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Entrevistas, Geral

“Nós, gaúchos, ainda temos muito o que construir no que diz respeito à tradição.”

A entrevista que segue talvez traga alguma surpresa até mesmo àqueles pertencem ao feliz círculo de amigos de Carmo Francisco de Souza. Dentre os vários assuntos nela abordados, está a informação de que um dos maiores nomes do meio tradicionalista desta cidade, presidente da Associação de Entidades Tradicionalistas de Canoas,(ETC) ativo colaborador do MTG, músico e vencedor de mais de 250 troféus, foi, até a entrada na idade adulta, qualquer coisa menos um tradicionalista. Se algum de nós vasculhar os LPs mais antigos de Carmo provavelmente encontrará não discos de música gauchesca, mas sim do melhor rock´n roll dos anos 60 – Beatles, Rolling Stones, Roberto & Erasmo; da mesma forma, se vasculhar as fotos antigas não encontrará um pequeno Carmo pilchado, ou um jovem se preparando para tocar acordeão numa festa típica: encontrará, muito provavelmente, um típico magro cabeludo, com calça boca-de-sino e uma guitarra – elétrica – na mão. Sim, senhores: o jovem Carmo Francisco de Souza estava muito mais para Mick Jagger do que para Teixeirinha. O que não lhe tira nada, apenas lhe acrescenta. E valoriza ainda mais o seu trabalho e a sua atuação, como são mais valorosos aqueles que fazem parte de algo não por atavismo, mas por opção consciente.

Nesta entrevista, este leopoldense nascido em 1950 – “dia 13 de maio, da abolição da escravatura”, faz questão de lembrar – e morador de Canoas há 38 anos, nos conta como se deu essa transformação curiosíssima e, é forçoso dizer, extremamente benéfica para o futuro do tradicionalismo gaúcho em Canoas. Não que o roqueiro Carmo fosse mau. A questão é que, para ser tão bom quanto o Carmo tradicionalista, teria de alcançar o patamar daqueles seus ídolos de juventude. Ttambém nos dá uma verdadeira aula sobre a formação do RS, a importância do tradicionalismo e as peculiaridades que fazem do gaúcho um tipo histórico e cultural único dentre os pertencentes ao Brasil e ao resto das Américas.


*          *          *          *

O senhor é natural de São Leopoldo. Qual impressão teve de Canoas quando aqui chegou?

Carmo Francisco de Souza: Cheguei em 1972 e a cidade era bem diferente da de hoje. Era muito mais calma. Era vista como uma cidade-dormitório. Ainda havia muitas estâncias aqui, tamos de leite, tinha uma área rural e aos poucos essas áreas foram sendo urbanizadas, loteadas. Tudo isso culminou com o que temos hoje, praticamente uma extensão da metrópole, com quase 400 mil habitantes.

Antes de vir para cá já era interessado pela cultura gaúcha?

CFS: Muito boa pergunta. Esse interesse pela tradição foi despertado em Canoas. Antes não tinha esse interesse. Fui musico profissional dos 17 aos 22 anos, primeiro de igreja e depois roqueiro. Tocava Beatles, Rolling Stones, Roberto e Erasmo, a Jovem Guarda, enfim. Ao chegar a Canoas, influenciado pela minha esposa, eu comecei a me interessar pela cultura gaúcha, pois ela tinha uma ligação com o tradicionalismo. Tanto é que casamos no CTG Brazão Do Rio Grande. Comecei a participar ali. Posteriormente fundei o CCN ( Centro de Cultura Nativista) Nova Raça. Nessa época fundamos também o CTG Cheiro da Terra. Só que aí nós tivemos uma divergência no CCN Nova Raça e fomos para a Sociedade Cultural Beneficente Estância Velha, a sociedade mais antiga de Canoas, fundada em 1953, se não me falha a memória. Ali fundamos o DTG Estância Gaúcha em 1994 (DTG é um Departamento de Tradições Gauchas, porque é dentro de uma sociedade). Naquela época saímos da Sociedade Estância Velha e fundamos o CTG Estância Gaucha, que é o CTG do meu coração. Como sou presidente da ETC, eu cuido de 43 entidades hoje, mas, nessa seqüência da fundação do Estância Gaucha, eu fui vice-coordenador regional dos municípios de São Leopoldo, Sapucaia Esteio Canoas e Nova Santa Rita. No ano seguinte, o então coordenador, João Carlos de Moura, me preparou para que eu assumisse em 1995, em Dom Pedrito, como coordenador regional. Nos dois anos seguintes eu fui presidente da junta fiscal do MTG. Quando eu saí da 12ª. região eu já virei conselheiro e essa função vigora sempre, os ex-coordenadores se tornam conselheiros.

