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Ciências Humanas, Entrevistas

Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora

Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora

 

Acho que nós, professores de História, podemos ajudar a fazer a diferença”.

 

Por Celso Augusto Uequed Pitol

Quase todo lassalista que completou o Ensino Médio (então segundo grau) durante os anos 90 teve aulas ou ao menos ouviu falar da professora Cleusa Graebin. Para o aluno que estava se formando e preparando-se para a batalha do vestibular, a figura da professora Cleusa, com sua reconhecida qualificação, sua atuação acadêmica e sua rica titulação (iniciava o doutorado no ano em que eu saí) era inspiradora para quem,como nós, encaminhava-se  para o Ensino Superior.

Afastada do Ensino Médio, hoje ela concentra suas forças na graduação e no mestrado em história do Unilasalle, onde desenvolve pesquisas e orientações na área de Memória e Identidade.

Como e quando surgiu a opção de fazer uma carreira em História?

Cleusa Graebin: Foi uma opção que fiz já aos 9 anos. Sempre fui apaixonada por História. Em criança, fui uma leitora assídua da Bíblia e até hoje sou, até mesmo pela minha ligação religiosa (sou evangélica e congrego na Igreja do Mover) . A historia de Israel me emocionava muito. Depois tive contato com o Julio Verne, um autor maravilhoso, do qual li tudo  e que me ajudou muito na minha formação como leitora. . Na escola onde estudei,em Rio Grande, no Colégio Estadual Lemos Junior, nós éramos muito incentivados à leitura. Eu praticamente me alimentava de livros e continuava sendo uma leitora compulsiva. A minha carreira foi se delineando dessa forma. Quando pensei em fazer um curso superior, com 17 anos, só podia pensar em História e tinha planos de estudar História Antiga. Comecei o curso na FURG, na minha cidade natal ,Rio Grande, e, com a nossa vinda para Canoas, acabei noLa Salle. Aqui fiz uma especialização em Metodologia do Ensino de História e Geografia e, depois, fiz Mestrado e Doutorado em História na Unisinos, sendo o mestrado na área de Estudos Ibero e Latinoamericanos e o doutorado sobre os açorianos no Rio Grande do Sul.

 Como foi essa passagem da História Antiga para a história do Rio Grande do Sul.

CG: Como todo estudante de história, eu tinha aquele fascínio por Grécia, Egito e Roma. No entanto, a orientação que eu tive no Unilasalle era de nos voltarmos para o espaço onde a gente vive, até pela facilidade de fontes e documentos. Aí comecei a me interessar por coisas próximas e uma das oportunidades que eu tive no Unilasalle foi de participar do projeto “Canoas – para lembrar quem somos”, com a profa. Rejane Pena. Ali comecei a minha iniciação na pesquisa. Como resultado, virei uma apaixonada pela História de Canoas e, em 2007, quando a professora se aposentou, passei a coordena-lo.

 A idéia é mapear toda a cidade?

CG: Sim, toda a cidade. Já estamos no décimo segundo bairro. É um projeto, essencialmente, de história cultural.

 Quando a senhora fez sua graduação, nos anos 80, o curso ainda se chamava Estudos Sociais, com a divisão entre OSPB (Organização Social e Política do Brasil) e EMC (Educação Moral e Cívica), não?

CG: Sim, ainda tínhamos essa divisão. Só que a minha turma era formada por um pessoal muito combativo e fomos até a direção do CELES (Centro Educacional La Salle de Ensino Superior, embrião da atual Unilasalle) para extinguirmos o curso de Estudos Sociais e promover a criação do curso de História. A ditadura militar incentivou a criação destes cursos  de estudos sociais e fim de substituir os de História, Geografia e Filosofia, que eram onde mais se produzia um pensamento crítico da realidade.  Fizemos um movimento e em 1990 o CELES conseguiu a aprovação no Ministério da Educação para a transformação do curso de Estudos Sociaisem História. Depois de ter feito a especialização e começado o Mestrado na Unisinos, fui fazer essas disciplinas que faltavam para me formarem Historia. Foi uma sensação engraçada, a de estar num momento na graduação, entre meus colegas, e logo depois no mestrado, sendo professora deles (risos). Isso foi em 1996. Existia um certo receio, mas a instituição apostou e continuo até hoje.

