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Entrevistas, Música

Entrevista: Kiko Prata, vocalista da banda Mandala

It´s a long way to the top with you wanna rock´n roll –há um longo caminho até o topo se você quer o rock´n roll. É este o aviso que Angus e Malcolm Young, do AC/DC, deixam àqueles que querem virar rockstars. Se vivessem no Brasil – e, mais especificamente, no Rio Grande do Sul – provavelmente diriam que o caminho não apenas é longo como é tão tortuoso, mal pavimentado e mal sinalizado quanto são quase todos os caminhos e estradas que temos por aqui. Kiko Prata foi um dos que enveredou por este caminho. Vocalista da banda Mandala, um dos poucos exemplos de sucesso musical vindo de Canoas (todos os integrantes moram aqui, sua base é Canoas e já gravaram um videoclipe com imagens da cidade) ele bem sabe como é duro não só entrar como seguir nele por anos a fio. Mesmo assim, não pára: ao lado dos demais integrantes da banda  – Nando Ares (guitarra), Lia Oliveira (bateria), Maxi Pereira (baixo) e Everton Acosta (guitarra) – vem conquistando espaço e reconhecimento dentro do cenário musical regional e nacional, com direito a clipes na MTV, shows, festivais e muito mais. A entrevista a seguir conta um pouco da formação da banda e de uma trajetória, que é parecida com a de muitos que tentam ou tentaram encarar os perigos e as durezas deste caminho. E que, como Kiko Prata e a Mandala, seguem nele sem parar.

Mais informações pelo site da banda: http://www.myspace.com/bandamandala

Quando formaram a banda?

Kiko Prata: Faz sete anos, em 2003. A gente começou com o objetivo de fazer músicas próprias e, por isso, gravávamos muitas músicas. Aí surgiu a oportunidade de mandar para um produtor – Tadeu Malta –  um pouco do nosso som, ele se interessou,começamos a trabalhar juntos, e em 2005 conseguimos um contrato com a gravadora Orbeat, a mesma de muitas bandas aqui do Rio Grande do Sul. Conseguimos um contrato em outubro de 2005. Tocou muito na Atlântida, em várias rádios do RS. Em 2006 tocamos no Planeta Atlântida. Em 2007, o mercado ficou mais complicado, mais difícil, e mudamos alguns componentes na banda.

Isso incluiu mudar o som?

KP: Um pouco. No nosso primeiro CD o som era mais ano 90, o estilo chamado “pós-grunge”, era algo como Creed, Bush e outras bandas. Com a mudança na formação, fizemos um som um pouco mais rápido e pesado, mas não mudou muito a essência, a melodia, as temáticas. Aí gravamos o segundo CD e conseguimos a gravadora MZA, que é do Mazola, um produtor que lançou discos ao vivo do Raul Seixas, do Zeca Baleiro, produziu RPM, Frank Sinatra e outros. Interessou-se pelo nosso CD porque nós temos números muito bons na Internet. Temos 700 mil views no MySpace, desde 2005. Nossos clipes no Youtube são muito acessados, inclusive um dos nossos clipes, Outono, saiu na Garagem do Faustão. Tudo isso contou para o contrato com a gravadora. Os contratos que nós tínhamos até então era só de distribuição. Divulgação, marketing, era tudo por nossa conta. E esses espaços são difíceis, complicados. Ano passado, fizemos uma mini turnê no Rio, tocamos na Transamérica, na Atlântida e em várias outras rádios. Nosso clipe passou na MTV todos os fins de semana durante uns dois meses, e agora a gente está, de novo, tentando gravar materiais, lançar um outro CD, estamos num processo de composição e shows.

E o lançamento do CD? Está agendado?

KP: A idéia é lançar singles. Porque a gente acha que gravar um CD de qualidade é algo muito caro. Se não tens apoio da gravadora, fica muito difícil, muito caro. Então a gente acha que é melhor ir gravando aos poucos. E também achamos que o CD, como formato, é algo que esteja já ficando um pouco obsoleto.

Nos EUA já existe um “mini-revival” do vinil….

KP: E tem quem ache que o vinil tem um grave melhor. A idéia é continuar lançando , em CD, os singles, uma música, duas músicas. Nosso objetivo é fazer um som contemporâneo, com guitarras trabalhadas, o que não quer dizer que é uma guitarra solando o tempo inteiro. O solo de guitarra já perdeu muito do seu encanto. A guitarra existe para fazer outras coisas que não o solo. Se tu fores ouvir o som dos anos 90, tu vês o solo do Slash. As bandas de hoje em dia não têm o famoso “momento do solo” dentro da música.

Como vocês definem o som de vocês?