Qual é a função do conselheiro?

CFS: É quando o coordenador regional tem um problema que ele, sozinho, não pode resolver ele convoca o conselho. Nesse período eu continuei praticando a minha tradição. Eu toco violão , sou interprete vocal. Tenho músicas em casa. Nesse período nosso filho Solano dançava muita chula, e nós inclusive participávamos de muitos rodeios, tanto o rodeio artístico quanto campeiro, sempre representando uma entidade daqui de Canoas nos nossos rodeios. Essa atividade durou aproximadamente em torno de 8 anos. Nós, o e o Solano a Vanessa e eu, conquistamos 250 troféus. Esses troféus foram doados para o CTG estância gaucha.

O nome Solano foi dado em homenagem a Solano Lopez (ditador paraguaio)?

CFS: Sim, eu pensei nele. Solano era um grande campeiro, comprei uma égua crioula para ele. E ele foi preparado pelo Toninho Campeiro, conhecido também como Toninho Cabeludo. É uma pessoa a quem eu devo muito e que nos, a nossa família, aprendemos muito na área campeira, a Dina, esposa dele. Depois disso, o que aconteceu? Eu tive um período complicado e de doença e sempre envolvido com a tradição, mas nunca abandonei. A gente às vezes dá um tempo, mas nunca perde o fio. Então eu fui convidado para concorrer a presidente da Associação Entidades Tradicionalistas de Canoas. Fui eleito por uma boa margem de votos. E estamos fazendo esse trabalho de 2009 a 2010. Tivemos um período complicado antes disso, o crédito estava complicado, estamos tratando dessas questões ainda hoje. Na Semana Farroupilha de 2008, por exemplo, foi feito um convenio da diretoria anterior com a prefeitura por 400 mil reais. E no ano passado foi feito um convenio de 42.240 reais, ou seja, menos de 10%. A entidade fez uma negociação com a prefeitura que assumiu uma parceria. Fizemos uma excelente Semana Farroupilha, pois para os tradicionalistas a maior data é o dia 20 de setembro.

E para este ano?

CFS: Esse ano estamos com a seguinte programação: não pretendemos fazer convênio, pretendemos diminuir ainda mais os custos da prefeitura, já nos cadastramos na LIC, a ETC está apta como personalidade jurídica e nós pretendemos fazer, por intermédio da LIC, o Evento Campeiro e a 4ª. Canoa do Canto Nativo. Nesse ano fizemos, atendendo ao pedido do nosso prefeito, estamos tentando movimentar a área artística do parque Eduardo Gomes, não transformá-la num elefante branco. Fizemos uma extensa, vasta programação. Fundamos o restaurante crioulo do parque. A área campeira também está funcionando, toda noite tem alguma entidade fazendo alguma coisa. Estamos levando o pessoal para conhecer a tradição. Tivemos uma coisa fantástica que foi a primeira biblioteca tradicionalista do estado lá no parque municipal Eduardo Gomes, no galpão da ETC. Tem 1030 volumes, sendo 660 sobre tradicionalismo.

A ETC é ligada ao MTG, não é? Qual a força do tradicionalismo em Canoas hoje?

CFS: O Estado é dividido em trinta regiões. Fora Porto Alegre, que é a primeira região, Canoas é, com muito respeito às demais regiões, a segunda colocada. A Semana Farroupilha de Canoas, por exemplo, fora Porto Alegre, é a maior da região. Ano passado circularam na semana farroupilha 120 mil pessoas. Tivemos baile com 8 mil pessoas, não houve condição de dançar.

Isso não teria a ver com o fato de que Canoas tenha uma grande população oriunda da Fronteira Oeste, da Campanha e de outras regiões de cultura gaúcha mais tradicional?

