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Entrevista: Guilherme ‘Floco’ Mendicelli, músico

Entrevista: Guilherme Floco Mendicelli, músico

“As pessoas não entendem que música não é atitude. É som. É ar se mexendo”

Por Celso Augusto Uequed Pitol

 

 

Despir a música de toda roupagem ideológica, exterior ao som: eis, muito simplesmente, o objetivo de Guilherme “Floco” Mendicelli. Segundo ele, música não é ideologia e nem discurso, e o grande mal do mundo musical de hoje é tentar reduzi-la a seu aspecto exterior, a uma moda, um corte de cabelo, um punho levantado – uma ideologia.

De certa forma, podemos dizer que “Floco” age sozinho em sua luta: seu Projeto Floco – quem quiser conhecê-lo pode acessar o site da Trama: http://tramavirtual.uol.com.br/o_projeto_floco – é um “one-man project”, irrepetível ao vivo, onde ele compõe e toca todos os instrumentos. Nesta entrevista, ele falará um pouco do cenário artístico da região, de suas idéias sobre música e dos seus próximos planos.

Como vês o cenário musical da região?

Guilherme Mendicelli: Vou falar dele com um exemplo. Temos aqui (ou tinhamos) uma banda chamada “Procura-se quem fez isso”. A banda tinha um lance que os caras estavam sempre mascarados e não revelavam as suas identidades. Tocavam com uns chapéus de pedreiro, com lâmpadas ou com cartolas, também, eu acho.  De qualquer forma, parece que eu já descrevi a banda, mas em nenhum momento eu mencionei algo sobre o som que os caras fazem.

Exatamente. Só falou do aspecto exterior

Guilherme Mendicelli: Esse é um dos grandes problemas da música popular moderna. As pessoas não entendem que música não é atitude. É som. É ar se mexendo. Isso é o importante.

É um fenômeno universal?

GM: Isso é meio forte no mundo inteiro, e aqui também. É incrível ver gente que não consegue entender quando eu digo que, por exemplo, eu gosto de “Fugidinha”. Porque não julgam a música, julgam a cara do Michel Teló. É mais ou menos como não conseguir entender que um cara que só toma leite integral esteja comprando um semi-desnatado. É leite. E eu adoro leite. De todas as formas

Para ti, é importante para o músico ouvir de tudo?

GM: Nem tanto. O importante é deixar de pôr aspectos externos ao sonoros em prioriade.

O revestimento, em vez do âmago.

GM:  É. Mas existem coisas que parecem tocar o sonoro, mas não tocam.

Como por exemplo?

GM: Como, por exemplo, a escolha de um “estilo musical”. Isso parece estar intrinsecamente ligado ao som. Mas nem sempre. Existem duas possibilidades nesta escolha: 1- o artista ou banda vai aderir a uma fórmula, um método de criação artística, como por exemplo, no blues (que segue regras pré-definidas de harmonia), no reggae (que segue regras pré-definidas de arranjo), ou no jazz (que segue regras pré-definidas de estrutura (este ponto pode ser polêmico, pois o jazz já não pode ser definido como tema-improvisação-tema, que seria esta “fórmula estrutural)). 2- o artista ou banda vai fazer uma escolha meramente ideológica, como no rock e seus derivados. A única coisa que deve passar pela cabeça de um músico trabalhando é “de que forma quero fazer o ar se mexer agora?”

Porque consideras o rock e seus derivados uma escolha meramente ideológica?

GM: Porque são impossíveis de definir sonoramente. Uma coisa só pode ser classificada como rock se tem uma intenção definida, e não se tem uma sonoridade definida. Quem diz que há padrão sonoro no rock é porque não o escutou bastante.Parece clichê, mas rock é rebeldia. E os derivados do rock são opções de corte de cabelo, e não de música. Que fique bem claro que eu adoro o rock.

 Mas não te parece que isso é decorrência do desenvolvimento centrífugo do rock? Da sua difusão generalizada? Porque o rock, no começo, nas duas primeiras décadas, ao menos, e em boa parte das duas posteriores tinha uma regra relativamente definida de harmonia e arranjo, não? Baseada, inclusive, no blues.

GM: Não. Não se pode confundir rock, com “rock n’ roll”. O rock a que eu me refiro é o espírito. Belchior é rock. E ele mesmo falou que um tango argentino lhe cai bem melhor que um blues.

