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Reportagem

“O brasileiro que reclama da vida está chorando de barriga cheia”

Entrevista: Mikolaj Schwez, imigrante ucraniano
De todas as coisas impressionantes contadas por Mikolaj Schwez nesta entrevista talvez nenhuma impressione mais do que a maneira como ele as conta. Os anos de infância e juventude em sua Ucrânia natal, onde nasceu em 1926, passados entre a opressão stalinista, a invasão nazista, as constantes mudanças de cidade e de país, as noites dormidas ao relento nas estepes ucranianas,  o constante medo do policial, do governo, do vizinho, de todos, são narrados com um bom humor e uma jovialidade que parecem mal colocados diante da sucessão de obstáculos que teve de enfrentar. Só parecem. Ao fim da entrevista, fica claro que mal colocada é a atitude de quem, sem ter passado por nada sequer remotamente parecido com isso, ainda acha-se no direito de reclamar. Conduzida com a presença agradável de Tânia, sua filha, e de seu marido Cláudio, a entrevista é a primeira de uma série que pretende contar a história daqueles que, vindos de terras distantes, escolheram esta cidade para viver.

*    *    *    *    *


Como era a vida na Ucrânia na sua infância e juventude?

Mikolaj Schwez: Muito dura. Em 1933, russos causaram uma grande fome nos ucranianos (o Holodomor, considerado um dos maiores genocídios do século XX), porque não queriam se entregar para ir para o kolkhoz (fazendas coletivizadas na antiga União Soviética). Recolheram mantimentos, ao ponto de as pessoas trocarem ouro por comida. 10 milhões de ucranianos morreram. Aí meu pai salvou-se um pouco porque ele serviu em 1918, em Kronstadt, perto de Leningrad, na Marinha russa, então tinha um pouco de privilégio dos comunistas.

E logo depois veio a guerra, não é?

MS: Sim. Em 1941, eu tinha 15 anos. Fiquei na vila por mais dois anos. Nessa época, os alemães recolhiam os que nasciam entre 1920 e 1926 para trabalhar nas fábricas e colônias, não pagando nada, só pela comida, como escravos. Quando os alemães chegaram para invadir, os russos avisaram para os civis recuarem para o outro do rio Dnieper. Então meu pai pegou um par de cavalos, vaca, carroça, uma cabrita e fomos, não só nós, mas todas as vilas até a cidade de portuária de Kremenchuk. Então levaram até a cidade de Vassilievca, onde ficamos dois meses parados. Fomos então para um trem de carga para Krakóvia, para Polônia, ficamos lá um dia. Depois voltamos de novo para a Ucrânia para um caserne que os russos construíram quando ocuparam Ucrânia. Ficamos mais que um mês. Depois, nos levaram de novo no trem, para Viena. Fui servir como bombeiro em Viena durante quase um ano e meio. Quando começaram a reaparecer aviões russos em Viena, meu irmão disse “a coisa aqui é feia também” e meu pai disse “não vou voltar, porque a casa já queimaram, a terra é do governo, não sobrou nada”. Aí, irmão fez passaporte para ir para Itália. Ficamos um tempo lá e depois fomos para a Áustria, quando terminou guerra.

Com o fim da guerra o senhor veio para cá?

MS: Aí fomos trabalhar em colônias na Áustria, por comida, O exercito polonês, inglês e brasileiros chegaram e colocaram nos caminhões todos os estrangeiros e levaram para uma cidade na Áustria. Ficamos por conta de uma organização internacional. Lá nos avisaram que, quem queria voltar para o seu país, podia voltar. Mas o pai não queria. Então fomos junto com os iugoslavos. Ficamos um ano com eles e no ano seguinte veio missão brasileira querendo contratar gente para trabalhar no Brasil. Um conversa aqui, outro conversa ali e disseram lá no Brasil é bom, lá se toma leite,não toma água (risos).

O Brasil era conhecido por lá?

MS: Não se sabia nada do Brasil. Dos países daqui da região se conhecia bem a Argentina. O Brasil foi conhecido depois de Getulio Vargas com as lutas na Itália, durante a Guerra. Então fizeram exame de corpos, para ver se não tinha doença. Fomos para Hannover e esperamos até juntar mais gente para levar no navio. Depois fomos para Hamburgo e eu fiquei impressionado, porque vi muita água e nunca tinha visto o mar. Daram duas barras de chocolate e dois maços de Camel, cigarro. Eu olhei para aquilo tudo até chorei, pensei “será que vou conseguir um dia voltar para a Europa, porque é do outro lado do oceano”. 13 dias de navio para chegar no Rio de Janeiro.