CFS: Ajuda, com certeza. Eu tenho conhecidos de Dom Pedrito, Santana do Livraimento, Uruguaiana…..e tenho um que eu nunca vi sem pilcha. Ele anda pilchado em todos os lugares. Vai ao banco, à farmácia pratica o tradicionalismo e sempre pilchado. Ele é de Uruguaiana. E isso é comum naquela região. A pessoa entra em lojas e os vendedores usam a bombacha.

O MTG tem um trabalho de pesquisa da história das tradições, definindo o que é tradição e o que não é. E existe o nativismo. Qual é a diferença entre tadicionalismo e nativismo?

CFS: O tradicionalismo como a palavra diz, está ligado à tradição. São as coisas que o homem do campo trouxe para a cidade. O nativismo é a coisa mais já aqui da cidade e tem outras influencias. Teixeirinha seria tradicionalista e C. Passarinho seria nativista. As letras são diferentes. Eles usam outro linguajar. Junto com o nativismo veio o Tche Music. Criaram um movimento e  tentaram inserir a música do nordeste na nossa musica. Mas muitos grupos populares são tradicionalistas. Cito dois tipos: Monarcas e Serranos. São tradicionalistas. Edson Dutra é uma figura espetacular. Gildo de Freitas também. Gaucho da Fronteira também é tradicionalista.

Então a diferença é a de o tradicionalismo tem regras mais estritas e o nativismo aceita outras influencias, não apenas do RS.

Sim, e não só isso. As músicas têm letras diferentes. Os nativistas usam mais expressões castelhanas, dentre outras coisas.

Há alguns dias, tivemos uma notícia sobre a instalação de rodeios country no RS, que são copias de rodeios que existem no interior de SP. Qual a sua opinião acerca disso?

CFS: Eu não sou contra, mas eu acho que nós, gaúchos, ainda temos muito o que construir no que diz respeito à tradição. O rodeio country eu acho que poderá entrar, mas acho que não vai ficar. Será assistido por aqueles que desconhecem a tradição. É bonito de se ver, a abertura é espetacular, 30 mil pessoas, tu vais ao interior de SP e vês a beleza que é. Mas não acho que vá continuar.

A música caipira do interior de SP e MG tem elementos semelhantes ao nosso, não é?

CFS: Sim, muitos. Usam muito a viola. É um instrumento de dez cordas. O caipira é muito respeitável. Tonico e Tinoco, por exemplo. São pessoas que tem a história comprovada, assim como nosso Texieirinha.

O Teixeirinha é um caso interessante. Ele era nos anos 60 e 70 era visto de lado por algumas pessoas e hoje ele é objeto de tese de doutorado, inclusive de uma ex-professora minha, a Miriam Rossini.

CFS: O ser humano tem um grave defeito: homenageia personalidades depois que morrem. Nós, no nosso movimento, procuramos homenagear as pessoas em vida. Eu, por exemplo, furei lona de circo pra assistir Mary Terezinha e Teixeirinha (risos).

Surge outra questão: a figura do gaúcho. O gaúcho é um fenômeno somente do RS ou é também do Uruguai, Argentina e Paraguai ? Há quem diga que é diferente. Carlos Reverbel, por exemplo. Alguns defendem a tese da pampa transnacional, um espaço geográfico e cultural que se estenderia por todo o pampa, com o mesmo elemento básico, que é o gaúcho ou gaucho. Qual a sua opinião acerca disto?

CFS: Aí vou defender a minha terra. O gaúcho é diferente dos gauchos. Estes existem até no Paraguai, mas o nosso gaúcho é diferente. Por exemplo: vou te citar um gaúcho que eu conheci. Conheci um peão com 24 anos que nunca tinha saído da porteira da fazenda. Um cara com extrema competência na lida do campo e montava em pêlo. Isso em Dom Pedrto. Quando o vi, ele me olhava à distancia, desconfiado, meio cabreiro, e depois ele se aproximou junto ao fogo de chão enquanto eu estava tocando. Era um cara meio tipo índio. Esse é o perfil do nosso gaúcho. É um cara da lida campeira. Nós aqui tentamos conservar esse cara lá de dentro da fazenda.

Mas o gaúcho do RS se diferencia do gaucho platino?

CFS: Sim. Por exemplo. Em vez de usarem a guaiaca eles usam a faixa porque, em lugares mais frios, pros lados da Patagônia, no sul da argentina, precisam proteger o corpo. Quando enxergares uma faixa, pode ter certeza que tem ligação com a Argentina.

