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Entrevistas

“A arte precisa influenciar as pessoas”

Celso Augusto Uequed Pitol entrevista Vinício Cassiano, artista plástico

Poucos canoenses saberão que a praça em frente aos Correios e à Prefeitura, no centro da cidade, chama-se Praça da Emancipação, ainda que nela transitem milhares de pessoas todos os dias. A homenagem é, obviamente, à emancipação política da cidade ocorrida em 1939. Nesta praça, os transeuntes que não estão premidos pela pressa em resolver os problemas do dia a dia – e são poucos os que ali passam nesta condição – devem ter percebido uma enorme escultura de concreto, onde se vê uma canoa e três homens: um, alto e forte, com um remo nas mãos; o outro, de cabeça baixa e com um rolo de papel nas mãos, pensativo; e um terceiro, apontando para o horizonte. O transeunte em questão provavelmente também não desconfia de quê se trata esta escultura. A canoa, claro está, representa a cidade. E quem são estes três homens? Ora, são os canoenses – são os transeuntes que, diariamente, levam a canoa adiante, seja com a força dos músculos, seja com a fineza do pensamento,  seja apontando o futuro.

O homem ali retratado – o trabalhador braçal, o estudante, o professor, o empresário, o transeunte, o canoense – não se dá conta disso: não se dá conta de que é ele quem leva a cidade adiante. E isto tem uma série de implicações imperceptíveis à primeira vista mas muito importantes no transcurso dos acontecimentos. O multipremiado artista plástico Vinício Cassiano, autor desta escultura e nosso entrevistado desta semana, demonstra saber disso quando diz que seu objetivo principal é influenciar pessoas. Vem daí a sua crítica à arte abstrata, a sua preferência pelas formas clássicas e figurativas, a sua admiração por Leonardo Da Vinci e Gustave Doré e a sua recusa a seguir modismos estéticos que desaparecem com a mesma rapidez com que surgem. A arte de Vinício Cassiano pretende-se, como toda arte digna de nome, uma arte sem títulos ou rótulos; o único adjetivo que se lhe pode apor é aquele que merece acompanhar a verdadeira obra de arte: perene. Uma arte feita para ser compreendia para sempre – para influenciar pessoas em todos os lugares, em todos os tempos, até mesmo nesta cidade rude, de trabalhadores rudes, que têm de correr pelas ruas e praças sem conhecer-lhes os nomes, apreciar-lhes os monumentos, descobrirem-se a si mesmos.

* * * *

Criador e criatura

Obra vencedora do concurso “60 motivos para amar Canoas” – 2000.

És mais um dos milhares de canoenses que vieram do interior, não é?

Vinício Cassiano: Na verdade, eu nasci em Porto Alegre e muito pequeno me mudei para Rolante, no interior. Nem luz elétrica tínhamos. Eu me criei até dez anos com lampião de candeeiro. Rádio, nem pensar. O meu avô era um imigrante austríaco, um homem duro, que infelizmente não sabia valorizar a arte, a cultura, o pendor artístico do meu pai, que era um apaixonado por arte. Seu pintor favorito era Michelangelo. Meu pai deixou de ir para a França duas vezes, queriam levá-lo, mas o velho não deixou, disse que deveria trabalhar no açougue da família. Meu pai tinha uma mágoa muito grande. A última obra dele foi uma Nossa Senhora que ele pintou para minha mãe. Morreu quando eu tinha 17 anos. Eu tive a chance que ele não teve. Porque, aos 17, 18 anos eu continuei o que estava fazendo. Então entrei para o quartel e fui seguir carreira militar.

Como é que aprendeu a desenhar?

VC: Naquele interior, onde não tinha nada, não tinha escola nem nada, a gente então desenhava no chão com carvão. Depois, quando fui para a Aeronáutica, surgiu uma lei que dizia que o cabo só podia permanecer oito anos. Eu já era casado e tinha que fazer um curso na escola de especialistas. Lá me formei em desenho – artístico e técnico. Hoje não é tão importante, porque o computador substituiu muita coisa, mas naquela época era importante. São onze modalidades de desenho ao todo. Claro que o foco era mais técnico, mas também o artístico se aprendia.  A arte, em si, não se aprende. A técnica para desenhar sim, se aprende, mas não o ímpeto artístico.

A vida de artista e a de militar não são, de certa forma, opostas? Não são mundos diferentes?