O que lhe pareceu o Rio de Janeiro?

MS: Depois levaram para a ilha das Flores. Lá deram banho, nós ganhamos cama, deram 180 mil na moeda da época para cada pessoa e eu fui direto comprar chocolate, a quilo (risos). Não vi a cidade, só fiquei na ilha das flores. Aí ficamos dois meses. Aí queriam ir para o Estado onde fica mais frio. Foram para São Paulo e não gostaram, disseram que chovia muito. Aí chegou um representante do Rio Grande do Sul e diziam que assinavam contrato por um ano para trabalhar nas minas de Butiá. Lá, ensinaram como trabalhar com lampião, capacete, e depois fomos descer 80 metros debaixo da terra. Eu quando desci achei que era uma cidade debaixo de terra, de tão grande que era.

Como foi o trabalho nas minas?

MS: Trabalhei 11 meses, graças a Deus. Trabalhei até dois turnos, ganhei dinheiro, era solteiro. Aí cheguei em casa, jantei e disse     “vou pra Porto Alegre”. Trabalhei de mecânico numa empresa de onibus. Aí passaram a garagem para Canoas e vim para cá. Um dia me disseram Nicolau, quer comprar um ônibus? Custa 240 mil. Cheguei em casa, sugeri e todo mundo gostou. Primeiro dia não sabia nada, não sabia qual o trajeto do ônibus. Deu para pagar o ônibus e sobrava dinheiro. Morava em Niterói, na José do Patrocínio. Trabalhei então de motorista, chamei o pai para trabalhar de cobrador. Aí comecei a comprar na Canoense. Casei com esposa nascida em Porto Alegre, família de pai polonês e mãe russa. Aí fomos morar na Machadinho. Depois quando abriram concorrência da Gaúcha, na época em que o Major Sezefredo era prefeito, nós entramos e no inicio estava muito bem, dava pra trabalhar, dava pra ganhar dinheiro, só que depois quando veio o Trensurb eu já tinha dez ônibus, fui obrigado a vender porque não dava pra agüentar. Em 1971 eu mudei pra Porto Alegre e até hoje moro lá.

Continuou com a  família em Canoas?

MS: Sim. Meu irmão ficou medo da revolução em 1964 e foi pros EUA, ficou com medo dos comunistas. Nós pensávamos que eles iam pregar comunismo, fazer greve, fazer isso e aquilo, meu irmão tinha casa aqui perto da prefeitura, tinha casa em Niterói e um armazém que ele abriu vendeu por preço de banana e foi pros EUA. E os homens da revolução pegaram o meu ônibus. Muitos imigrantes que vieram pro Brasil saíram daqui naquela época, venderam tudo, porque tinham medo que o comunismo se instalasse aqui. Alguns voltaram pra cá depois.

O senhor passou a juventude na Ucrânia na época de Stalin. Como era viver naquela época?

MS:
No tempo de Stalin meu pai e mãe trabalhavam no kolkhoz. Depois, aos seis anos eu fui ao colégio, que era gratuito, assim como a  faculdade. Nessa parte eu não posso reclamar. O problema é que não se produzia, porque tudo era de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém. Quem é que vivia bem? Aqueles que mandavam. Só se pagava para a pessoa sobreviver. Quando queria uma calça esperava meses e meses, quando chegava era meia dúzia. Depois, Hitler abriu guerra contra Ucrânia. Guerra atrás de guerra. Como se diz, eu não senti porque era muito novo. Mas todo mundo trabalhava só para sobreviver, para comer.

E nenhuma liberdade….

MS: Liberdade? Se tu falavas alguma coisa, amanhã já chegavam os caminhões pretos para te recolher. Depois só vinham cartas lá da Sibéria, que era onde mandavam os presos.

E na escola?

MS: Diziam que o capitalismo era explorador, Que o melhor sistema era o comunismo. E os alunos novos eram primeiros eram chamados de pioneiros, com gravatinhas vermelhas. Com 18, ganhava o nome de cidadão russo.

