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Entrevista: Nelci Inês Urnau, escritora-“A leitura sempre foi essencial para mim”

Por Celso Augusto Uequed Pitol

A escritora Nelsi Urnau é mais uma das muitas canoenses de adoção. Nascida em Boa Vista do Buricá/RS, veio para cá em 1987 e desde 1990 atua como professora de séries iniciais na rede pública de Canoas/RS. Define-se, porém, como uma escritora canoense. Com vários livros publicados, prêmios e participação em coletâneas, Nelci toma nossa cidade como inspiração para sua obra – embora não a cite diretamente – que já inclui trânsito por praticamente todos os gêneros literários. Nesta entrevista, ficamos conhecendo um pouco mais da escritora Nelci, dos seus projetos, de sua obra até agora escrita e das suas opiniões sobre a leitura entre os jovens, o ensino de literatura e a valorização que os canoenses dão aos seus escritores.

Mais informações sobre Nelci:

http://lemeselumes.blogspot.com/

*          *          *          *

Quando vieste para Canoas?

Aos 21 anos. Antes, fui para Livramento, aos 14 anos e lá morei sete anos. Depois vim para cá. A minha cidade era de colonização alemã e aprendi alemão antes de português. Falo alemão com a minha família até hoje. Em casa só falamos alemão, com minhas irmãs e outros familiares.

Como aprendeste o português?

A gente aprendia quando ia para a escola. Quando fui pra lá eu não sabia português.

É como eu digo, se existir essa história de outra encarnação, na outra eu fui portuguesa, porque eu aprendi adivinhando. Não sabia uma palavra em português até os 7 anos e a professora de 1ª. série sabia alemão. A gente falava alemão e ela respondia em português. Quem entendesse, ótimo. Senão, problema nosso (risos). Então aos poucos eu fui ligando o que eu ouvia e aprendi rapidinho.

Mas não tens sotaque forte.

É que faz muitos anos. E eu quase que só falo portugues atualmente. Mas de vez em quando o “RR” me incomoda (risos).

Essa tua experiência como bilíngüe desde pequena de alguma maneira te auxiliou depois, quando foste trabalhar pela palavra?

Acho que sim, foi um enriquecimento. Acho que isso também tem a ver com a família: todos gostavam de ler. Apesar de tivermos pouco material de leitura, a gente lia tudo o que tinha. Essa influência existia, apesar de morarmos muito no interior, na roça. A cultura da leitura no meio alemão é muito forte.

Em que ano vieste para Canoas?

1987.

Como te pareceu Canoas?

Eu vim em busca de emprego, porque em Livramento era pouca a oportunidade. Na época, era uma aventura, porque eu vim com as mãos abanando, sem emprego, sem dinheiro, sem nada. Vim morar na casa de amigos até conseguir emprego. Então trabalhei em plano de saúde, caixa de mercado, aí em agosto de 89 fiz o concurso da prefeitura e em abril de 90 me chamaram. Até hoje estou lá. Tinha feito magistério em Livramento.

Trabalhas onde?

Na João Palma da Silva. Aliás, isso me lembra que, quando tomei posse na academia de letras do Brasil, na cadeira no. 2 – que não é a academia brasileira de letras, é uma paralela –, eu podia escolher um patrono da seção canoense dela, porque ela se divide por estados e municípios. Eu escolhi o João palma como patrono da academia, seção Canoas.

Quantos prêmios ganhaste até agora?

Já perdi a conta (risos). Posso dizer que conquistei o 1º, lugar em conto poesia, romance, em vários gêneros.

Transitas por todos os gêneros.

Sim, até haikai. Só não sou ainda do poetrix.

Quando decidiste começar a escrever?

Bom, escrever eu escrevo desde que fui para Livramento. Tenho cadernos de poesias gaurdados daquele tempo e alguns textos que eu fazia nas aulas, e guardei porque considerei literários. A leitura sempre foi essencial para mim. A única coisa é que eu não me senti encorajada para publicar, até porque as condições eram mais difíceis, não sabia para que caminho tomar e fui guardando. Em 2003, eu falei com a Maria Rigo (presidente da Casa do Poeta de Canoas) e comecei a participar mais ativamente. Mas a literatura é algo que despende tempo e até mesmo dinheiro, porque a maior parte dos autores iniciantes tira do próprio bolso para publicar. Se fosse considerar só pelo lado econômico, nunca tentaria. Escrevo por amor a literatura.

E quais autores te influenciaram? Ou te impulsionaram para o caminho da literatura?

Sempre gostei de Augusto dos Anjos, José de Alencar, Graciliano Ramos – sempre gostei do intimismo dele – e até acho que a minha escrita tem alguma influência dele. Nos meus romances eu exploro muito isso, do intimismo. De que forma o personagem está reagindo. Li também alguns do Simmel, gostava dele também, do “Da primavera o ultimo canto da cotovia”, que retrata o começo da luta pela ecologia, inclusive transitando pelo Brasil. Li “o Colapso”, tempo de amar e de morrer, de Taylor Caldwell e muitos outros. Eu acho muito interessante que esse livro retrata a realidade da segunda guerra mundial a partir da Alemanha, do povo alemão, que acabou sendo levado pra guerra sem querer.