 Quais disciplinas ministrou?

CG: História da America, em função do próprio mestrado que eu recém havia terminado.

 Hoje, filia-se a alguma linha específica de pesquisa?

CG: Filio-me ao campo da História Cultural, da História do Cotidiano e mais recentemente à chamada História das Sensibilidades. Este campo aborda tudo o que tem a ver com os sentimentos dos outros: crenças, religiosidades, cotidiano, representações sociais, dentro do campo da história cultura, tudo o que sensibiliza o ser humano. Um exemplo seria a história das práticas alimentares.

 Gilberto Freyre não se encaixaria nesta linha?

CG: Em parte, sim. Tanto ele quanto o Sérgio são grandes nomes da História cultural. Foram muito lidos na Europa, particularmente na França, graças à divulgação que o Braudel e outros que deram aula na USP quando da sua fundação realizaram por lá. Tem um texto do Freyre chamado “Açúcar” que é pura história da sensibilidade, do que se cozinha, do que se pensa quando se cozinha, trabalhando com cartas e festas, tudo para compor a história do sensível. Hoje temos trabalhos acadêmicos na área aqui no Unilasalle, eu e a profa. Nadia Weber que estamos trabalhando nisso. Nós, no mestrado, temos duas linhas de pesquisa, com Memória e Identidade, à qual eu me filio, e Memória e Linguagens Culturais. Além disso, estamos com um grupo de trabalhoem microhistoria. Lançamos ali um desafio aos alunos: estudarem, como detetives, a historia duma mulher de 1821 que apanhou do marido por não querer ir à Festa do Espírito Santo. Apanhou, esfaqueou o marido,  foi condenada e foi para a prisão.   Estamos fazendo um trabalho para irmos em busca desses dados e descobrir o que pudermos sobre eles. O Raul, nosso colega, vai trabalhar nisso também.

 Há quem diga que a historia foi a ciência que mais avançou nos últimos dois séculos, tanto por causa do refinamento dos paradigmas metodológicos quando pelas descobertas arqueológicas. Concorda?

CG: Concordo e cada vez mais é assim, porque nós vamos descobrindo outras maneiras de trabalhar fontes. É o caso da micro-historia onde juntamos todas as partes de um quebra cabeça onde podemos conhecer algo de alguém e a partir daí usar como indicio de que algo semelhante possa acontecer. Isso não é generalizar, não é fazer uma história total, que é impossível , não temos condições de fazer isso. É impossível apreender o todo de uma época. É melhor e mais seguro trabalhar numa escala reduzida de observação. Se aquilo lá aconteceu em 1821, o que mais aconteceu? Aconteceu com outras mulheres? Que rupturas isso teve para o tempo presente? Como é a questão da violência? Como isso tem se dado? E mais, além de toda essa contribuição da nova história francesa, a gente tem os estudos do Foucault, que são importantíssimos e que nos levam a pensar de onde vêm os discursos. Como se constrói o discurso sobre determinados personagens? Como se cria esse fato histórico? O Foucault trabalhava com as questões das redes de poder, Os últimos estudos do Foucault trabalham com toda a questão da subjetivação, como eu me construo enquanto sujeito. Que discursos ao longo dos tempos vêm sendo construídos sobre os professores? Como o professor vê a si mesmo? Como esses discursos são criados sobre ele? Isso faz avançar os estudos históricos, ao se tratar criticamente o nosso discurso.

 Voltando aos seus anos de formação. Muito se falou que a historiografia brasileira nos anos 80 era muito ligada ao marxismo, que exercia um verdadeiro monopólio teórico nas universidades. É verdade?

