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Paternalismo linguístico

O paternalismo é uma das características mais perniciosas e destrutivas da cultura brasileira. E não falo apenas do paternalismo estatal – aquele que dá presentinhos ocasionais ao cidadão enquanto lhe tira a chance de estudar, de ter um emprego decente, de ter, enfim, uma vida digna de ser vivida. Falo de todo e qualquer paternalismo.  Falo do patrão que nega direitos básicos à empregada doméstica mas, de vez em quando, até lhe dá um dinheirinho para comprar uma boneca de R$ 1,99 para a filha, dizendo-se, , por isso, homem de bom coração. Falo do marido que trai a esposa e envergonha a família, mas chega em casa e presenteia a esposa com um belo buquê e as crianças com novos brinquedos. E falo até mesmo do paternalismo do filho, do mau filho, que nunca visita a mãe, esquece-a, despreza-a e cobre-a de beijos no Dia das Mães para depois abandona-la novamente. Falo de muitos, de todos – de nós. É um sentimento que está firmemente incrustrado em nossa forma de viver e de ver o mundo e os nossos semelhantes. Faz parte do nosso ser. Todos o praticamos. Digo mais: gostamos secretamente dele até mesmo quando o atacamos em discursos públicos. E gostamos justamente porque somos assim.

De onde ele vem? Difícil dizer. O paternalismo é, em parte, fruto de uma sociedade desigual, onde o outro raramente está no mesmo patamar nosso e, quando está, frequentemente é um inimigo; e é, em parte, fruto de certos aspectos culturais que a prudência e o espaço não nos permitem aqui adentrar. Convive com o patrimonialismo, dando-lhe o substrato cultural que fundamenta e garante a sua permanência. O dirigismo estatal da economia, o passar a mão na cabecinha do eleitor, a leniência com o criminoso, o fechar os olhos para o corrupto, tudo isso corresponde perfeitamente ao dirigismo, ao passar a mão, à leniência e ao fechar os olhos que tantas vezes assistimos no plano privado. Os dois ajudam-se mutuamente, cada um atuando em sua própria esfera, prolongando indefinidamente a doença até o definhar e a morte do corpo. E não precisamos aqui dizer o que é o corpo. 

A saga do patrimonialismo em nossas terras já foi escrita: é Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, que fica maior e mais atual conforme o tempo passa. A do paternalismo ainda não tem autor nem obra, mas já tem um novo capítulo: é a recente querela acerca da distribuição pelo MEC do livro Por uma vida melhor.

Ao contrário do que o título sugere, não se trata de livro de auto-ajuda. É uma obra didática de língua portuguesa  e foi preparada para ser utilizada nas aulas de EJA (Educação de Jovens e Adultos). Não seria, em princípio, livro para chamar a atenção da opinião pública nacional. Isto, claro, não fosse o trecho que reproduzimos abaixo:

A reação foi a esperada: de um lado, os defensores da obra argumentaram que é preciso levar em consideração a variante popular do idioma, que os idiomas mudam, que a escola deve aproximar-se do aluno e os demais discursos de costume. De outro, pessoas como estas aqui. Pessoas como a doméstica Maria Erlaine Mendes, que diz: “Não tenho vergonha de ser corrigida. É obrigação do professor ensinar o certo”. Que é o que outros alunos, pobres como ela, dizem. Que é, basicamente, o mesmo que Evanildo Bechara diz. “Sempre se vai para a escola para se ascender a posição melhor. A própria palavra educar, que é formada pelo prefixo latino edu, quer dizer conduzir. O papel da educação é justamente tirar a pessoa do ambiente estreito em que vive para alcançar uma situação melhor na sociedade”.

Os defensores do livro contra-atacam. A Associação Brasileira de Linguistica, a ONG Ação Educativa e o próprio ministro Fernando Haddad  dizem que ele não ensina erros e que se limita, apenas, a registrar a importância da variação linguistica. E, claro, não se poderia deixar de fora o mentor intelectual da coisa toda: Marcos Bagno, professor da USP, que difundiu o termo “preconceito linguistico” através de sua obra Preconceito Linguistico – o que é, como se faz, bibliografia básica para calouros de qualquer faculdade de letras, afirma que não precisamos nos preocupar, pois a idéia de variação linguistica “Não é coisa de petista” (como se alguém tivesse afirmado tal coisa) e que ” Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana.”