 É o que une, sob um mesmo nome, The Who, Guns´N Roses, Nirvana, The Clash, Mutantes e Captain beefhart

GM: Sim, o blues une esses elementos. Mas eles estão (com exceção do Guns) na mesma época e (com exceção dos Mutantes) no mesmo lugar. São todos cantores do amor e sofrimento. O blues já era rock antes do rock nascer. Como eu disse, rock independe da música. É uma opção ideológica. Como eu disse, não deve ser prioridade na “poiése” sonora. Eu acho que isso pode ser bem ilustrado pela minha obra. Eu sou um artista que optou por não fazer rock. É simplesmente a busca pelo desprendimento total de questões externas ao som. O dilema da impossibilidade de se chegar ao ars gratia artis. Hoje em dia ninguém escuta música e diz “nossa, que legal o jeito que esse cara desenvolveu essa idéia”. As pessoas pensam “parece com tal coisa”,  “aposto que ele se veste de tal maneira”. Parece que toda a conversa sobre música é sobre os fatores exteriores ao som.

Tu falas “hoje em dia”. Te parece algo mto característico só da nossa época?

GM: Não. Posso dizer que é característico da época em que se admite a existência do rock.

De onde vem a tua opção de fazer algo desprendido de roupagens

GM: É que quando a pessoa vai iniciar um projeto musical, de qualquer estatura, passa por essa reflexão antes. Exige um pouco de planejamento. Se eu tivesse a chance, não faria opção nenhuma. Não faria nem música.

 Se não tivesse a chance? Não tem?

GM: Claro que não. Eu faço música porque não tenho escolha. Ninguém me pede pra fazer.

Tal como Dostoievski ao escrever? “Escrevo para libertar demônios?”

GM: Eu realmente não sei se é possível afirmar porque um artista faz arte. Mas a julgar pela literatura dele, posso dizer que os motivos dele são muito parecidos com os meus.

A tua escolha por fazer um projeto solo foi também por esse motivo? Uma necessidade imperiosa?

GM: Isso vem um pouco do lado de tomar o mínimo de decisões ideológicas possíveis. Porque a comunicação entre dois ou mais fazedores implicaria em verbalização, que basicamente seriam idéias autênticas e perfeitamente aproveitáveis na minha prática, só que carregadas de ideologia.

Um marxista (e eu não sou) te dirá que o teu esforço é em vão.

GM: Tenho pra mim bem claro que praticamente não há produção sem ideologia, dependendo do ponto de vista. Isto torna minha busca, de certa maneira, meio inútil. Mas acho que buscar o inalcançável é, no mínimo, nobre. e vai que um dia eu consigo? Pelo menos penso estar trazendo progresso a um meio tão estagnado quanto a música.

Fica dificil pra ti falar em influencias pra tua musica?

GM:  Nem tanto. Na verdade, influências eu sempre achei uma palavra meio ruim. teoricamente tudo o que eu consumo me influencia, e no mundo de hoje tem coisas que não temos opções senão consumir. Normalmente eu cito como artistas similares a mim caras tidos como “experimentais”. Tipo Frank Zappa, Eric Dolphy, Ornette Coleman, Kraftwerk. E também é inevitável olhar pra caras que também fazem sozinhos, tipo o Cornelius ou Of Montreal, Brian Eno…

És estudante, quase formando, em Letras, habilitação latim. Porque o latim?

GM: Supus que seria o conhecimento mais útil dentre as línguas

Por ter sido matriz de muitas outras?

GM: É, mais ou menos. É a que emprestou mais coisas para as outras.

E confirma a tua suposição agora, prestes a te formares?

GM: Ah, sim. Não ajuda tanto quanto se espera quando se é iniciante, mas é muito útil e abre muitas portas. Ajuda muito no ofício de tradutor e professor também. é uma ferramenta que para mim hoje é indispensável.

O latim já fez parte do nosso ensino escolar. Tu és a favor do retorno dele?

GM: Com certeza, não. Já se ensina muita coisa na qual os adolescentes de hoje não têm o mínimo interesse. Com certeza o latim seria mais útil do que muitos outros conhecimentos do ensino médio, mas mesmo assim seria apenas mais uma coisa para os jovens decorarem e esquecerem após a prova. A volta do latim seria só mais uma coisa para atrapalhar o futebol.

Floco, eu só ouvi as tuas musicas pela internet. Elas existem em CD?

GM: Houve um disco, chamado “Obras Incompletas”. É de 2004. Além desse tem um disco que eu quase terminei em 2009, mas não cheguei a terminar. Era um disco só de reggae dub.

Quais teus proximos projetos?

GM: Bom, estou gravando um disco novo. Vai ter voz e vai ser mais “acessível”. Vai ser tipo uma ópera-funk sobre um dia na minha vida.

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