KP: Olha, temos muitas influências de bandas contemporâneas, mas sempre temos a raiz nos anos 90, na primeira metade dos 90. Eu, por exemplo, comprei o Nevermind na loja, em 1991, o Soundgarden a mesma coisa. Então, apesar de termos essa base, nós temos que ficar ligados sempre nas novidades, para o som não ficar ultrapassado, pois a  galera quer ouvir bandas novas com novidades. A não ser que a banda resolva mesmo assumir esse lado antiquado, se vestindo com as roupas da época.

O que é muito freqüente aqui no RS…

KP: Sim, exato. E nós até sofremos um certo preconceito por aqui no RS por conta disso.

Preconceito?

KP: Sim. O que ocorre é o seguinte. As pessoas que aqui cuidam dos meios de comunicação, casas de show, etc, etc. são muito fãs do rock dos anos 60. Então, o nosso rock gaúcho que surgiu depois dos anos 80 acabou ficando assim. E o pessoal acaba torcendo o nariz para tudo o que não é assim, como nós. Isso nos rotula demais. E muito do sucesso que fizemos fora do RS se deve a não queremos fazer esse tipo de som, de não seguirmos rótulos.

Vocês são maiores fora daqui?

KP: Em algumas cidades, sim. Na nossa comunidade do Orkut, que tem mais de 20 mil pessoas, tem um grande número de pessoas de Minas Gerais, Mato Grosso e outras partes. A gente sabe que o nosso tipo de som não bate muito com o que as pessoas costumam associar a “rock gaúcho”, o que inclusive dificulta até mesmo a classificação da música. Por exemplo, com essa onda emo, nós ficamos rotulados como emos sem alguém escutar o nosso som. Mas eu também gosto muito do rock dos anos 60, sempre gostei muito dos Rolling Stones.

Esse preconceito tu achas que existe também aqui em Canoas com relação a vocês?

KP: Aqui também. Muita gente ligada à música fala mal da nossa banda. E isso nos impressionou quando tocamos no RJ tivemos uma receptividade espetacular, chegaram a reprisar o nosso programa três vezes. Fizemos também um programa com a Dora Vergueiro. Deu para perceber que é uma galera bem mais aberta. Aqui a coisa já é diferente. Ano passado chegou uma proposta para fazermos dois programas na MTV no ano passado, fizemos um orçamento e concluímos que ia chegar a 20 mil reais. E fui pedir um apoio da prefeitura. Resultado: não recebi nada, falei diretamente com o secretário de Cultura, dissemos que o nosso clipe mostrava Canoas – foi gravado no Jardim do Lago, perto do Lago – e não deu em nada.

Tu só vives da música?

KP: Sim. Eu sou formado em Psicologia mas trabalho com música, sou professor de música. Sempre fui um cara que curtiu estudar, mas desde os 18 anos estou focado na música até agora. Eu vivo da música e isso é difícil no Brasil. Muito difícil. Dou aula desde os 18 anos e tenho hoje 32.

Como é viver da música num país como o Brasil? Ainda mais tocando rock….

KP: É, um estilo que já não é tão popular. É complicado. Eu tinha duas opções. Focar no trabalho da música própria e a música própria dar certo era uma opção. A outra opção era sair tocando cover. E isso é desgastante, tocar à noite, dá para ganhar uma grana boa mas é difícil, é preciso ficar horas e horas à disposição. E viver das composições próprias é difícil. Hoje eu vivo mais das aulas de vocal que eu dou do que da banda. Claro que temos shows importantes. Na próxima sexta-feira, dia 30 (hoje) a Mandala vai tocar na festa da Pop Rock de Gramado. No mês que vem, em agosto, vamos tocar junto com Strike e NX Zero no Pepsi On Stage. Mas é muito complicado viver de música no Brasil, ainda mais num estilo que, como eu disse, já não é tão popular no Brasil como já foi. Já chegou de chegar a um lugar e me pedirem pra tocar sertanejo universitário (risos). Isso aconteceu em Santo Ângelo, se não me engano.

Tocam muito no interior?

KP: Muito. Em Porto Alegre e Canoas é no máximo uma vez por ano. Ano passado, duas vezes, sendo que numa dessas, com a Rosa Tatooada e tudo, veio 100 pessoas. É como eu disse, aquele preconceito que existe interfere e muito. O interior é mais aberto do que a Capital nesse aspecto. Tu vais dar uma entrevista numa rádio e as pessoas são muito mais abertas ao nosso som.

E fora do RS?

KP: Tocamos no Rio e já recebemos propostas para tocar em Santa Catarina, MG e MS. O problema é que não é viável fazer um só show nesses lugares, por causa do gasto. Todo o gasto que se tem faz com que não valha a pena. Nós coordenamos tudo isso nós mesmos.  Na verdade, temos nesse aspecto um pouco do funcionamento de banda independente.

