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Entrevista: Cristian Verardi, cineasta

Entrevista: Cristian Verardi, ator e diretor de cinema


“Lidar com o medo é também uma forma de se sentir vivo”

Por Celso Augusto Uequed Pitol

A lembrança mais remota que Cristian Verardi tem de sua infância é a de estar no colo de sua mãe dentro de um cinema. A informação é elucidativa. E é elucidativa não pela simples ocorrência do fato (que é comum a muitas pessoas) mas sim por este fato ter permanecido intocado em sua memória entre tantas lembranças da mesma época que ficaram para trás. Não é de se estranhar, portanto, que ele tenha escolhido trabalhar com cinema.  O resultado se pode ver, hoje, em sua carreira como diretor e ator de um gênero de cinema que, curiosamente, não pode ser assistido por crianças: o de terror. Diretor de “Águas raivosas”, “Soul Crusher”, “Colt Romero”, “Sessão das Oito”, “Meu nome é Alec” e ator de “Ninguém deve morrer”, do lendário Peter Baiestorf, e do recém-lançado “A noite do chupacabras”, de Rodrigo Aragão, Verardi participará como assistente de direção da equipe de “Nove e meia”, de Felipe Ferreira,  a ser filmado a partir de outubro.

 Sendo natural do interior , não posso deixar de perguntar: o que te motivou a vir para a Capital?

Cristian Verardi: Melhores oportunidades de estudo e trabalho. Nasci em Encantado, em 1975, e passei infância e adolescência entre Guaporé e Roca Sales. Eu queria me dedicar mais ao cinema, algo impossível no interior, ao menos naquela época. No entanto,  acabei também me direcionando para outra de minhas paixões, a literatura. Então ingressei no curso de Letras da UFRGS.  Mas sempre foi meu projeto trabalhar com cinema.

 Desde a época em que morava no interior?

CV: A lembrança mais remota que tenho de minha infância é a de estar no colo de minha mãe dentro de um cinema. Durante boa parte dos anos 80 frequentei o Cine Marabá, em Encantado, que pertencia a um amigo da família. O cinema tornou-se gradualmente um elemento passional. Acho que esse contato com o cinema, que para uma criança sempre é algo mágico e, em mim, deflagrou a vontade de estar na tela, e não apenas em frente dela.

 Esse foi o primeiro contato. Como foi o desenrolar dessa relação, digamos assim? Durante a adolescência, por exemplo?

CV: Durante a adolescência os cinemas de calçada do interior já estavam em extinção. Os cinemas estavam se transformando em bingos e igrejas evangélicas. Em Roca Sales não havia mais cinema, eu realizava verdadeiras epopéias para assistir um filme na tela grande, pegando ônibus para a capital ou alguma cidade mais próxima, como Lajeado. Mas a verdadeira formação cinéfila se deu através da TV, varando madrugadas nos “corujões da vida”, ou garimpando em locadoras. A adolescência foi uma época de amadurecimento desta paixão. Hoje, com a facilidade do download, acho que os jovens não conseguem depurar a quantidade de informação que recebem, tudo parece ter ficado mais descartável.

 

 Pegava ônibus para ir ao cinema em Porto Alegre? Só para ir ao cinema?

CV: Lembro que em 1994, vim para Porto Alegre e fui direto para os cinemas da Casa de Cultura só para ver “Rosas Selvagens” e após o filme entrei em outra sessão, onde vi “O Casamento de Muriel”. Aliás, “O Casamento de Muriel” foi uma das experiências mais inusitadas que já tive em um cinema, com as pessoas se erguendo das poltronas para dançar e cantar junto com a personagem, algo catártico. O tipo de efeito que revela o poder de uma sala de cinema, o valor da experiência coletiva.

 

Como se deu a atração pelo cinema de horror?

CV: Meu primeiro contato com o gênero ocorreu ainda infância. Antes mesmo de saber ler eu folheava escondido as HQs de horror do meu pai. Em vez de Turma da Mônica eu gostava de Spektro, Kripta e Calafrio. Essas revistas fizeram parte da minha infância. Os filmes da produtora inglesa Hammer também foram essenciais na formação do meu gosto pelo fantástico. Na madrugada, quando meus pais dormiam, eu ligava a televisão para ver filmes como “O Vampiro da Noite” ou “Os Ritos Satânicos de Drácula”. Algum tempo atrás achei uma fita K7 que eu gravei quando tinha uns 6 anos de idade, onde narro histórias com monstros e coisas do gênero. Então este universo sempre me pareceu perfeitamente normal.

 

OT: Em que canal passavam estes filmes?

CV:  No começo dos anos 80 a rede Globo exibia uma sessão chamada “A Casa do Terror”, onde exibiam basicamente filmes da Hammer. Sem se dar conta eles fomentaram uma futura geração de fãs de horror.

 

 E como diretor de cinema? O primeiro filme que fizeste – amadoristicamente ou não – foi nesse gênero?

CV: Sim, nos anos 90 minha irmã adquiriu uma filmadora, que eu raptei para minhas aventuras cinematográficas (risos). Após algumas desventuras, o primeiro que eu consegui finalizar ser chamava “Soul Crusher 2- O Retorno do Homem Coisa”. Já começei pela seqüência pois não queria dar muita explicação (risos). Já veio com uma mitologia pronta, só que ela está toda no primeiro, que eu não fiz (risos). Basicamente é sobre uma criatura enviada por um demônio para resgatar um livro roubado do inferno.  Os bibliotecários do inferno são vingativos com livros não devolvidos (risos)

 

Em que ano foi realizado e com qual filmadora?

