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Entrevista: Anna Paula Magalhães Pereira.“O atletismo brasileiro tem tudo para ser um dos melhores do mundo”

Por Celso Augusto Uequed Pitol

Talvez algum leitor ache estranho saber que nossa conterrânea Anna Paula Magalhães Pereira vem se destacando no lançamento de martelo. Desde já avisamos que não veremos Ana Paula num sábado de manhã a caminho da loja de materiais de construção em busca do melhor preço para seu equipamento esportivo. O martelo de Ana Paula não serve para pregar nada: consiste em uma pesada bola de metal presa por um cabo de arame. O objetivo é lançar o objeto de quatro quilos à maior distância possível, e a melhor marca de Ana impressiona: 60,02 metros. Não é à toa que, desde 2004, ela faz parte da seleção brasileira da modalidade. Acabou de voltar da Espanha, onde chegou às finais do Campeonato Ibero-Americano de Atletismo e conquistou o oitavo lugar, seguido de um quarto lugar na Eslovênia poucos dias depois. Em setembro, estará em São Paulo para competir pelo Troféu Brasil adulto. Seu notável desempenho esportivo parece ser de família: é irmã de Thiago Magalhães Pereira, ex-zagueiro do Internacional e atualmente no Chapecoense e sobrinha de Paulo César Magalhães, lateral-esquerdo campeão do mundo pelo Grêmio, em 1983. E foi junto a sua simpática e acolhedora família que Anna Paula nos recebeu em uma de suas visitas a Canoas.

*          *          *          *          *

Anna Paula e o martelo com o qual chegou às finais do Campeonato Ibero-Americano de Atletismo

 

Primeiramente, uma pergunta óbvia: quantos quilos tem o teu martelo?

Anna Paula: 4 kg.

Quais as diferenças por peso e sexo dentro da modalidade?

AP: O feminino, na categoria juvenil e adulto, é 4kg. Já no masculino, o menor é 5 kg, o juvenil é 6 kg e o adulto é 7 kg. Mas a gente treina com implementos mais pesados, até para ter mais força e quando pegar um menor fica melhor para lançar mais longe.

 

Sempre tiveste inclinação para a prática de esportes?

 

AP: Sim, já no colégio praticava vários esportes.  Handebol, basquete, futebol sempre gostei de esportes.

 

E porque escolheste o atletismo?

AP: Eu gostava muito de basquete e queria seguir carreira como jogadora. Só que aqui no Rio Grande do Sul não tem tradição de time de basquete, escolinha e outras coisas. E eu queria ser profissinal. Aí minha mãe disse: “porque não tenta fazer o atletismo?”. Em 2001 eu fui tentar e disse: “eu, não! Correr? Nunca” (risos) . Aí eu parei, fiquei um ano longe. O técnico que me treinou me viu no La Salle e me chamou, perguntou se eu queria continuar, aí veio com outro professor e ele quis me colocar em outra modalidade. Acabei me destacando nos lançamentos e comecei a competir, ganhei uma medalha e me entusiasmei. Comecei a participar de competições, fui para o Uruguai, disputei os brasileiros, e em 2004 acabei indo para a seleção.

 

E desde então não paraste….

AP: Não. Desde então é treinamento todos os dias, de segunda a sábado, dois turnos de segunda a sexta e sábado pela manhã. É meio cansativo, mas o esforço compensa.

 

O atletismo no Brasil tem alguma tradição, não é? Já tivemos um Ademar Ferreira da Silva, um Joaquim Cruz, um Robson Caetano, um João do Pulo…..

AP: Sim, temos agora por exemplo, a Fabiana Murer, que é uma ótima atleta. Só é uma pena a questão da estrutura e da pouca valorização. Aqui se valoriza mais a corrida. Quando a gente vai para outros países notamos que lá se valoriza todas as modalidades.

Estiveste na Eslovênia agora depois do Mundial. Como foi a experiência?

