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Entrevistas

Entrevista: Roberto Tietz, professor e técnico de vôlei

Sou e sempre serei um lassalista

Há muitas maneiras de caracterizar o trabalho e a pessoa de Roberto Tietz. Podemos falar de sua carreira exitosa como técnico da Ulbra , do Pinheiros (SP) e, atualmente, do Pallavollo Lugano, da Suiça, de seus 25 anos como professor e treinador de equipes escolares, de seus novos projetos na área de educação infantil e de muitas outras coisas. Eu prefiro defini-lo com uma palavra: como um amador. E não como qualquer amador. Falamos aqui de um amador que, não contente com o lugar periférico destinado aos amadores, adentra o sagrado espaço ocupado pelos profissionais e ainda a tem a petulância de reclamar que este sagrado espaço está, vejam só, demasiadamente profissional. Uma conduta assim é um prato cheio para ser ridicularizada. É fácil escarnecer de um amador. O problema é quando o amador é querido e admirado pelos alunos, escrupulosamente cuidadoso e meticuloso em seu trabalho e, assim, muito bem sucedido no que faz. O problema torna-se pior quando o amador, sendo amador, ajudou a construir muito do ambiente que hoje os profissionais habitam. E o problema torna-se ainda mais difícil de resolver quando o amador prova factualmente que ser amador é melhor do que ser profissional. O que fazemos com um amador desses? Talvez o melhor seja, em vez de chamá-lo de amador – termo que a percepção menos treinada pode levar a interpretações equivocadas – qualifica-lo de outra forma. Façamos isso, então. E eu, na condição de amigo e ex-aluno de Tietz, vou defini-lo, mais uma vez, com uma palavra: como um verdadeiro e vocacionado educador.

És natural de Canoas?

RT: Nasci em Porto Alegre, em 1966, mas desde que nasci moro em Canoas. Tive alguns hiatos sem morar aqui e isso foi bom para construir um sentimento de cidadania , uma noção do que temos de bom e do que não é tão bom. Eu, quando era pequeno, durante 4 anos morei em Caçapava do Sul. Anos depois morei em Santos e São Paulo. Aí, quando saí da Ulbra, que me proporcionou conhecer todo o país, fui morar em São Paulo para trabalhar no Pinheiros, o maior clube social do país. Mas a base continuou sempre aqui. Nunca deixei de ter minhas coisas aqui. Cheguei a ter um semestre em que eu voltava de São Paulo toda segunda para dar aula em Canoas, no Unilasalle.

 Quando começou a tua relação com o La Salle?

RT: Depois de me formar no La Salle, no segundo grau, fui ser professor ali. Estou há 25 anos no La Salle, completados neste ano. 25 anos sem interrupções. Entrei em 1987, ainda era estudante de educação física, e criei minha história como professor, cordenador de educação física, coordenador da escola, até quando o reitor me pediu que eu ajudasse na construção do curso de educação física. Fui o primeiro coordenador do curso. De lá sai do colégio e passei a ser somente professor da universidade. Trabalhei também no Maria Auxiliadora, dei cinco anos de aula lá. Entrei na Ulbra e me obriguei a sair do Auxiliadora, mas não quis, de maneira nenhuma, sair do La salle. Foi uma exigência que, inclusive, fiz ao pessoal da Ulbra na época.

 Fala um pouco dessa tua relação com o La Salle.

RT: Eu acho que o La salle faz parte da história de Canoas e do canoense. Mesmo quem não foi aluno. Porque o La Salle tinha uma relação muito estreita com a cidade, hoje, não tenha a certeza de que ela seja tão estreita, até porque a cidade cresceu. Mas se tu pegares a própria expansão do centro de Canoas, por exemplo, vais ver que muito disso passou pela relação com o La Salle. As ruas do centro, boa parte delas passava pelo terreno dos irmãos lassalistas, a XV de Janeiro passou por dentro do La salle, enfim, eu acho a nossa geração – a minha e depois a tua – ainda trouxe esse vinculo com o La salle. E eu sinto esse vínculo de maneira muito forte. Tanto que, hoje, eu vejo que o La salle é muito profissional e isso me incomoda como lassalista – e eu sou e sempre serei um lassalista– porque acho que certas coisas estão se perdendo.

Como assim?