CG: Sim, e pior, um marxismo stalinista, partidarizado, com imposição didática de sucessões de modos de produção, que o aproximava de um positivismo ao estilo de Comte. Isso até entende-se como reação à ditadura militar, como resistência, mas a verdade é que deixamos de fazer leituras importantes de autores que não entravam nesse esquema. Até mesmo esquerdistas da nova esquerda inglesa como E.P. Thompson, Eric Hobsbawn, Maurice Dobb e outros, menos ortodoxos, chegaram muito atrasados ao Brasil, dos anos 80, 90 para frente, em virtude desse fechamento metodológico. O problema é que o marxismo entende tudo do ponto de vista da classe. Isso faz com que as minorias se escondam. Não aparece a mulher, o negro, o imigrante, nenhum destes grupos tem voz porque estão todos dentro da classe social.

 E não são vozes iguais.

CG: Não são iguais, são muito diferentes. E o que é classe? É um dado a priori, mas não se realiza da mesma forma e o seu conceito desconsidera as imensas diferenças existentes entre a economia de um lugar e de outro. Astecas e maias têm um modo de produção como o asiático, por exemplo? Claro que não.

 Fala-se que o brasileiro não tem memória, que o aluno brasileiro não lê e não está interessado nas ciências humanas. Isso é verdade?

CG: Acho que não é verdade. É uma generalização. Nas escolas, a gente vê professores fazendo trabalhos maravilhosos, dando aulas interessantes, convidativas, que despertam e muito interesse do aluno. Agora, se na periferia do meu bairro, Rio Branco, as necessidades básicas dos meus alunos não têm nada a ver com história, não adianta. Se eu não conseguir tornar aquele ensino, aquela aprendizagem, uma coisa significativa para os alunos, não adianta. Eu pergunto: porque o aluno tem que ficar preso na leitura de um livro didático? Isso é um crime, um aprisionamento mental. Eu tenho de partir de aquilo que é interesse do aluno. Hoje em dia,  mesmo aquele aluno que tem poucas condições financeiras tem acesso às redes sociais, à Internet. Então, temos que conhecer o aluno, saber quem ele é e mostrar que o mundo do bairro dele é parte de algo maior. Isso a História é capaz de fazer com o aluno: mostrar que ele pode ser agente de mudança. E também há aquele preconceito que existe sobre os alunos da periferia, de que eles não vão poder evoluir, que não precisam saber de nada, que não vão nunca sair de lá e que, portanto, não precisam saber de nada do que lhes é ensinado. Felizmente, esse tipo de caso não é freqüente. A maioria age de outra forma, felizmente. Mas a minoria pode fazer um belo estrago numa sala de aula. Assim como há pessoas que querem fazer a diferença há aqueles que passaram a faculdade fazendo o mínimo e farão o mínimo como professores.

A senhora parece ainda muito ligada ao aspecto prático da educação…

CG: Sem dúvida. É nosso dever estarmos sempre concatenados com a realidade de sala de aula. Afinal, estamos formando professores.

 Agora vem a pergunta que sempre surge quando o assunto é sala de aula: ser professor é vocação?

CG: No meu caso é. Eu gosto de dar aula. Gosto de fazer pesquisa, gosto de transformar, socializar, de formar professores e eu penso que o trabalho dum professor é duma importância muito grande. Olhando hoje para toda a minha trajetória, eu digo que não faria outra coisa. Não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Acho que há, sim,  muito de vocação. É muito bom encontrar alunos e perceber que aqueles que às vezes a gente dizia “Meu Deus, o que eu faço com esse guri” hoje estão em bons trabalhos, com um futuro belo encaminhado. Então ,é vocação. Por isso, eu não sou trabalhadora da educação, não sou operária da educação, eu sou professora, sou educadora. É assim que eu me sinto. Acho que nós, professores de História, podemos ajudar a fazer a diferença.