Como vocês acham que é a percepção do rock gaucho fora daqui?

KP: Em primeiro lugar, a gente nota que existe muito respeito ao RS no que diz respeito à música. Eles dizem que há uma grande variedade de músicos aqui. Isso tanto no RJ quanto em SP. Conversamos com o Rick Bonadio (produtor dos Mamonas Assassinas e do NX Zero) e notamos essa percepção e essa abertura ao rock daqui. E eles percebem essa diferença, essas nuances da nossa música. Curiosamente, aqui tivemos vários problemas. Nos programas de TV muitas vezes, exigem que a gente passe o som muito rapidamente , o que prejudica o nosso trabalho. No Rio de Janeiro, deixaram passar o nosso som tranquilamente. Aqui, parece que estão nos fazendo um favor.

Como vê a situação de Canoas nesse panorama?

KP: Acho que Canoas é um tanto amadora nesse aspcto. Não temos infra-estrutura. Não temos teatro. Temos uma Wave, um StudioRockBar, mas que não são só de rock, pois não há mercado suficiente para o rock. Sem contar que o pagamento nem sempre é bom. Mas mesmo assim há muita gente boa, muitos músicos bons que mereciam mais espaço dentro daqui.

Acha que existe um cenário rock daqui? Algo que vá além de “um-monte-de-gente-que-toca-rock”?

KP: Acho que existe, sim. Os festivais estão sempre cheios – rock, heavy metal e outros. Isso mostra que existe sim uma cena, aqui. Já participei de jurado nesses festivais e noto sempre que há o surgimento de bandas novas e, mais do que isso, de bandas novas com qualidade.

O rock perdeu espaço?

KP: Perdeu, sim. Um estilo que tinha um grande ídolo como Renato Russo e Cazuza, hoje tem que? Não existe. E eram ídolos em todas as classes sociais, em todas as partes do país. Hoje não temos nada parecido com isso. Infelizmente, o rock já não tem o espaço que tinha antes.

Mas tu não achas que não apenas aqui? O rock não deixou de ser a “voz dos jovens” para se tornar um estilo entre tantos?

KP: Acho. Esses dias eu vi uma entrevisa com o Gene Simmons, do Kiss, onde ele disse que, para ele, o rock começou a perder a força e a presença quando apareceu o grunge por causa do jeito que os caras se vestiam. Ele disse: “as músicas eram maravilhosas, mas o cara se vestia que nem o meu jardineiro” (risos). Isso tem um fundo de verdade. É só tu veres o que são aqueles clipes de hip hop, o jeito que os caras se vestem. O rock tinha aquele distanciamento entre o público e a estrela, que o grunge ajudou a matar. Eu não tenho uma conclusão definitiva sobre isso, mas que o rock perdeu espaço, ele perdeu.

Qual a tua maior inspiração como vocalista?

KP: Eu tinha quando mais novo o Robert Plant e o Mick Jagger. Com o passar do tempo, eu acho que não tem quem se compare ao Paul McCartney. Até quando ele esganiça é no mesmo tom. Tem também o Eddie Vedder e o Chris Cornell, que é um dos meus preferidos. O grunge, como eu disse, foi muito importante. Lembro de, quando era adolescente, ver o clipe do Temple of the Dog na MTV, “Hunger Strike”, simplesmente maravilhosa. Eu adorava o Cornell.

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Discussão

6 comentários sobre “Entrevista: Kiko Prata, vocalista da banda Mandala

  1. Nuss nunca imaginei que vcs sofriam td esse preconceito, e passavam por todos esses apertos, cara mas não desiste, o som de vcs eh muito bom!!! Eu sou gaúcho e amo mandala…Não desistam nunca de seus sonhos!!!

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    Publicado por Everton Samuel da Rosa | 3 de agosto de 2010, 01:25
  2. Ah twitter @_samuelll eu sigo vcs lah

    Curtir

    Publicado por Everton Samuel da Rosa | 3 de agosto de 2010, 01:26
  3. kiko vcs sao o maximo
    fã nº1

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    Publicado por Angélica | 3 de agosto de 2010, 11:37
  4. o blog persctiva não vai se inurgir contra a condenação da iraniana sakineh por apedrejamento?

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    Publicado por celso pitol | 4 de agosto de 2010, 13:09
  5. O BLOG PERSPECTIVA esqueceu o futebol ? O que aconteceu ?
    Não estou entendendo …

    Curtir

    Publicado por Koringa66 | 6 de agosto de 2010, 19:15

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  1. Pingback: Tweets that mention Entrevista: Kiko Prata, vocalista da banda Mandala « PERSPECTIVA -- Topsy.com - 3 de agosto de 2010

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