RT: Lembro da quadra que ajudei a pintar, das idéias que eu dei, de como as coisas eram e mudaram…..essa história não pode ser desprezada. Hoje, muito da educação superior está ligada às leis do MEC, que exige, entre outras coisas, que é preciso ter doutorado. O que vale é o numero de doutores. Quando começamos o curso de Educação Física, eu deixei claro que gostaria de indicar alguns professores que seguem os valores e estão ligados às raízes da instituição. Lembrei que aqui funciona um colégio, que está fundado sob as bases de São João Batista de La Salle, o padroeiro dos professores, e que isso deve estar sempre presente como filosofia da instituição. Por exemplo: para mim, era importante que um professor universitário fizesse a reflexão com os alunos no começo das aulas, como La Salle fazia. Isso para o MEC não tem valor, mas, para mim, é o que constrói um verdadeiro professor. Isso é o tipo de coisa que não se vê mais. Eu vejo às vezes professores universitários que nunca deram aula na vida! É normal vermos doutores que saem da graduação, que têm tese, livros publicados e viram assim professores. Para esses eu pergunto: como é que eu resolvo quando um aluno briga com o outro? E o que eu gostaria de fazer é que ele saísse como tu, um lassalista, uma pessoa que recebeu os ensinamentos de La Salle. Eu queria (e ainda quero) que um professor de Educação Física do La salle fosse um professor diferenciado, com essas raízes. Não sei se a gente consegue isso ou não, mas é o que eu procuro sempre passar para os alunos. Logo na minha primeira aula eu ponho um pensamento na lousa. E eu nunca falo do meu currículo, ainda que muitos dos meus alunos saibam que sou técnico profissional. O currículo que eu trago para a sala de aula é o de duas décadas como professor, não os cursos que eu tive aí fora ou porque fui campeão brasileiro. O que me faz ser , na minha avaliação, digno daquele momento, é a minha história dentro do La salle como professor.

 Às vezes, as exigências de doutorado e mestrado acabam alçando à condição de acadêmico pessoas que talvez não devessem ter optado por esse caminho e, ao mesmo tempo, barrando genuínas vocações de professores.

RT: Exato. E isso, infelizmente, acontece e muito nas licenciaturas. Mas na minha área eu posso dizer que é importante ter experiência. O aluno me diz “professor, estou no estágio, tenho essa dificuldade” e eu vejo que essas dificuldades eu já passei como professor , como aluno, como estagiário, então eu posso solucionar. Dentro da universidade sou muito mais ligado ao aluno, ao estagiário e ao professor do que à pesquisa. A pesquisa hoje eu faço com os profissionais. Na área da preparação física eu tenho um profissional da preparação física, e eu trabalho junto com ele.

Equipe de vôlei do La Salle de 1999 durante o torneio CECA, treinada por Roberto Tietz.

 Nunca me esqueço de uma frase do Larri Passos (treinador do Gustavo Kuerten) dizendo que o esporte de alto rendimento não é saúde, e sim desempenho. Concordas?

RT: Concordo. A dor e o desconforto são lei dentro do esporte profissional. Não é que não seja saúde, ele é contrário à saúde. O jogador convive com a dor, quando terminar a carreira terá dores e ele tem que ter noção disso e ser valorizado por isso. Mas, e alguém pode perguntar: porque se justifica o esporte profissional? Primeiro, porque o esporte é uma empresa. Há o patrocínio, há o COI, a FIFA, grande parte do patrocínio mundial está ligado ao esporte. Assim, o esporte gera emprego. Dizer “eu sou contra o esporte” é dizer “eu sou contra o Google, a Gerdau”. Vamos querer tirar essas coisas do planeta? Não, não é? Tomemos, então, o exemplo da Fórmula 1. Muito do que eu falei que é feito lá, como esporte de ponta, anos depois vai cair no teu automóvel. Nesse sentido, o esporte de alto nível se justifica também pela saúde. Muito da saúde está ligado à experiência no esporte. Os próprios planos de saúde estão muito ligados ao esporte por prevenção. A maratona, por exemplo, gera muitas informações para quem quer correr por lazer. Enfim, quando tu fazes um esporte de lazer ele está ligado indiretamente ao esporte de ponta. Mas o esporte de ponta, em essência, não é saúde.

 Técnicos como o Bernardinho, da seleção brasileira, com um estilo muito expansivo, costumam ser assim também fora da quadra?

RT: Só dentro da quadra. Fora dela o Bernardinho é uma criança. É um cara com palestra ótima e eu tenho muito do jeito dele. Na beira da quadra eu passo por um cara nervoso. Como exercício, eu te digo, muito é teatro. Na Suíça, eles são muito mais calmos. Lembro que nos primeiros jogos o meu assistente técnico, que é croata, disse assim “calma, Roberto, calma”, porque ele achava que eu estava nervoso (risos). Mas isso é importante para o time , para o jogador, pois assim eles sabem que alguém está ali junto com eles, brigando junto com eles. Isso são técnicas. Eu treinei a equipe do CSSGAPA máster por décadas, dava treino e uma das coisas que eu sempre me lembro é que diziam “tu briga, briga com a gente e termina o jogo a gente vai tomar uma cerveja”. Eu não brigo com a pessoa, brigo com o atleta naquele momento. O Bernardinho, por exemplo, tem o grupo na mão, como amigos. Ele tem o respeito dos atletas. Para mim, é o melhor treinador do mundo.

 Como se deu a tua ida para a Suiça?