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Discussão

3 comentários sobre “Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora

  1. Prezado Celso!

    Gostaria de deixar meus parabéns pela entrevista, seja em termos de pauta, dseja pela qualidade da entrevistada e até da condução tranquila e agradável da forma como o diálogo foi repassado a nós leitores! Confesso que durante a leitura alguns pontos chamaram minha atenção. Porém, como de costume, não iria postar esta minha participação, já que tenho essa característica, errada ou não, de mais ler do que participar. Mas tanto a pergunta sobre vocação quanto a resposta da professora, motivaram-me a escrever (inclusive sobre outros pontos da matéria), mesmo sendo eu um professor de pequena atuação em sala de aula e que não se sente com tal vocação para tanto.
    Alguns pontos que julguei importantes:

    • A questão de nossas bases de literatura de conhecimentos (predominantemente nas áreas humanas, independentemente da área de atuação) estarem “contaminadas” pelo marxismo. Isso é um fato que até hoje está presente em nossos bancos escolares, pois muitos de nossos professores universitários ainda atuantes ficaram com essa linha de pensamento. E apenas ela. Falta, a eles, uma visão macro dos acontecimentos, de forma que analisem os fatos com maiores subsídios de conteúdo histórico, filosófico, dentre outros. Mas aí o profissional deve ser realmente profissional e deixar as paixões de lado. O que sabemos ser muito difícil…

    • Dando sequência ao item anterior para citar a delimitação por classes. Fica muito mais fácil segmentar de uma maneira macro (no caso, por classes). Claro, que há mais de 100 anos era a maneira que os defensores do marxismo encontraram para tocar em frente sua visão de mundo. Mas atualmente essa defesa é inconcebível, visto que o acesso à informação é alcançável para o profissional que realmente quer conhecimento e quer repassar bons conhecimentos aos seus. E não ser apenas um mero reprodutor de “pseudofilosofias” que até “fizeram” história (sem querer qualificar nenhuma delas). E realmente, professora Cleusa, as vozes são muito diferentes, mesmo quando analisamos a estrutura de uma mesma comunidade.

    • Sobre a incidência da leitura das ciências humanas por nossos alunos. Infelizmente, discordo um pouco, e creio que seja verdade a assertiva de que os mesmos não possuem interesse por esse tipo de leitura. Mas a culpa não é nem nunca foi dos alunos. A culpa e dos professores que não cumprem um de seus objetivos que é fomentar a busca externa pelo conhecimento e, também, da falta de estrutura das escolas para permitir tais avanços. Como um aluno vai se interessar por algo que ainda não conhece? Alguém, o mestre, deve apresentar a ele essas formas “novas”, essas “outras” fontes que não sejam os livros didáticos. Aliás, costumo chamar tais livros de Talas de Gesso, que só tem uma forma e uma serventia… Enfim, mas se o professor tem vontade e força para mudar esse paradigma da mesmice, ele consegue conduzir seus alunos para uma nova dinâmica de compartilhamento do conhecimento. E já presenciei projetos maravilhosos nesse sentido, mesmo que algumas escolas particulares tenham resistências profundas quanto a novas aplicações. E reforço: a culpa pela falta de motivação do aluno é do professor e da falta de estrutura das escolas, na grande maioria dos casos.

    • Sobre o tema vocação. Que alegria de ver que há profissionais da educação com a vocação para a lida de professor. Isso ainda nos faz manter a crença na educação, no ensino e na qualificação de nossos alunos para um futuro melhor. Parabéns, professora Cleusa.

    Finalizo, portanto, renovando o elogio pela matéria, o elogio ao entrevistador e a entrevistada. Até a próxima!

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    Publicado por danielsmello | 22 de outubro de 2011, 18:28
  2. Simplesmente, uma das pessoas mais extraordinárias que conheci na minha vida escolar. Professora: muito obrigado pelos seus ensinamentos. Nunca vou esquecer de suas aulas. Foram marcantes para sempre em minha vida. Beijo na sua alma. Marcus Boeira

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    Publicado por Marcus Boeira | 22 de outubro de 2011, 21:36
  3. Olá gostaria de saber se esta é a professora Maria Auxiliadora Fonseca Mourão, pois tenho muita vontade de reicontra lá foi minha professora nos anos 70 em BH Escola Maria das Neves a rua Rua Piranga, nº 39. São Lucas. Belo Horizonte, sou grata .

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    Publicado por Maria de fÁTIMA | 19 de julho de 2014, 21:27

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