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Ciências Humanas

Ler Oswald Spengler em 2014

Quando A Decadência do Ocidente foi publicado pela primeira vez, em julho de 1918, poucos poderiam imaginar – e decerto não o seu autor, Oswald Spengler – que, em menos de quatro anos, o primeiro tomo da monumental obra venderia nada menos do que 53 mil exemplares, cifra que viria a se repetir com a publicação do segundo tomo. Um verdadeiro best-seller, portanto. Mas um best-seller que poderíamos qualificar de improvável, o que é devido, sobretudo, a dois obstáculos nada desprezíveis.

O primeiro era a crise econômica vivida na Alemanha após a guerra de 1914-1918, que limitava as compras da maioria da população ao básico indispensável. O segundo era o próprio livro: Spengler apresentava ao leitor mil páginas de um texto denso e exigente em que, passeando pelas realizações, sucessos e declínios de oito culturas distintas, concluía que, por mais grandiosas e extraordinárias que fossem ou parecessem em seu tempo, elas não passavam de organismos que, como todos os organismos, estavam destinados à mesma sorte banal de uma planta ou uma espécie: a de nascer, crescer e, por fim, desaparecer. Além disso, a mais recente das culturas humanas, a Ocidental, encontrava-se justamente no seu estágio final de existência. Um livro, em tese, para poucos iniciados. Pois A Decadência do Ocidente passou por cima dos dois obstáculos, o que é prova da urgência da reflexão que propunha naquele momento.

Não é de se crer que a Forense Universitária, responsável por esta nova publicação da obra (na tradução feita por Herbert Caro, um dos maiores divulgadores das letras germânicas no em nosso país) vá esperar sucesso semelhante no Brasil, mesmo sendo esta a edição condenada pelo professor Helmut Werner, que reduziu a gigantesca obra original a menos da metade. Afinal, o Brasil, enquanto Brasil, não vê nada parecido com os anos de decisão – titulo, aliás, de outro livro de Spengler – vividos na Alemanha pós-1918. Mas o Brasil enquanto Ocidente vê, sim, a necessidade das reflexões de Spengler para uma cultura que se vê sem rumo, acuada pelo medo de si e dos outros e incapaz de impor-se e de fazer-se ouvir num mundo complexo. Nossos anos são, de certa maneira, também “anos de decisão”. Por isso, a leitura – atualizada e crítica – de Spengler se impõe também a nós, ocidentais do novo milênio.

É importante atentarmos aqui para um fato fundamental: o de que os brasileiros podemos, neste A Decadência do Ocidente, usar o pronome “nós” quando fazemos referência ao problema que ele apresenta. Quem o diz é o próprio Spengler logo no começo da obra, quando afirma que, por Ocidente, entende a cultura da Europa e das Américas – e não da América, querendo dizer somente a América do Norte, os Estados Unidos e o Canadá. Não é pouca coisa. Os estudos dos últimos trinta anos que abordam a temática decadentista – e creio ser correto falarmos que há tal temática dentro das ciências humanas no último século – normalmente excluem a América Latina do grupo de países ocidentais. É o que faz um Niall Ferguson, por exemplo, ou, em nível ainda mais baixo, um Patrick Buchanan, os dois na esteira de Samuel Huntington. Para eles, o Ocidente, The West, significa quase o mesmo que o Noroeste do globo, onde vivem sobretudo brancos, com boa renda média, boa segurança institucional e num ambiente liberal-democrático. Muitas vezes é uma designação antes sócio-econômica do que histórico-cultural. Fala-se em “western standarts” para padrão de vida e quando se fala em “western values” é, em geral, uma referência às liberdades da democracia liberal e secular face ao resto do mundo – The Rest, na expressão de Ferguson – onde tais coisas ainda não chegaram, sobretudo o agora temido mundo islâmico. Qualquer uma destas definições faria Spengler, que pouco se interessava para IDH, renda média ou eleições parlamentares, horrorizar-se. São todos símbolos do progresso, e se há algo que Spengler não foi em vida foi um entusiasta pelo progresso.

Não era algo comum naquela época. As filosofias da história mais divulgadas – as de Comte, Hegel e Marx – eram francamente progressistas. O sentido da história existia e cabia ao indivíduo, ao homem concreto, saber para onde ele apontava e adequar-se a ele, amoldando a sua trajetória vital ao caminho correto. Spengler veio com o contrário. Em vez de olhar o horizonte com entusiasmo, viu-o com pessimismo. Rejeitando totalmente a visão linear da História, propôs, influenciado por Nietzsche, uma visão cíclica, em que cada cultura, comportando-se como um organismo, morrerá dando lugar a outra. Oito são as grandes culturas que Spengler vê na História da humanidade: a indiana, a babilônica, a egípcia, a chinesa, a arábica (ou mágica) e, por fim, a Ocidental, ou faustiana. Cada uma delas tem um símbolo primordial, espécie de primeira impressão de uma criança que lhe afetará a vida para sempre. No caso das culturas, o símbolo primordial é o que as anima em tudo, das matemáticas às artes plásticas, da literatura à economia, e com elas permanecerá até que desapareçam. No caso da civilização ocidental, o símbolo primordial é o espaço ilimitado, que a alma faustiana anseia como Fausto anseia pelo conhecimento.