Diante de tantas opiniões contrárias e favoráveis, de tanta discussão fundamentada ou não, de tanto bate-boca, é importante dar voz a quem elaborou o livro. Helena Ramos, uma das autoras, está irritada. Muito irritada. “Não somos irresponsáveis”, diz ela. ““Não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para uma situação”. E ela não pára aí: “Por que, em educação, todo mundo acha que conhece os assuntos e pode falar com propriedade?”.  Afinal de contas, segundo ela, “esse assunto é complexo, é para especialistas”.

É preciso que reconhecer que a sra. Helena Ramos tem muita razão no que diz. De fato, ao contrário do que seus críticos apontam, o livro não ensina a falar erradamente. Deixa, aliás, muito claro que a norma culta é importante para o aluno e deve ser ensinada nas escolas. Deste pecado o livro da sra. Ramos não pode ser acusado. E está corretíssima a sra. Ramos quando afirma que o assunto é complexo. E está correta também quanto diz que muitos dos que criticam o livro não o leram. Há muita gente que não leu o livro e opina sem conhecimento de causa. Há muita gente que leu o livro e opina sem conhecimento de causa. Como consequência, as discussões sobre o livro da Sra. Ramos foram e estão sendo mal conduzidas. Tudo isto é verdade.

O problema, o grande problema, é que nenhuma discussão foi tão mal conduzida quanto a que a sra. Ramos propôs em seu livro. À página 12  está escrito que “as classes sociais menos escolarizadas usam uma variante da língua diferente da usada pelas classes sociais que têm mais escolarização. Por uma questão de prestígio – vale lembrar que a língua é um instrumento de poder –, essa segunda variante é chamada de variedade culta ou norma culta, enquanto a primeira é denominada variedade popular ou norma popular”. Vai além: “muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever.”A sra. Heloísa Ramos é linguista e professora do idioma. Está, portanto, mais do que qualificada para saber que afirmações como “a língua é um instrumento de poder” automaticamente abrem o espaço para uma longa discussão sobre política de língua, que inclui até mesmo a veracidade e a aplicabilidade da idéia de que a língua é ou não um instrumento de poder. Se queremos colocar este tipo de discussão para o aluno, então que se entre nela como se deve entrar – com o propósito de ir a fundo. Qualquer coisa diferente disso é simplificar um “assunto complexo, para especialistas”. Tais simplificações constituem atitude típica de discursos políticos: vulgariza-se um conceito complicado, dá-se o tom desejado e pronto. Tem-se uma defesa de uma causa, de uma ideologia, de um partido.

O conceito de “preconceito lingüístico”, questões de política de língua, “norma culta versus variante popular” e outros assuntos são temas que um estudante de Letras é obrigado a enfrentar logo no primeiro semestre de curso. Lê-se Bagno ao lado de muitos outros autores, contra ou a favor dele. Discute-se muito em aula, às vezes acaloradamente,  sobre o que ele diz. Coteja-se seu conteúdo com o de outros: lê-se Houaiss, Luft e muitos mais. Esta discussão, que toma um bom tempo da vida acadêmica do estudante, a sra. Ramos simplifica em duas ou três frases e joga na cara de alunos de meia-idade como verdade absoluta. E um dos perigos da simplificação está aqui: “Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas”. Não é “muita gente” que diz “o que se deve e o que não se deve falar e escrever“: é toda a gente. É o Estado brasileiro, nos concursos; são as empresas, ao admitirem os empregados; é a própria professora, nas provas. São as próprias pessoas que falam com erros (ou “inadequações”, como prefere a professora – outro termo que exigiria uma discussão que não ocorre) que o reconhecem.

