Política

Hugo Chávez (1954-2013)

Nestes seis anos de existência, o Blog Perspectiva acompanhou de perto a trajetória do presidente Hugo Chávez. Foi, durante certo tempo, um de nossos temas preferidos. Era fácil direcionar nossa ironia para sua figura folclórica,  desinibida e sempre bem humorada, autora de frases marcantes e divertidíssimas que não poupavam reis, não respeitavam mitos e não conheciam protocolo ou boas maneiras. Normalíssimo: é sempre fácil rir-se de tipos assim, ainda mais quando governam países,  e ainda mais os países da América do Sul, que sempre vivem à beira da gozação internacional.

Logo que assumiu a presidência de seu país, em 1999, Chávez despontou como o maior exemplo mundial de líder fanfarrão e caricato. A concorrência era grande:  o tempo de Chávez – o começo do século XXI – foi o de Berlusconi e G.W.Bush, Evo Morales e Sarkozy, Vladimir Putin e Netanyahu, Ahmadinejad e Kim Jong Il, Nestor Kirchner e Cristina Kirchner, de políticos reduzidos a pop stars e do pop elevado à condição de política séria. Nós, deste blog, também direcionamos aquela ironia de que falamos acima para os Berlusconis, Putins e Bushs da vida, personificações dos mais surrados estereótipos de seus respectivos povos. Chávez também foi personificação de um estereótipo, não propriamente o de venezuelano, mas de latinoamericano –  ao menos o de latinoamericano que o resto do mundo conhece. Muito mais do que Lula, Bachelet ou outro esquerdista tido como moderado e mais próximo da tradição social-democrata européia, foi ele o representante mais acabado do que a política deste lado do mundo parecia ter a oferecer de novo. Assim o entendeu certa esquerda européia, que gosta muito dessas coisas – principalmente quando acontecem bem longe dela.

Já o outro lado, que também gosta de generalizações simplificadoras, viu em Chávez um inimigo do Ocidente. É o mesmo grupo de pessoas que exclui a América Latina do mundo ocidental por não ser suficientemente rica, suficientemente branca ou suficientemente liberal, creditando a exclusão à infiltração de elementos extra-europeus na formação étnica, cultural e política do país. Há latinoamericanos que também acreditam nisso. São, muito provavelmente, pertencentes à maioria da população de seus países (embora não creiam nisso), que pouco ou nada sabe da história, da formação étnica e da cultura da Península Ibérica.  Se soubesse, saberiam que muito do que consideram exotismo e primitivismo político e cultural é, na verdade, a permanência de elementos tradicionais ibéricos, tradicionais a ponto de, em alguns casos – só em alguns – já terem desaparecido em seus países de origem, mais sujeitos às influências dos “grandes centros” de cultura e civilização.

É inescapável: por mais que os admiradores de “El Comandante” não gostem que se diga isso – quem ouviu um “cale-se” do rei de Espanha não pode gostar – a verdade é que o “cholo” Chavez, o anti-imperialista Chávez, o revolucionário Chávez, o general (generalíssimo?) Chávez, está mais próximo de seus predecessores ibéricos e ibero-americanos do que de Lênin, Erich Hoenecker, o Baader Meinhoff ou a OLP. Por mais que eles não gostem que se diga, o mundo físico de Chávez pode ser o Caribe e os Andes, mas seu mundo espiritual é, como o de todos os que nasceram entre o Rio Grande e a Patagônia, o de Calderon de la Barca e San Juan de la Cruz, Bartolomé de las Casas e Francisco de Vitória, Baroja e Unamuno, Ortega e Cervantes. Principalmente o mundo de Cervantes. Como bem disse Unamuno, o quixotismo é a religião de Espanha. E nós acrescentamos: não só da Espanha europeia, mas das outras Espanhas, como esta nossa imensa Espanha americana da qual o Brasil (sim, o Brasil) também faz parte, repleta de curas, barbeiros, vagabundos, pícaros, magos, guerreiros, pseudomagos e pseudoguerreiros que muito bem poderiam habitar a Mancha cervantina. Os melhores de nós, brasileiros – um João Cabral, um Ariano Suassuna, um Manoelito de Ornelas, um Gerardo Mello Mourão – sabiam disso.