Spengler inscreve-se dentro do chamado historicismo alemão, como um dos integrantes destacados desta geração extraordinária de intelectuais alemães, ao lado de um Max Weber, um Georg Simmel ou um Friedrich Meinecke. E Spengler é historicista em quase todos os pontos relevantes de sua obra. É refratário à ideia – ainda existente, em sua época – de utilizar os modelos das ciências naturais para as ciências humanas; ressalta a necessidade de o historiador, o sociólogo, o crítico de arte compreender o seu objeto de estudo, atitude fundamentalmente diferente do explicar característico dos cientistas; e entende que as consciências são produto do contexto histórico em que vivem e têm seus horizontes por eles limitados. Em outras palavras, o historicismo assume uma posição decididamente relativista: todos os valores de uma cultura estão inexoravelmente ligados a esta cultura, não sendo necessariamente válidos para outra.

Spengler, como faz com tudo em A Decadência do Ocidente, leva-o às últimas consequências e o faz de maneira explícita. Nada escapa à passagem do tempo e a mudança do espaço: moral, Direito, instituições, arte, nem mesmo a física e as matemáticas e suas pretensões de validez universal. “O filósofo sistemático” – diz ele – “comete um erro muito grave ao considerar seus resultados como duradouros. Esquece o fato de que todos os pensamentos vivem num mundo histórico e, por isso, partilham do destino geral da efemeridade”. E vaticina: “Não há verdades eternas. Cada filosofia é expressão de seu tempo, e só dele”. Nisso sobra espaço para uma crítica à maneira do filósofo ocidental em tratar as suas próprias realizações:

“Eis o que falta ao pensador ocidental e que não deveria faltar justamente a ele: a compreensão da natureza histórico-relativa de suas conclusões, que não passam da expressão um modo singular de ser, e somente dele. O pensador ocidental carece do conhecimento dos inevitáveis limites que restringem a validez de suas afirmações. Ignora que suas ‘verdades inabaláveis’ e suas ‘percepções eternas’ são verdadeiras só para ele e eternas unicamente do ponto de vista da sua visão de mundo. Não se recorda do dever sair da sua esfera para procurar outras verdades, criadas com a mesma certeza por homens de culturas diferentes”.

Impossível não lembrar aqui de Wilhelm Dilthey, mestre de Spengler e de todos os historicistas, para quem a pretensão de validade universal da filosofia europeia havia sido quebrada a partir do momento em que Alexandre o Grande empreendeu suas campanhas pela Ásia. Nada pode ter pretensão de validade universal.

Nem todos gostaram do estilo de Spengler, das suas frases sentenciosas que encheriam os commonplace books, do tom épico que se nota desde a introdução da obra, das suas conclusões definitivas. Lucien Febvre ataca o caráter “totalitário” da Filosofia da História de Spengler, ao englobar toda a ação dos homens de uma determinada época dentro da grã-entidade cultura. Diz que Spengler escreveu sob medida para os alemães daquela época, que preferiam “sentir confusamente” em vez de “compreender lucidamente”. Mesmo as palavras de admiração que Spengler recebeu sempre vieram com ressalvas ou com elogios a aspectos “não-científicos” dela. Eric Voegelin, um inimigo declarado das filosofias da História, reconheceu-lhe a capacidade de aglutinar e combinar conhecimentos diversos e deles extrair uma conclusão, que ele, Voegelin, julgava essencial para qualquer estudioso sério em ciências humanas – e pouco mais do que isso. Já Max Weber, que conheceu A Decadência do Ocidente pouco antes de morrer e falava com a autoridade de quem estudara tudo o que Spengler abordava no livro, via nele pouco mais que um diletante – para ser mais exato, “um diletante muito engenhoso e culto”, mas ainda assim um mero diletante. Parece ter sido difícil para o cientista profissional daquela época em aceitar seriamente o trabalho daquele modesto professor de matemática que apenas na idade adulta passou a interessar-se por filosofia. Preferiram elogiar o artista e atacar o filósofo, e elogiar o artista foi, muitas vezes, um ataque velado ao filósofo: é o caso do crítico literário Northrop Frye, que lhe elogia o estilo e a grandiosidade, reconhece-lhe a influência imensa a ponto de dizer que, em certo sentido, hoje “somos todos spenglerianos”, apenas para dizer que suas teses já foram refutadas dezenas de vezes. Menos explícito, mas com o mesmo espírito foi Ortega y Gasset, para quem A Decadência do Ocidente foi a peripécia intelectual mais estrondosa daqueles anos. Spengler era um poderoso “acunador de ideas, y quienquiera penetre em las tupidas paginas de este libro se sentira sacudido uma y otra vez por el eléctrico dramatismo de que las ideas se cargan cuando son fuertemente pensadas”. Mais do que tudo, alguém que sabia reunir e organizar ideias e pensa-las “fuertemente” – mas não profundamente, nem corretamente. Como um poeta, não como um cientista. Nesse ponto, Spengler parece-se demasiadamente com seu principal inspirador, Friedrich Nietzsche, que foi antes de tudo, poeta.