O gaucho daqui então é um tipo específico do Brasil, como o caipira, o pantaneiro, o tropeiro e outros?

CFS: Sim, exato. O pantaneiro por exemplo, só existe no Pantanal. E o nosso gaúcho só existe aqui mesmo. Um típico pantaneiro tu reconheces logo que ele chega na rodoviária. Usando o berrante. Ele utiliza como instrumento de trabalho. Aqui nós usamos o sinuelo.

Fala-se que o RS teria uma ligação histórica com os países do prata. É algo que já virou até lugar-comum. Por outro lado, Dante de Laytano fala que havia a influencia do espanhol deste lado e do português do outro. Há inclusive a tese de que o chamamé seria originário da chimarrita açoriana….

CFS: Há que se respeitar, porque o ritmo é parecido. Mas eu falaria também da imigração alemã e italiana. Na culinária, por exemplo, ela é forte, com a polenta, a massa campeira, salsichão,  carne de porco. E isso é aceito pelo tradicionalismo.

O tradicionalismo tem um lado político?

CFS: Bom, nos somos políticos por natureza, nos , como seres humanos. Mas nas entidades, nos eventos, não costumamos falar. Até porque o MTG veda falar de política dentro das reuniões. Por isso procuramos nos preservar um pouco dessa área.

Nosso tradicionalismo é o mais forte do país?

CFS: É, sim. Temos no Brasil e fora dele, até em Nova York temos CTG, na Europa, Canadá. É o maior movimento cultural do país. Algumas pessoas não reconhecem isso porque querem defender a sua terra ou por desconhecimento. Mas nós estamos espalhados por todo o país.

No exterior, a comida associada ao Brasil é o churrasco, não como comida especialmente gaúcha, mas sim brasileira. O Brasil é o maior exportador de carne do mundo. É o país do carnaval, do futebol e do churrasco.

CFS: Exato. E eu tenho experiência de ver isso na Bahia, em Macaé, no interior do RJ, onde eu fiquei três meses e comi muito churrasco e ensinei muita gente. Aqueles que participaram saíram fazendo, de acordo com o que eu ensinei.

Que livros o senhor indicaria para quem quer começar a estudar a cultura gaúcha?

CFS: Bom, nós temos uma farta literatura. Na nossa própria biblioteca do parque Eduardo Gomes temos 660 livros. Para começar, Barbosa Lessa e Paixão Cortes. O Paixão está lançando um novo agora, inclusive. Para os canoenses, eu diria, visite a BiblioParque onde vai encontrar muita coisa, inclusive a história de fios, tecidos, indumentária.

Onde fica a sede da ETC?

CFS: Fica dentro da ASMC da prefeitura. Nosso endereço é rua Nerci Pereira Flores, número 179, Harmonia. CEP 92310-150.

Leia também: “Seu carmo”, o tradicionalismo busca espaço na política

 

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Discussão

4 comentários sobre ““Nós, gaúchos, ainda temos muito o que construir no que diz respeito à tradição.”

  1. Deixo aqui o meu carinho e agradecimento à ti CELSO A. U. PITOL pela divulgação. “Sirvam nossas façanhas de modelo à toda a Terra; sou GAÚCHO E ME BASTA PARA SER FELIZ EM CANOAS. “SEU CARMO”

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    Publicado por Carmo Souza | 21 de setembro de 2011, 13:21
  2. Essa é uma caminhada sólida com credibilidade, confiança, seriedade, honestidade enfim se ficar aqui atribuindo adjetivos vou longe!!!
    Porque quem conheçe Confia!

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    Publicado por Solano | 26 de agosto de 2012, 22:28
  3. Acho importante salientar, q toda esta caminhada foi galgada unindo cada vez mais a sua família no mesmo objetivo. Isto prova mais uma vez o carácter do seu Carmo, pessoa talhada para coordenar e acima de tudo liderar grupos. Realmente, só quem conhece sabe da idoneidade moral desta “grande pessoa”.

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    Publicado por Cristina Margot Rodrigues | 27 de agosto de 2012, 23:28

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  1. Pingback: “Seu Carmo” O Tradicionalismo busca espaço na política « PERSPECTIVA - 25 de agosto de 2012

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