Aprendiam em russo ou ucraniano?

MS: Onde eu estudei, três vezes por semana russo e o resto ucraniano. Só introduzia russo no ensino. Eu sei falar bem russo e o alfabeto é quase igual.

Como viam os russos?

MS: Nós dizíamos, nas brincadeiras, que os  russos eram porcos (risos). Mas onde eu vivia quase não tinha russo, porque só tinha ucraniano. Se aparecia um russo ele fugia (risos). Eles perseguiam aqueles que nasceram antes do comunismo, que tinha 18 para cima para eles não terem força pra derrubar o governo. E muita gente eles levaram. Aquele que tinha uma propriedade dele e não queria entregar, ia para a Sibéria. E isso se chegasse até lá. O tio da minha esposa é polonês. Ele foi levado para a Sibéria pelos russos, quando tomaram a Polônia. O que eles faziam? Davam chá, pão preto e carrinho de mão e carregavam terra pra duzentos, trezentos metros. Não precisava matar. Ele morria mesmo. Aí chegava carta, faleceu fulano , faleceu sicrano. Durante a fome de 1933, eu vi um matar o outro para comer a carne! Morreram 10 milhões de pessoas. Aqueles que gritaram que queriam comunismo, depois que passou 1 ou 2 anos morreram também.

O senhor é um homem religioso?

MS:Doente, não. Mas freqüento a igreja.

Continuou a praticar a religião mesmo durante o governo de Stalin?

MS:
Acho que depois de 1936 liquidaram com padres, igrejas, até o padre que passava na nossa casa – minha mãe era muito religiosa – fugiu. E depois desmancharam igreja e levaram para outra vila para fazer colégio de tijolo à vista. Só deixaram uma igreja ou duas, para irem aquelas velhinhas, porque os comunistas não podiam fazer nada com aquelas pessoas.

O senhor acha que o brasileiro recebe bem estrangeiro?

MS: Melhor raça que o brasileiro não existe. É dado, um povo amigável, acolhedor. O americano não é bem assim. Eles te aceitam, mas não é bem assim. Não podemos falar do Brasil. Pra quem queria trabalhar, não tinha problema. Nunca encontrei preconceito, maus tratos.  Eu aprendi a escrever. Por mim mesmo agora aprendi e leio tudo.

É impressionante a sucessão das perseguições que os ucranianos sofreram.

MS: Primeiro russo, depois alemão. Se falasse alguma coisa, apanhava. Ele, o Hitler, era como Deus na terra para eles (os nazistas). Eram fanáticos pelo Hitler.

A primeira vez que o senhor teve sensação de liberdade foi no Brasil.

MS:
Sim, porque sem a liberdade era muito sacrificado. Mas quando eu era pequeno eu não notava isso. Depois me criei mais, fui para Áustria, fiquei lá de 43 até 47, quando vim para cá, aí comecei a entender como é que se ganha dinheiro, como se vive.

Como o senhor vê o Brasil e Canoas atualmente?

MS: O Brasil de 1950 para cá mudou muito. Tecnologia, televisão, tudo veio dos anos 50 para cá. E Canoas não tinha nada quando eu cheguei. Só me senti culpado porque não comprei mais terra aqui, de tantas terras vazias que tinha. Você é de origem libanesa, né?

Sim.

MS: Os libaneses são sempre mais do governo, né? Ou por conta. Os libaneses são a raça mais inteligente. Nunca se ouve falar nada contra eles. Raça que trabalha quieta, sem grandes problemas, entende? Tem muitos aqui em Canoas.

Eu tenho de lhe perguntar: quando ouve falar de um brasileiro,que está triste ou depressão, o que o senhor pensa em lhe dizer?

MS: Eu só digo (risos) não viu nada. O brasileiro que reclama da vida está chorando de barriga cheia. Para o brasileiro é só trabalhar, não precisa temer o governo nem nada.

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Falando um pouco sobre (contra o) marketing infantil durante o #IACL , evento incrível que ocorreu na Faculdade de Direito da #UFRGS. #workinprogress #watercolor 😊 🌞🌞 #skyline 😊😊 Essa aquarela foi finalizada neste final de semana, mas sempre acho interessante lembrar dos momentos em que a tinta estava secando :) #watercolor #aquarela #gaucho #arts #art

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