CV: Esse foi realizado em 1998. Era uma filmadora Sony CCd, hoje obsoleta, não lembro o modelo. Eu editava utilizando 2 videocassetes. Lembro que fiz o filme em preto e branco porque a filmadora era importada e o sistema de cores não era compatível.

 

Como é que o editava?

CV:  Eu filmava o roteiro de forma cronológica, editava os cortes na própria câmera, depois passava tudo para uma fita VHS e, como não tinha ilha de edição, utilizava dois vídeos para montar as cenas. Uma trabalheira impensável para quem hoje utiliza as facilidades do Final Cut.

 

 Esse filme chegou a ser exibido?

CV: Por incrível que pareça e por pior que ele seja, sim. Uma amiga era dona de uma locadora, e colocou o filme para locação, em poucas semanas era uma das fitas mais locadas (risos).

 

 A aceitação inesperada foi um estímulo?

CV:  Com certeza foi um estímulo, mas ao mesmo tempo gerou reflexões sobre minhas limitações.

 

A partir daquele filme começaste a fazer em série ou levou algum tempo até recomeçar a filmar?

 

 Eu escrevia muito, mas não conseguia pôr os projetos em prática. Em seguida iniciei um filme de vampiros que jamais terminei, era mais pretensioso, a começar pelo nome, “Gottverlassen”. Comecei a me frustrar pela falta de estrutura e de orçamento. Sem falar que obviamente eu tinha a fama de louco na cidade (risos). Claro que ninguém faz um filme de 30 reais esperando ganhar um Oscar. Mas era a vontade de fazer algo menos precário. Só que eu continuo precário até hoje (risos)

 

 Precário em que sentido?

CV: Creio na possibilidade de se realizar excelentes filmes com baixo orçamento, e hoje com o advento do digital isso é ainda mais plausível. Naquela época era mais complicado, às vezes queria fazer um efeito mais elaborado, uma luz esteticamente mais interessante, e a falta de grana tornava isso tudo mais difícil. Então me dei conta que as vezes é melhor assumir a precariedade, isso é mais verdadeiro.

 

 No caso do cinema de horror, especificamente, não acha que a “precariedade” pode servir também como aparato estético?

CV: Creio nisso. Gosto por exemplo da estética suja dos filmes dos anos 70, como “O Massacre da Serra Elétrica”. A fotografia granulada do filme se deve ao fato de ter sido filmado em 16 mm, com poucos recursos de iluminação, e depois convertido para 35 mm. E isso gerou uma textura suja, que combina perfeitamente com a crueza da trama. É o tipo de situação em que a falta de recurso se transforma, mesmo que involuntariamente, em estética.

 

Qual câmera tu usas, falando nisso?

CV: Nos dois últimos trabalhos que dirigi, usei uma Sony HVR, mas nos projetos recentes que participei, como ator ou na produção, pude perceber mais uma mudança no formato, hoje existe uma preferência pelas máquinas fotográficas, como a Canon 5D. Uma tecnologia bem distante das ultrapassadas mini dvs.

 

 Tua formação foi em Letras. Tens inspirações vindas da literatura pros teus filmes?

CV: A literatura fantástica me influenciou muito. “Soul Crusher” tinha muito de Lovecraft. Tenho a pretensão (pseudo-cineastas vivem de pretensões), de um dia filmar o livro de contos do Carlos Carvalho, “Calendário do Medo”. E meu próximo trabalho, como assistente de direção, é um baseado num conto do Rubem Fonseca, “Nove e Meia” . As filmagens começam em outubro, com direção do Filipe Ferreira e roteiro de Ednei Pedroso.

 Queria que tu falasses um pouco do fascínio que o cinema de horror desperta em seus adeptos. É uma busca de sentimentos primários, ancestrais, ou o quê?

CV: Algo que costumo dizer é que o cinema fantástico gera fascínio pela possibilidade do espectador lidar de uma forma saudável com o sentimento do medo, com o inexplicável. Através do gênero horror é possível vivenciar o efeito catártico do medo, experimentar sensações reprimidas e situações limites sabendo que está protegido, pois o perigo se encontra do outro lado da tela. Lidar com o medo é também uma forma de se sentir vivo.

 

 Quais os cinco maiores filmes e os cinco maiores diretores de horror, na tua opinião.

Toda lista é subjetiva e injusta, sendo assim, acho complicado afirmar quais são os melhores pois cada obra nos toca de maneira diferente. Citarei cinco dos meus filmes prediletos.

Os Inocentes , de Jack Clayton ; Zombie, o Despertar dos Mortos , de George Romero; O Enigma do Outro Mundo, de John Carpenter; A Morte do Demônio , de Sam Raimi; Terror nas Trevas , de Lucio Fulci.

Quanto aos cinco diretores mais influentes de cinema de horror, para mim são: Dario Argento, George Romero, Mario Bava, Lucio Fulci e John Carpenter.

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Discussão

2 comentários sobre “Entrevista: Cristian Verardi, cineasta

  1. muito boa entrevista! me admira tua perseverança e capacidade única. tens uma inteligencia explícita,e com certeza irás muito longe. és um homem sem barreiras,sem fronteiras e com muito conteúdo. só existe uma certeza para ti,MUITO SUCESSO!!!! PARABENS!

    Curtir

    Publicado por Marta | 22 de março de 2012, 11:34
  2. Muito massa tua entrevista Cris!!! A história do teu filme na locadora da tua amiga é linda! dá outro filme. 🙂

    Ps: porque que o John Carpenter tá em último?? ¬¬

    Tá bom, tá bom, é que a lista só tem fera mesmo. Romero ❤

    hahaha! Beijo! Grande Cris!

    Curtir

    Publicado por daniela távora | 27 de março de 2012, 13:52

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