E também houve muita perseguição aqui…..

Sim, meus pais inclusive. Eles contam muitas historias. Os que moravam aqui eram considerados todos terroristas, foram proibidos de falar alemão….

Como vê a leitura entre os jovens hoje?

Antigamente, as pessoas diziam que era forçado a ler, que isso atrapalhou, mas eu noto que a maioria dos que leu os clássicos brasileiros se interessa hoje e tem muito mais habilidade para a leitura e se manteve leitor.

E como começou a transição da Nelci leitora para a que decidiu ser escritora?

Eu acho que não dá pra dizer que existiu transição, eu continuo leitora, a única coisa é que eu consegui menos tempo para ler. Comecei a me dedicar muito a escrever. Nos anos anteriores eu lia mais do que escrevia. De vez em quando eu ainda sinto a necessidade de ler.

Tu lês menos do que gostarias?

Sim, bem menos. Até consegui construir uma biblioteca particular, de uns 500 livros, só que eu olho para aqueles livros e chego a separar aqueles que eu quero ler primeiro e não consigo (risos).

Falaste da tendência intimista. É a principal característica da tua obra?

E eu também exploro fatos da realidade. Eu sempre procuro fazer pensar, colocar de uma forma crítica vozes de pessoas do povo, conversas que temos a todo momento e isso não aparece nos livros, geralmente. Então, através dos personagens eu vou dando vozes a essas expressões da realidade. Então assim eu vou resgatando um pouquinho da realidade deles.

Os teus personagens têm fundo real?

Têm. E em cima do fundo real eu procuro construir a ficção. Em cima do fundo real eu procuro construir a ficção. As vezes eu vejo alguma coisa acontecer e penso como seria se fosse de outra forma e penso no que veio antes. Assim, a inspiração é na realidade mas a criação é ficcional.

Escreves conto,  crônica, poesia.  O que é mais difícil?

Poesia. É sempre mais difícil. Inclusive eu tenho revisado os poemas que eu escrevi. Tenho mais de 600. E a literatura infantil também é um pedaço. Tenho uns 3 publicados, esse primeiro aqui, publicado em 2007 e foi o vencedor do concurso de literatura feito pela Prefeitura de Canoas em 1998.

Há quem diga que ela seja fácil de fazer, mas não é. É muito difícil. A tua experiência com crianças facilitou?

Eu acho que o fato de eu lidar muito com criança me ajuda, sim.

Acha que o escritor canoense é valorizado como deveria?

Acho que não e que há uma grande gama de escritores aqui que a maioria dos canoenses não conhece. Existe também aquela questão que o que é de casa não tem valor. Eu tenho participado desde 2006 da Feira do Livro e eu noto que a Casa do Poeta e a Fundação Cultural tinham banca e as pessoas em geral passavam adiante. Infelizmente, o canoense tem preconceito ao que é local. Isso faz com que autores canoenes não sejam conhecidos. Por outro lado, o AUTOR precisa ser um ativista cultural para ver um retorno de sua obra.

Achas que falta apoio da comunidade?

Sim, da comunidade.

Que conselhos tu darias pra quem está começando a escrever?

Muita leitura e estudo da teoria literária. Ela me ajudou a melhorar minha escrita.

Comparando a época em que eras aluna com a tua época atual achas que eles liam mais antigamente?

Eu lia mais por gosto, mas em geral existiam muitas tarefas, exigiam mais a leitura. Durante muito tempo os livros didáticos foram duramente criticados, tanto que eles foram considerados muito tempo como uma coisa perniciosa para a educação. Acho que isso contribuiu para afastar as pessoas da leitura. Se você for ver depoimentos de educadores verá que os professores eram considerados muito apegados ao livro, que o texto era da realidade de São Paulo e não daqui, que ele não retratava bem a realidade dos leitores daqui e então ele foi muito massacrado. E eu acho que isso levou à falta de leitura de muitos jovens.

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Discussão

2 comentários sobre “Entrevista: Nelci Inês Urnau, escritora-“A leitura sempre foi essencial para mim”

  1. Mesmo te conhecendo é muito interessante ler sobre tuas conquistas.
    Admiro muito tuas potencialidades.
    bjs

    Curtir

    Publicado por ERECI RIBEIRO | 26 de maio de 2011, 23:39
  2. Nelsi..fico feliz em saber que segues alimentando a paixao pelas letras…saudade dos nossos tempos de STJ…sucesso sempre

    Curtir

    Publicado por Meire V. F. Borges | 20 de junho de 2017, 22:08

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