RT: O Pallavolo Lugano me chamou porque eles queriam sair da condição de uma equipe intermediaria para equipe de ponta, então era interessante para eles que tivessem um técnico com formação gerencial, como é o meu caso. O trabalho vem sendo muito satisfatório. Terminamos o campeonato em quinto lugar empatados com outros três times, ou seja, terminamos, na verdade, na terceira colocação. Isso nunca havia acontecido na historia do Lugano. Foi tão satisfatório que abri portas lá. Fiquei sabendo essa semana que o técnico do time que tinha sido campeão suíço no ano retrasado será o Carlos Schwanke , que foi meu jogador, e isso me deixou muito contente, pois sabemos que técnicos fecham e abrem mercado. Assim como há países em que não entram técnicos brasileiros porque alguns profissionais nossos fecharam o mercado.

 Como foi a, digamos assim, “transição”  para o mundo Suíço?

RT: Eu sempre digo que em dez anos vou ser prefeito de Canoas e aí vou aplicar algumas coisas simples que gente vê lá e que dão resultado e não sei por que não são feitas (risos). Eu queria que pagassem uma passagem para os políticos brasileiros fazerem um estágio lá e verem como são feitas as coisas. Primeiro, eu estou numa parte da Suíça que é o sonho de todo italiano e o sonho de final de carreira de todo suíço. A Suíça italiana é a Itália que deu certo. É muito mais rica que organizada que a Itália, tanto que a quantidade de italianos trabalhando lá é muito grande. E a Suíça do norte é muito mais rica e organizada do que a parte onde estou , mas quando alguém se aposenta quer ir pra lá, pois é mais tranqüilo e quente, é a chamada Suíça Tropical. Eles dizem que Lugano é o Rio de Janeiro da Suíça e tem até um morro que lembra o Pão de Açúcar. Agora está fazendo 30 graus, o que é difícil no norte da Suíça. Em Lugano, o verão é de 25 a 35 graus, como o nosso, e como tem a região de lagos há muitos esportes de verão. É uma praia sem mar. E com uma qualidade de vida excepcional.

 A receptividade das pessoas à tua presença foi boa? Houve algum choque cultural?

RT: O que houve de choque cultural foi essa coisa latina que eu tenho como técnico, porque esse meu estilo mais “passional” assustou um pouco os suíços (risos). Tem cidades em que a torcida somente bate palmas, ficam calmos o jogo todo. Certa vez, fui jogar no interior da Suíça com um time muito pequeno e, enquanto o técnico do time pequeno ficava sentado no banco e falava com o time nos pedidos de tempo, eu, com o meu time, berrava todos os palavrões em português (em italiano não podia dizer) durante o jogo e a torcida olhava um pouco para a bola e um pouco para mim. Quem fazia o maior barulho em quadra era eu. (risos).

 Como o vôlei brasileiro é visto no exterior?

RT: Como o melhor do mundo. Nós somos muito admirados e conhecem muito bem os nossos jogadores. Temos uma filosofia de trabalho muito respeitada. Aqui no Brasil se treina mais, se treina quase à exaustão , no limite do jogador físico e psicológico. A Itália treina um pouco menos, a Suíça muito menos em termos de horas-treino. Essa coisa de ir atrás de jogo, estatística, os grandes centros fazem como nós mas fazem diferente, usam a estatística mas fazem diferente. Acho que temos um pouco mais expertise para analisar essas informações.

 Qual o nível atual da nossa liga em comparação com a dos outros países?

RT: Olha, é das melhores. Está entre as mais competitivas, porque muitos jogadores brasileiros voltaram. Estão querendo trazer estrangeiros, inclusive, como aconteceu no inicio da superliga.

 Como avalias, como um balanço geral, a tua experiência na Suíça?

RT: Eu tive muito prazer em vivenciar algo que é muito bom e, no entanto, possível de se realizar. Acho que existem muitas coisas pequenas que podemos fazer, a gente fala muito da educação e faz muito pouco. E acho que também temos que aprender com o vôlei, coisas novas em termos de trabalho, de maneira de trabalhar. Mas a nossa casa é sempre a melhor , o melhor pais do mundo é o Brasil, mas tem lições simples de cidadania e respeito que poderíamos tirar deles.

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2 comentários sobre “Entrevista: Roberto Tietz, professor e técnico de vôlei

  1. eu quero saber o que vc acha sobre o volei por favor reponda o mais rapido possivel eu inplorro bjss manu de porto ferreira….

    Curtir

    Publicado por MANU*** | 27 de junho de 2011, 18:13
  2. Bah, que satisfação ler uma entrevista de uma pessoa que considero um mestre e feita por um amigo de tanto tempo. Parabéns aos dois, Celso e Tietz.
    Grande abraço!

    Curtir

    Publicado por Márcio Maciel | 27 de junho de 2011, 22:40

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