Resenhas

O homem certo, no lugar certo, na hora certa

O Prêmio Nobel merece todas as críticas que se lhe fazem. Dizem que seus critérios são escusos, que não premia sempre os melhores, que atende a interesses outros que não os puramente literários. Dizem também que está sujeito a ventos que vêm da política, da economia e até da psicologia, quando os julgadores (europeus, na maioria) são acometidos por súbito sentimento de condescendência para com os certos países, mormente os de Terceiro Mundo, ou os irrelevantes em termos culturais, ou os dois. Dizem de tudo – e não é sem razão aquilo que dizem. De fato, premia-se por vários motivos discutíveis: para sanar “dívidas históricas”, para dar reconhecimento a determinadas literaturas, para atender a demandas de bastidores. O resultado é a vitória de representantes de minorias perseguidas (seja por etnia, idioma, religião ou sexo) e da periferia econômica, social e política do mundo, muitas vezes no lugar de nomes que freqüentam os principais centros de cultura do Ocidente.

Por outro lado, há a ação da propaganda. E ninguém faz propaganda melhor do que a esquerda, em especial os comunistas, solo de onde, aliás, brotou o termo agitprop. A propaganda fez Jorge Amado ser considerado um gênio, colocou Gorki no mesmo patamar de Dostoievski, transformou Brecht num grande dramaturgo e Jean Paul Sartre num ícone de uma geração, mais citado do que lido e mais imitado do que citado. Borges foi um dos primeiros a apontar essa particularidade do Nobel quando disse que Neruda, além de ser péssimo poeta, só saiu vencedor devido às suas posições políticas. O exagero do mestre argentino, embora exagero, demonstra que esta particularidade do prêmio não é nova.  Gente de quarta categoria já foi premiada. Gente que defende determinada bandeira, linha ideológica, pensamento. Gente que não deveria ter vencido. Por outro lado, Joyce, Pessoa, Drummond e Borges nunca ganharam um Nobel; Dario Fo, Elfriede Jellinek e Toni Morrison, sim. O Nobel, por si só, não quer dizer muita coisa – ao menos, não quer dizer tanto quanto alguns ainda crêem.

José Saramago preencheu plenamente os dois pré-requisitos para ser conduzido, com todas as honras, à escadaria do Conservatório Real de Estocolmo. Em primeiro lugar, é comunista. Não é “de esquerda”, “liberal no sentido americano” ou “social-democrata”: é comunista. Nunca deixou de sê-lo, apesar de seu recente (e bastante atrasado) rompimento com Fidel Castro. É materialista: há crítica, implícita ou explícita, à religião em seus livros. É marxista: removendo os véus da ideologia, procura desnudar a crua realidade em constante mutação e apontar-lhe o fundamento material que dá origem a toda forma de opressão. Por último, é intransigente. Não atenuou nunca a sua opção ideológica e até a justificou biologicamente: “sou um comunista hormonal, no meu corpo há hormônios que me fazem crescer a barba e outros que me fizeram ser comunista. Não quero me transformar em outra pessoa”. Um hormônio, que, aliás – algum leitor mais bem-humorado notará – parece estar intrinsecamente ligado ao outro. Não no caso de Saramago, que se mantém cuidadosa e inteligentemente longe da caricatura.

Por outro lado, sendo português, Saramago é da periferia. Apesar de ser Europa, Portugal é periferia em todos os sentidos que o termo “periferia” pode assumir, do político-econômico ao artístico. Sua literatura é praticamente desconhecida fora do seu pequeno território: é pouco conhecida (excetuando o próprio Saramago e um ou outro clássico mais óbvio) até mesmo dos brasileiros. É menos relevante para a cultura do século XX do que a de alguns países latino-americanos, como a Argentina. O idioma de Saramago é menos importante, em termos europeus, do que o russo ou o holandês. Ao mesmo tempo, é uma língua de matriz européia, falada em todos os continentes e com uma literatura de oitocentos anos de idade. Nunca havia sido concedido um prêmio para os lusófonos. Era preciso reparar este defeito – e o melhor, naquele momento, era José Saramago. Um legítimo caso de homem certo na hora certa.