AP: Foi maravilhoso. Treinei com o técnico do campeão mundial de 2009. E ele entende muito de tudo, técnica, nutrição, tudo. São top de linha. E são muito bons, humildes, me ajudaram muito. Nesses momentos é que eu lembro de quando estava em Canoas e nunca havia pensado em ir para outro país, treinar e competir (risos).

Como os estrangeiros vêem o nosso atletismo?

AP: Eles acham que temos muito potencial, mas pecamos na técnica. E não temos tantos problemas  na infraestrutura, ao contrário do que dizem. A nossa é, às vezes, até melhor do que a deles. Tem em alguns países com estruturas melhores, mas não é todos. A da Ulbra, por exemplo, é excelente.

Essa experiência de morar fora foi a primeira?

AP: Foi.

Como foi a tua convivência com as pessoas de outros países?

AP: Tinha eu e mais 3 brasileiros, e mais uma guria e dois guris. O resto era tudo esloveno. Conseguia me virar um pouco com o inglês.

Estiveste na  Espanha em junho, antes de ir pra Eslovênia. Como foi por lá?

AP: Foi muito bom. Ganhei o oitavo lugar na Espanha e fiquei muito feliz porque lá tinha muitas meninas boas. Havia 15 competidoras e passam apenas oito para a final. Eu fui a única brasileira. Fiquei muito feliz. Na Eslovênia, fiquei em quarto lugar.

 

OT: Quem são as melhores no lançamento de martelo feminino?

AP: Alemãs, russas e cubanas.

OT: Achas que existe preconceito contra mulheres no atletismo ou de modo geral no esporte?

AP: Agora nem tanto. Até porque a minha prova existe há mais ou menos uns 11 anos, ou seja, é bem recente. Antigamente, era só masculino. E o interessante é que, hoje, as mulheres estão cada vez mais se aproximando do patamar dos homens. O recorde das mulheres é de quase 80 metros – 78,28 metros –  sendo que o masculino é 84. Daqui a pouco as mulheres empatam ou até ultrapassam.

Como é a sensação de estar entre os 8 melhores do mundo vindo de um pais onde talvez não haja tanto apoio?

AP: É muito boa, porque eu sonhava com isso anos atrás e eu dizia “bah, será que vou conseguir ficar entre as oito, entre as primeiras?”. É como um sonho que está sendo realizado.  Eu quero ir para as Olimpíadas, para o Sul-americano, e não apenas para participar e sim para vencer.

 

Qual dos teus títulos dá mais satisfação?

AP: A primeira medalha que eu ganhei no troféu Brasil. Eu era juvenil e competi pela categoria adulta adulta. Eu e uma amiga minha passávamos por uma fase complicada, mandaram nosso treinador embora, enfim, era um momento difícil. Por isso eu valorizo tanto. Na China também, porque eu não era uma das favoritas mas acabei ganhando o 3º. lugar.

Anna Paula e algumas de suas medalhas

 

Em quais países já competiste?

AP: China, Espanha, Croácia, Eslovênia, Argentina, Uruguai, Venezuela e Portugal,

Estás morando em São Paulo desde quando?

AP: Janeiro de 2009

Tem saudade?

AP: Sim, da minha família e também tenho saudade de muita coisa. Tenho orgulho de ser gaúcha, levei chimarrão para o pessoal tomar na faculdade e foi muito engraçado porque o pessoal quer tomar  ligeiro e queima a boca.Tenho saudades do pessoal daqui, dos meus amigos,de tudo.

No meu clube (BM&F Bovespa )tem muita gente boa,os melhores,  mas por isso mesmo tem muita competição, muita rivalidade, coisa que não tinha tanto assim aqui. Mas é normal quando se pretende crescer no esporte, competir entre os melhores cada um buscando seu espaço. Eu quero apenas  fazer o meu melhor e aproveitar a oportunidade, sem pisar em ninguém.