A questão da diglossia* é um tema sempre candente para quem estuda linguistica no Brasil. Ela existe, assim como existe em muitos outros países. Mas é objeto de profundo e acalorado debate. Algo deste debate pode ser levado para a sala de aula, para alunos de ensino médio, talvez mesmo de ensino fundamental? Pode. Mas com a condição de ser apropriadamente discutida. Em Uma vida melhor ela sequer é discutida. E pior: com toda a simplificação conceitual, com toda a ligeireza no trato de assuntos nada simples, o que se vê é o surgimento de um abismo entre a norma culta e o uso popular como se fossem duas coisas completamente distintas, sem qualquer comunicação entre si . Ocorre, assim, um engessamento da variante popular da língua e da sua relação com a variante culta ,  como se não houvesse convivência, aproximação e influência mútua entre eles. Isto é um breve resumo do que se deveria propor para debate caso se quisesse entrar nestas questões a sério. E nada disto é, nem de perto nem de longe, colocado no texto. 

E pergunta a sra. Helena: “Por que, em educação, todo mundo acha que conhece os assuntos e pode falar com propriedade?”. Pelo mesmo motivo que as pessoas falam sobre saúde, economia, política – porque lhes afeta. Assim é que funciona numa democracia. A sra. Heloísa não quer que haja discussão? Que não inicie uma discussão como fez no trecho de seu livro. E pior: inicia a discussão para abafá-la logo em seguida. Diz o que quer e, quando surge a interrogação na cabeça de todos,  encerra o debate e vai em frente. Eis aí, mais uma vez,  nosso paternalismo desenhado em cores vivas: para a elite iluminada dos educadores, o assunto discutido “com propriedade”.  Para o resto – os alunos – a simplificação conceitual transformada em discurso rasteiro.

A sra. Ramos se defende: “não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para uma situação. Por exemplo, na hora de estar com os colegas, o estudante fala como prefere, mas quando vai fazer uma apresentação, ele precisa falar com mais formalidade”. A justificativa é simplesmente falsa. Falsa porque é completamente desnecessária. Não é preciso dizer ao aluno que ele pode usar, em determinados contextos, a variante popular, o “falar-como-prefere”. Isso todos sabem: é uma característica de todos os idiomas e todo falante nativo tem consciência disto. Da mesma forma, o aluno está perfeitamente ciente de que há variantes mais prestigiadas que outras. Ele não precisa que alguém lhe diga: “fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. Ele não precisa que lhe digam o que fazer e como se deve sentir. Ele não precisa, enfim de mais paternalismo. 

Diante deste festival de equívocos permeado pelo nosso velho e conhecido problema nacional, a declaração da doméstica – “Não tenho vergonha de ser corrigida. É obrigação do professor ensinar o certo” –  soa como uma esperança. Uma esperança de que o Brasil tem, sim, condições de pôr um fim nesta chaga que nos corrói. Que a esperança venha de onde vem – isto é, do povo – não nos deve surpreender. Aqueles que mais conhecem os resultados da chaga do paternalismo sabem bem que ele precisa , e com urgência,  ser extirpado de nosso país.

*Diglossia: fenômeno linguistico em que dois dialetos ou línguas são usados pela mesma comunidade linguistica.

Discussão

2 comentários sobre “Paternalismo linguístico

  1. Oi, Celso! Achei super pertinente tua discussão e acho que tu foste em cheio ao problema, mesmo. Eu apenas discordaria da parte final, onde tu afirmas que “o aluno está perfeitamente ciente de que há variantes mais prestigiadas que outras”. Nos meus últimos anos de magistério, sinceramente, tive de trabalhar profundamente com esse conceito. Os alunos adolescentes não tinahm a noção de que tinham de modalizar seus discursos (!!!!) e isso me chocava. Além disso, uma coisa que me choca, também, é que ninguém atenta para o fato de que pessoas com prestígio social utilizam, muitas vezes, uma linguagem sem prestígio, ou seja, a posição social às vezes determina a aceitação da variedade linguística, não sua adequação. Parabéns pelo texto! Adorei!

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    Publicado por Nina Antonioli | 23 de maio de 2011, 01:50
  2. O Portal do MEC acrescentou opiniões de linguistas e estudiosos da linguagem sobre o referido livro. Legal dar uma olhada.
    http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=16649

    Curtir

    Publicado por Nina Antonioli | 23 de maio de 2011, 20:28

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