Homem certo? Poderá ser chamado de “homem certo” quem ganha um prêmio alavancado pelas suas convicções ideológicas e com a complacência dada pela sua condição periférica? Num certo sentido – que tem a ver com aquilo que influencia decisivamente a escolha do prêmio -, sim. Noutro sentido – que tem a ver com a justiça propriamente dita -, não. Quem ganha a notoriedade que um prêmio como o Nobel confere ao premiado deveria, em tese, merecê-la por méritos próprios. É a questão que se colocou à época e ainda se coloca nestes momentos que seguem a sua morte, quando uma parcela dos que sobre ela escreveram apontaram estes dois fatores como determinantes para a fama do autor. Não foram apenas dois ou três que colocaram sobre os ombros da propaganda política e da condição periférica de Saramago o leitmotiv de sua premiação e de sua fama mundial. Não foram apenas dois ou três, também, que fizeram questão de diminuir sua obra com bases nestes predicados. Segundo esta corrente, Saramago não apenas foi catapultado pela sua opção ideológica como, por essa mesma opção, não merecia ganhar e não merece a importância que lhe deram. Foi chamado de antissemita pelas suas opiniões contrárias à ação de Israel na Palestina, de propagandista barato pela suas defesas dos regimes de esquerda, de anti-cristão pelas suas declarações sobre a Igreja e, naturalmente, de comunista, por todo o resto. Para muitos, Saramago morreu como um verdadeiro criminoso.

Deste último crime – o de ser comunista – Saramago é réu confesso. E, como muitos deles, fechou os olhos para certas coisas que diante das quais não se deve fechar. Até o fim da vida, defendeu um regime totalitário que matou centenas de milhões de pessoas em um século, ganhando de todas as guerras e epidemias que já castigaram a terra. Silenciou durante muito tempo sobre Cuba, sobre a Coréia do Norte, sobre tudo o que o comunismo disseminou. Tudo isso é verdade. As críticas que se faz ao comunista Saramago são as mesmas que se pode fazer a praticamente qualquer comunista. Estendê-las à sua obra é, porém, um grave e óbvio equívoco. A obra de Saramago, em seus melhores momentos – aqueles que, de fato, o fizeram ser premiado – nada tem de comunista. Aliás, Ensaio sobre a cegueira é o tipo de livro que poderia perfeitamente ter sido escrito por um anti-comunista, nascido em país sob este regime, exilado por razões políticas e desejoso de atrair a atenção internacional e incitar seus concidadãos a tentar a libertação à maneira dos cegos da narrativa. Este mesmo livro é exemplo claro de que ser periférico não é o mesmo que ser provinciano: não fala apenas a seus concidadãos ou a todos aqueles que, por algum tipo de curiosidade momentânea, estão interessados nas coisas de Portugal. Mesmo quando seu pequeno país é tema de obra – veja-se o caso de História do Cerco de Lisboa, O ano da morte de Ricardo Reis ou A Jangada de Pedra – os temas ali tratados são absolutamente universais e podem ser transpostos, com pouca perda, para qualquer outra realidade. A opinião de um Harold Bloom é definitiva: “Saramago é o maior escritor contemporâneo”. E Harold Bloom pode ser criticado por muitas coisas, mas não por desconsiderar a importância da universalidade de um escritor ao avaliá-lo.

A crítica de fundo ideológico não pode ser levada a sério – a própria esquerda faz isso com freqüência, sem ser levada a sério por quem não é da própria esquerda. Criticar Saramago por ser esquerdista é como desconsiderar Bernanos ou T.S. Eliot por serem de direita. Os motivos que o levaram a ganhar o prêmio estão em sua obra. O que comprova, mais uma vez, que Saramago era mesmo o homem certo na hora certa: preencheu os critérios estabelecidos e os aliou à qualidade de uma obra atemporal. Os motivos menos respeitáveis que lhe garantiram o prêmio, esses podemos esquecê-los. Fiquemos com os respeitáveis. Estes sobreviverão ao próprio escritor, suas opiniões pessoais, suas convicções íntimas, seus erros e acertos.

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