VC: São opostos. Mas veja que o próprio João Palma da Silva era suboficial, autor da primeira História de Canoas e o primeiro jornal de Canoas foi criado por um militar, Nemésio Meirelles. Mas era meio difícil no inicio, porque são mundos opostos. Por outro lado, a carreira militar é alicerçada em cima da disciplina, que é a base da harmonia e do bem comum. Se tu não tiveres disciplina a coisa não funciona. E essa disciplina é importante para o artista, porque ele lida com a imaginação, a ficção, a liberdade, e isso pode ser perigoso se não for bem orientado.

Tanto é que muitos artistas acabaram enlouquecendo….

VC: Sim, se tu deixares tudo liberado vem a loucura. Então a vida militar me ajudou nessa disciplina, de me regular, de ter os pés no chão. A minha própria arte tem os pés no chão e uma mensagem a passar. A religião também me ajuda a fazer isso. Eu sou contra essa filosofia que tem por aí que a arte é uma coisa abstrata, sem vínculo com a realidade.

Falas da arte abstrata?

VC: Exatamente. Muitos modernistas dizem que a arte clássica não é arte, é apenas técnica. Arte é apenas a abstrata. Eles gostam de falar muito daquela coisa gestual, mas então o macaco também é artista! Porque um macaco pode também pegar um pincel e pintar.Tenho um livro chamado “Os macacos também pintam”, que fala justamente isso. A arte moderna deu a chance a pessoas sem talento algum se tornarem artistas. E eu sou contra isso de que a arte só vem da emoção. A emoção tem de ser conduzia pela razão. Porque tu és um ser racional, não irracional….

A própria arte de Da Vinci é inspirada pela geometria…

VC: Sim, pela matemática, tudo estava ligado à razão. E acho que a arte tem de influenciar pessoas e ela por isso tem de ser racional, porque as pessoas são racionais. Eu não sou contra a arte abstrata, até porque isso limita o artista e vai contra o que eu acredito. Mas eu não faço o abstrato porque acho que a minha missão é passar algo pras pessoas e eu acho que a arte abstrata é meio volúvel, é mais decorativa.

Ortega y Gasset dizia que a diferença entra a arte antiga e a moderna é que esta última é criada para ser entendida e apreciada por uma elite de pessoas especializadas. Antigamente, quem ia a uma igreja gótica compreendia a beleza dela. Hoje, ele não compreende a arte moderna. Ferreira Gullar também tem uma opinião semelhante…

VC: Sim, mas é isso mesmo. O problema é que a arte abstrata dá uma margem imensa para quem não tem talento nenhum entrar no mundo da arte. Porque a arte dá um élan às pessoas, as pessoas encaram como se fosse um título. Ser artista é um titulo. Dá chance a muita gente que não tem talento se realizar pessoalmente. Agora, se isso vai ser bom……É como eu digo, a arte tem de influenciar pessoas. As pessoas que não têm talento vão ter a chance de fazer arte. E outras pessoas que têm talento vão também pra arte abstrata. Se tu vires o passado dessas pessoas ela tem uma base de desenho artístico e clássico, ela fez uma evolução própria. O maior artista abstrato que tínhamos era o Paulo Porcella, estudei com ele, tive aula de arte abstrata. Ele entrou para a arte abstrata porque era o momento da arte abstrata. Eu por exemplo não fui, não gostei. E ele adorava o abstrato. Até que um dia eu me encontrei com ele ma Casa Arte e eu disse “Paulo, tudo bem? Continua com as tuas pinturas abstratas? E ele me disse “me curei daquilo”. A palavra foi “curei!”. E então ele começou a pintar figurativo. Ele chegou a conclusão depois de velho que aquilo não somou, que não importava nada.

Aqui em Canoas, como começaste a expor?

VC: Fizemos a primeira grande exposição de pintura no CSGAPA nos anos 70, 76, 77 por aí. E foi visto também pela dona Alice Tietz que até hoje é relações publicas do Conjunto Comercial. E naquela época o conjunto estava iniciando. E ela foi lá e nos levou para uma sala e a gente fez uma grande exposição ali no Conjunto, que nos promoveu socialmente em Canoas. Eu costumo dizer e gosto de dizer que a Alice Tietz foi o nosso primeiro mecenas.  Já que essa exposição do CSGAPPA funcionou, no Conjunto Comercial foi um sucesso, nós pensamos em criar um grupo organizado onde pudemos fazer as nossas exposições, dar aula de pintura e desenho, etc, etc. Então criamos, nos reunimos e fundamos a REARTE (República de Arte). A idéia era aceitar tudo quanto era movimento artístico. Infelizmente acabou porque nos mantínhamos tudo do nosso bolso e o sistema econômico brasileiro entrou num caos, o dinheiro passou a não valer mais nada, os nossos filhos começaram a crescer, não podíamos mais tirar do nosso bolso. Mas continuei trabalhando. Fiz a Santa Rita, fiz o padroeiro da Policia Civil no Palácio da Polícia, fiz o monumento a Soroptimistas, fiz o monumento ao centenário do Primeiro Vôo do Santos Dumont, dentro do quartel eu tenho o monumento da cuia de chimarrão, à hospitalidade, em Canguçu fiz o monumento a Nossa Senhora da Conceição. E devo voltar em Agosto para fazer a via-sacra.

