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Entrevistas

Mário Both – Uma vida dedicada à comunidade

Recebi hoje a notícia do falecimento do insigne advogado canoense Mário Both, a quem tive o prazer de entrevistar há dois anos. Como forma de homenagem a uma das mais destacadas figuras da cidade de Canoas com quem tive  a fortuna de privar em uma agradabilíssima tarde,  reproduzo aqui a entrevista.

 

 

Adentro a casa de Mário Both. Sou recebido por um senhor distinto, sobriamente vestido, que me receber-me em seu gabinete, rodeado por livros e agraciado com um café preparado pela sua esposa. Sento-me diante dele e, após os cumprimentos habituais, ouço: “Inicialmente, gostaria de lhe fazer uma pergunta: qual o maior romance que já leu?”. Após pensar um pouco, respondo o óbvio: Dom Quixote e qualquer coisa de Dostoievski. “Já leu Os Miseráveis?”. Sim e também gostei muito. Inicia-se então uma discussão sobre qual a cena preferida do romance de Victor Hugo seguida de comentários sobre a extensa biblioteca que nos cerca. Isto tudo levou uma hora. A entrevista toda levou quase quatro e poderia, muito facilmente, se estender até a noite. Ou talvez mais um dia. Talvez uma só entrevista seja pouco para o que Mário Albino Both tem a dizer. São nada menos do que sete décadas – sim, sete décadas – morando em Canoas, pelo menos seis delas com ativa participação social e comunitária, que inclui desde o seu vizinho, Grêmio Niterói, de onde já foi presidente, até o Rotary, a ABC e o Lyons, mais os trinta anos de exercício de advocacia num dos maiores escritórios da área trabalhista que Canoas já teve. A condição de testemunha ocular de vários acontecimentos relevantes desde a tenra idade, não somente como mera testemunha, mas como  participante ativo da própria construção desta cidade, dá a Mário Both a condição de observador especialíssimo da realidade atual, que exige justamente a percepção acurada de quem sabe o que é Canoas e é capaz de imaginar o que a cidade pode se vir a tornar no futuro. A entrevista que segue mostrará algo disso. Mas mostrará, também – e, talvez, sobretudo – uma declaração, ainda que não-expressa, de amor a uma terra que viu nascer e crescer e cujos tipos humanos conheceu, a ponto de reconhecer num jovem jornalista muito do avô que foi seu amigo, dos pais que conheceu e estima, do tio, de todos quantos lhes são próximos. Para quem vive em Canoas há tempos, para quem tem raízes aqui fincadas, conversar com o senhor Mário Both é, acima de tudo, compreender um pouco de si mesmo. Espero que as linhas que seguem possam demonstrar tudo isso.

 

 

 CAUP: O senhor é natural de Porto Alegre. Quando veio para cá?

 

Mário Both: Em 1935, aos 11 anos. Morava na rua São Pedro, em Porto Alegre. Estudei num colégio La Salle que havia na rua Minas Gerais, antes de construírem a Farrapos.. A São Pedro era de areia e tinha um caminhão-tanque da prefeitura que molhava as ruas no verão. Devo dizer que, no meu tempo,o ensino era ótimo. A nossa formação também era muito religiosa. O pai era muito religioso, a mãe também. Fui sacristão até a época de barbado (risos). Fui o primeiro sacristão da paróquia São Paulo. Depois, fui presidente da Ação Católica e da Juventude Católica.

 

CAUP: Como era Niterói quando aqui chegou?

 

MB: Não tinha nada, assim como Canoas. Não havia luz elétrica em Canoas. Só o velho Vargas tinha, lá no Centro. Aqui nós nos virávamos com lampião, carbureto e querosene. O que havia de casas? Meia dúzia. A Machadinho era a rua principal. Parece-me que foi a primeira rua calçada de Canoas. O centro de Canoas praticamente não tinha nada, também.

 

 

CAUP: Como  começou a sua atividade social?

 

MB: Nesse meio tempo eu tinha uma atividade social bastante forte. Desde rapazote eu pertencia ao Grêmio Niterói e em 1938 eu já era o segundo secretário. Onde era um campo de futebol construíram a sede, em 1936. É um dos poucos prédios antigos de Canoas. Niterói não era nada. Os próprios sócios ajudaram a colocar tijolo para levantar a sede. Foi um negócio fantástico para a época. Quem veio fazer a saudação foi o Guido Mondin, que é hoje nome de rua. Nós tínhamos até um bolentizinho do Niterói, impresso num mimeógrafo. Naquele tempo a gente comemorava tudo. O sentido de civismo era muito maior. Tiradentes, 7 de setembro, tudo a gente fazia sessão solene, desfile. Convidamos pro Tiradentes o prefeito Sady Schmitz. Só que um dia foram fazer o Tiradentes e o cara que ia fazer, um militar, não pôde ir. Era no outro dia. E no outro dia, às oito da manhã,eu corri para a Biblioteca Pública de Porto Alegre para estudar a Inconfidência Mineira (risos). Eu falei uma hora e meia. E o meu irmão Melton Both também teve uma atividade social muito grande. Foi vereador, presidente da Câmara de Vereadores, foi um dos basilares do Hospital Nossa Senhora das Graças. O Melton tinha uma admiração pelo teu falecido avô (Jorge Uequed), os dois eram rotarianos. O Uequed era uma pessoa espetacular. Tinha um jeito de rir meio sonoro e um senso de humor muito apurado. Era um homem espetacular para fazer negócios. No Banco Agrícola, onde o Melton trabalhava, nenhum homem tinha mais reputação do que ele.

 

CAUP: Fale um pouco do período em que assumiu a presidência do Grêmio Niterói.

 

MB: Fui presidente um ano depois do cinqüentenário. Foi um período excelente, porque tivemos seis vice-presidentes, cada um com sua função clara e o interessante é que eu não escolhi nenhum deles. Escolhi apenas um deles, na verdade. Quando eu entrei, tinha 451 sócios em dia com 3200 de obrigação de pagar, em dois anos eu estava com mais de 90% em dia do quadro social e deixamos para os que nos seguiram

 

CAUP: E na ABC?

 

MB: Foi um período também muito importante, mas quero deixar claro um detalhe. Consta que pedi demissão por motivo de saúde. Não. É mentira. Meu problema é a revolta com a falta de planejamento e com certas decisões ali tomadas. Não aceito determinadas situações que fui obrigado a assistir.  Na verdade, o grande mal é que uma dinastia peninsular se instalou e vem tomando certas atitudes com as quais não posso concordar.

 

CAUP: Como vê a cidade de Canoas neste novo milênio, após ter vivido aqui sete décadas?

 

MB: A RS 10 eu sou a favor, porque com o tempo só teremos megalópoles  e é preciso facilitar a interligação. Em 1938, Loureiro da Silva fez a Farrapos e foi chamado de louco. Porque não fazem uma avenida com 3 faixas, incluindo ciclovia? Daqui a 100 anos vão dizer “que coisa fantástica!”. 

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