Medalha conquistada no troféu Brasil/2008
Medalha de 3º lugar  conquistada em Macau,  na China, nos 1ºs Jogos da Lusofonia/2006

 

O teu tio (Paulo César Magalhães) foi campeão do mundo pelo Grêmio. Teu avô jogou futebol. Teu irmão (Thiago Magalhães Pereira, zagueiro da Chapecoense) também. Teus tios também. Ou seja, a tua família está, toda ela, ligada ao esporte. Isso influenciou a tua escolha?

 AP: Acho que sim. Mesmo que não tenha sido no futebol – e isso que eu cheguei a jogar um pouco – mas acho que influencia porque, com toda a família envolvida. tu acabas entrando. Mas não teve pressão. A minha mãe dizia que era só se eu quisesse, e eu acabei querendo e não saí mais. Ela e meu irmão me falam que eu vim pelas beiradinhas e acabei chegando  (risos).

Até que idade uma lançadora de martelo pode competir?

AP: Varia. Tem muitas que vão até os 38 anos. O auge é por volta dos seus 24 e 26 anos. Tem gente que começa com 8 anos e isso só vai aparecer lá para frente. É todo um trabalho. Eu comecei velha, com 15 anos, mas consegui evoluir.

Está competindo em alto nível desde quando?

AP: 2006, mais ou menos.

Ouve-se falar que a escolha do Rio de Janeiro como sede das olimpíadas ocasionou  um aumento de investimento no esporte de base olímpico. Tu notas isso?

AP: Sim. Essa viagem para a Eslovênia, por exemplo, foi paga pela Confederação Brasileira de Atletismo, sendo que antes era o clube que pagava. Dá para notar, sim, que há mais preocupação com esportes que normalmente não têm tanta divulgação, como é o atletismo.

Que idade tu achas que uma criança poderia começar no atletismo sem violentar seu físico e seu psicológico?

AP: Como eu falei, o atletismo é muito variado. Fora do Brasil a gente vê pessoas que começam até com 8 anos, não com o treinamento propriamente dito mas a brincar , correr, não com o treino sério. Esse treino pode começar a partir dos 14 anos.

Depois que parar com a vida de atleta pretende continuar como treinadora ou alguma função ligada ao atletismo?

AP: Gostaria sim, mas gostaria muito de trabalhar com crianças. Eu acho legal o envolvimento com os menores. E eu gostaria de passar o que eu sei para alguém mais novo. A criança pode aprender melhor e também não é tão rebelde quanto adolescentes (risos).

O treinador tem um envolvimento muito próximo com o atleta no atletismo, não é?

AP: Sim, muito. Porque é um esporte individual. Se tu não fizeres, ninguém vai fazer por ti. Então é bom ter um técnico próximo. Ele tem que seu amigo, companheiro, irmão, pai, tu tens que confiar nele, tudo tu tens que contar com ele, tens que acreditar nele. A união, nesse caso, é fundamental. O que acaba sendo também difícil para o técnico, porque cada pessoa tem a sua personalidade, tem pessoas mais abertas e outras mais fechadas. Com os meus técnicos eu sempre fui muito aberta, se eu tinha dor no mingunho do pé eles sabiam disso (risos). Eles sempre me acompanharam, me incentivaram, sempre tiverem uma boa relação com os meus pais. Mas tem alguns que não são assim. Depende da pessoa.

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2 comentários sobre “Entrevista: Anna Paula Magalhães Pereira.“O atletismo brasileiro tem tudo para ser um dos melhores do mundo”

  1. Sinto orgulho de ser amiga desta guria tão querida e sua família.

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    Publicado por Madame Li Li | 27 de agosto de 2010, 15:15

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  1. Pingback: Anna Paula Pereira é vice campeã no Ibero-Americano Caixa de Atletismo | PERSPECTIVA ONLINE - 15 de maio de 2016

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