Boa parte é de origem religiosa, da tua obra, não é?

VC: Nem tanto. De religioso, vamos enumerar: Santa Rita, a Nossa Senhora da Conceição, a Maria Gorete na minha paróquia. Mas não é tanto. Mas eu já pensei em fazer um trabalho estritamente religioso, pintar uma via-sacra como Aldo Locatelli. Eu gostaria de fazer a minha idéia, passagens da Bíblia pintadas….

Como o Gustave Doré?

VC: Nem me fala. Se a gente olhar para o Doré a gente não faz mais nada. É como eu que toco violão ouvir o Yamandu Costa, não saio mais de casa. O Doré é o maior desenhista. Ele desenhou vários clássicos e é um cara do século XIX, da virada pro século XX, que é a época dos monstros sagrados, época áurea da pintura e do desenho.

Qual o teu artista favorito?

VC: Eu sou apaixonado por Leonardo da Vinci. Uma vez me perguntaram qual o meu ídolo e eu disse: tenho três. Primeiro, Jesus Cristo, pois foi o homem que vai mudar o mundo. Só ele para mudar o mundo. O homem só vai conseguir mudar o mundo quando entrar no que ele disse, na caridade, no perdão. Essa é a pregação que só Jesus deu e deu a vida dele por isso. Sou católico praticante. Acredito, então, na divindade, na ressurreição.

E o cristianismo – a Igreja Católica – foi uma força civilizatória entre o fim do império romano e o surgimento do Renascimento, da Moderndiade, foi ela quem segurou a civilização na Europa, junto com os árabes.

VC: Exatamente. E a arte também foi muito promovida pela Igreja. Na Renascença, a Igreja trouxe os artistas para a História, assim como os nobres. Mas como eu dizia, meu pai foi o meu segundo ídolo. Ele me ensinou a ler, me dava as lições quando voltávamos da roça. O meu terceiro herói foi  o Da Vinci. Mas eu acho que ele não foi o maior pintor de todos os tempos. O que me apaixona nele é o fato de ele ter sido tudo. Um cientista, um místico, um artista. Acho que como pintores houve maiores, até porque o Da Vinci não pintou muito. Projetou submarino, helicóptero, tanques de guerra, foi um grande escultor. Depois de Jesus Cristo foi a maior cabeça que já pintou no Universo. E ele era sozinho, podia trabalhar só naquilo. Às vezes ele trabalhava numa coisa e depois ia para outra completamente diferente; Há uma história interessante. Em Florença, o governador de Florença pediu que ele trabalhasse num mural. E ele começou a pintar e sumiu! E o mural continuou lá. O que eles fizeram? Contrataram o Michelangelo, que era um verdadeiro empresário das artes, e tomou o lugar dele e acabou o mural. E o Michelangelo terminou o mural e o Leonardo ficou de mal com ele. Eram meio compadres, aliás. É preciso conhecer todos esses artistas clássicos, Michelangelo, Da Vinci, para começar a pintar.

Trabalhar com a área cultural em Canoas é, como todos sabemos, muito complicado. Fale um pouco disso.

VC: Eu vim pra Canoas em 1954. A cidade tinha o calçadão ali ainda de terra, de barro, então era um zero à esquerda. Devagarinho, a cidade com uma briga constante de gente como o Tonito, o professor Longhi, criador do primeiro coral de Canoas, o Nemésio, o Pfeil e muitos outros. Eu vou fazer uma alusão: em 1970, quando entrei no coral de Canoas , nós fazíamos festivais para meia dúzia de pessoas que eu brincava que eram quase sempre nossos familiares (risos) . Hoje nós temos vários corais, o da Ulbra, o Coral de Canoas já foi pro Uruguai, para outros estados. Temos uma Fundação Cultural, temos outras entidades. Canoas já foi chamada de cidade dormitório, hoje já não é. Deixou de ser graças ao trabalho de muitas pessoas de Canoas. É uma cidade de trabalhadores. Mas, que tipo de trabalhaodres? De trabalhadores braçais e de empresários. O empresário tem, na minha opinião, uma obrigação para com a cultura, pois ele tem um compromisso com a cidade, pois é dela que retira sustento.

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