisa conhecer novas coisas, experimentais, buscar novidades. É mais uma revolução que deve vir de dentro para fora do que de fora para dentro. O papel da faculdade é de disponibilizar ferramentas para as pessoas poderem desenvolver seus talentos. Quando eu estudei, ninguém me deu um livro de roteiro. Eu é que fui lá à biblioteca, que peguei todos os livros de roteiro que havia e fui estudar. Não foi nenhum professor famoso que me deu indicações. Acho que as pessoas não podem ser tão passivas quando estão na faculdade. Lá é o momento de experimentar tudo, de errar e aprender.

Quais são os teus próximos projetos?

TL: É uma série semanal, porque diário eu não faço mais nada. É muito estressante, é como fazer um telefornal de dramaturgia, todos os dias tem que ter coisa nova. Eu não tenho mais cabeça pra isso. Só se eu tivesse muita gente comigo. E muita gente é igual a muitos problemas. O meu próximo projeto é um seriado sobre dois caras que tem uma produtora de vídeo de casamento. Um deles é um cara que está lá pra fazer festa, beber, e tem outro que está lá pela arte cinematográfica, pra cada filme tem uma viagem artística. O primeiro capítulo eles se fogem com a noiva no dia do casamento dela.. E os três personagens vão morar juntos num apartamento. Vai ser um senso de humor mais adulto, um pouco diferente do que era o POA RS. E pretendo fazer algo nacional.

Isso significa, de uma certa maneira, renunciar àquela cor local que era tão característica do POA-RS?

TL:Pelo contrário. Vai ser uma série onde as pessoas vão falar do jeito que os gaúchos falam. Mas e dizem “ah, mas o problema do sotaque”. Dane-se! Vamos falar “tu”, vamos falar com as gírias. Claro que não vai forçar aquela coisa “ah, vamos lá tomar um chimas na Redença”. Se nas novelas as pessoas falam com sotaque nordestino, então porque não falar que nem gaúcho?

Tu és o paulista mais gaúcho que eu conheço!

TL: Mas eu sou gaúcho de coração (risos). Só o time que não. Eu continuo palmeirense. Time a gente não escolhe e não dá pra mudar.

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Discussão

Um comentário sobre “Entrevista: Thiago Lázeri

  1. Eu era um dos caras do pátio!
    É engraçado lembrar daqueles tempos e ver o trabalho do Celso e do Thiago. Mas o mais legal é testemunhar a evolução daquelas idéias que nunca se concretizaram, mas formaram a base que buscamos para as nossas vidas profissionais.

    Curtir

    Publicado por Marcelo Aita Ost | 19 de agosto de 2010, 01:27

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