Mas, em quê consiste o quixotismo? Responde, e muito bem, o intelectual e diplomata equatoriano Leopoldo Benitez: “en la contradicción entre el mundo y el hombre. Don Quijote es la expresión de ese contraste y de esa disonancia: el mundo y el hombre en desacuerdo fundamental”. Don Quijote vive, ve, palpa, un mundo que no es el mundo real. Entre el mundo y su mundo hay discrepancia. Y sus actitudes y pensamientos no se pueden medir de acuerdo con otro mundo que con el propio que él vive. Sus gestos, sus reacciones, su posición misma, está en relación con un mundo que no es el de Sancho, ni el del cura, el barbero, los duques o los pastores. Los molinos de viento de la llanura manchega no son molinos, ni rebaños, ni ventas los chatos paraderos que se levantan en la desolada soledad de la Mancha. Su mundo transfigurado es tan real como el otro que ven los demás, de tan intensa realidad que cree en él y es el único que existe como relación de su pensamiento. Hay un desacuerdo profundo entre él —realidad sustantiva— y la realidad externa del mundo”. E acrescenta, igualmente bem: “En la discrepancia entre el mundo y el hombre está la raíz de lo cómico pero también de lo trágico”. Por isso, dizem que os leitores superficiais do Quixote riem dele, enquanto os bons – como Unamuno, o melhor deles – derramam uma lágrima.

Foi o caso de Chávez, o homem que quis imaginar-se habitante das selvas ou dos Andes e foi apenas mais um habitante desajeitado da Mancha cervantina, como Martin Fierro, Riobaldo, Pedro Páramo, eu e o leitor latinoamericano deste blog.

Mais do que isso: todo o discurso anti-americano e todos os gestos espalhafatosos não alteraram o fato incontroverso de que os EUA, viilificados no discurso, permaneceram como o maior parceiro comercial da Venezuela. O país experimentou, sim, algum crescimento econômico, ainda que claudicante e nada espetacular; por outro lado, a inflação e a violência cresceram bem mais, o parque industrial sucumbiu, a economia concentrou-se nas benesses do ouro negro e o país, que Chávez quis unir, está mais desunido do que nunca, rasgado ao meio por facções a favor e contra ele. Houve, em Chávez, no quixotesco Chávez, um “desacuerdo profundo” entre o que ele dizia e o mundo em que vivia.

Como fica claro para quem procurar o nome de Chávez neste blog, nunca pudemos concordar com o chavismo. Deploramos quase tudo nele, a começar por ter não ter obtido sucesso naquilo que ele tão avidamente buscou: a independência e a emancipação do país. Contudo – e isto precisa ser dito – tampouco pudemos concordar com quem viu no seu formulador e líder um Pol Pot dos Andes ou um Hitler caboclo. A tentação autoritária a que ele sucumbiu algumas vezes não é diferente da de outros líderes este continente, à direita ou à esquerda, e a crítica a Chávez, desconectada da crítica à nossa América, pouco explicará. Nós, que fomos seus críticos, também sucumbimos a uma tentação: a do riso e da gozação fácil, típica dos maus leitores do Quixote. E, por termos sucumbido a ela, aproveitamos esta hora grave para pedirmos desculpas.

Descanse em paz, comandante.

Discussão

2 comentários sobre “Hugo Chávez (1954-2013)

  1. Excelente, Celso!

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    Publicado por Vitor | 10 de março de 2013, 03:43
  2. Que texto peculiar. Parabéns. Grande Celso!

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    Publicado por Marco | 29 de junho de 2013, 01:28

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