A fina percepção de Northrop Fryre levou-o a apontar que poucos livros neste mundo têm o poder de expandir a mente de alguém como este, como os melhores poetas. O próprio Spengler parecia ter noção deste caráter inspirador de sua obra. A todo momento aponta para certos temas que não foram estudados, convidando o leitor qualificado para tal a empreender pesquisas nesse sentido e com a certeza de que o todo por ele construído não será maculado por conclusões diferentes. Spengler sabe que encontrou o caminho.

E o Brasil também teve os seus admiradores de Spengler. Talvez o mais notório deles tenha sido Otto Maria Carpeaux, cujos anos de formação se deram justamente no período em que A Decadência do Ocidente fazia furor no mundo de língua alemã. Carpeaux detestava a edição reduzida de Werner e chamava de ignorantes aos que acusavam Spengler de ser um precursor intelectual do nazismo. Outro admirador foi o poeta Gerardo Mello Mourão, que se confessou “irremediavelmente alcançado pelo toque de epopeia e de elegia com que esse filósofo lírico se debruçou, com o charme de um romancista, sobre a história de um mundo de glórias e esplendor de espírito, marchando irremediavelmente para a uinda como a velha mansão esplêndida de uma dessas famílias a caminho da decadência, tão típicas da tragédia burguesa de nossos dias”. Uma epopeia, uma elegia, de um filósofo lírico com charme de romancista: um artista, um criador, antes de tudo, pertencente ao mundo da poesia. Mas quem, lendo A Decadência do Ocidente, mesmo quem vê mais virtudes em Spengler, poderá discordar disso? Basta ler a maneira como Spengler termina o livro como quem põe fim a uma apresentação majestosa:

“Assim termina o espetáculo de uma cultura superior, todo esse universo maravilhoso de divindades, artes, ideias, batalhas, cidades e tudo torna a embocar nos fatos primordiais do sangue eterno, que é idêntico às flutuações cósmicas em seus perenes ciclos”. A frase final do livro não poderia estar mais de acordo com o espírito da obra: “Ducunt fata volentem, nolentem trahunt” – o “destino conduz a quem consente, a quem resiste ele o arrasta”. Um poeta reconhece outro, e Mello Mourão foi um grande poeta.

Quanto a Carpeaux, sua irritação tinha sentido. Não foram poucos os nazistas, em especial os de primeira hora, que gostaram da obra de Spengler e até mesmo a empregaram para fins propagandísticos. Isto maculou ainda mais a sua penetração em círculos intelectuais do pós-guerra, como também aconteceu com Carl Schmitt, Ernst Junger e, em menor medida, com Martin Heidegger. A confusão não é de todo incompreensível. O pessimismo, o anti-liberalismo, a exaltação da nação alemã, do heroísmo, do “vivere pericolosamente”. Spengler chega a falar de de matemática e física “faustianas” como os nazistas falavam de “física judaica” para se referir a Einstein. No entanto, Spengler nunca aceitou o determinismo biológico nazista e a figura de Hitler lhe parecia circense. Muitos nazistas que o conheceram pessoalmente ficaram desapontados. Em 1936, seus livros foram banidos pelos nazistas. Pouco depois viria a falecer.

A pergunta que se impõe ao fim de A Decadência do Ocidente é: e depois? Afinal de contas, Spengler prediz o fim do Ocidente, mas não o fim deste planeta. Será sucedido por qual outra cultura? Spengler deixa algumas pistas ao longo da imensa obra, mas nunca de modo definitivo. Parece ter certo receio de expor seu posicionamento sobre essa questão. Não o fez como costuma fazer, abrindo ou fechando cortinas, mas em meio a outros debates que inicia no decorrer da obra. Não esqueçamos que A Decadência do Ocidente foi publicado no alvorecer da revolução de Outubro, quando o ainda se especulava sobre o futuro da União Soviética e todas as opções estavam abertas. E ele pergunta: “O que não se pode esperar da Rússia futura?”. Não faltou quem lesse em Spengler uma profecia de que a Rússia que nascia era a Rússia soviética, e que o fim do Ocidente era o fim do Ocidente capitalista. É ele mesmo quem logo se encarrega de desfazer possíveis mal entendidos: o bolchevismo que nascia era ocidental, e não especificamente russo. “Os bolcheviques”, diz ele, “não são o povo, nem sequer parte do povo”. São outra coisa, “algo estranho, estrangeiro, ocidental”. A Rússia de Spengler ainda estava por vir e viria não de fora, mas de dentro, de suas estranhas. E para esclarecer que Rússia é essa Spengler traça um paralelo entre Tolstoi e Dostoiévski. Dostoiévski é o representante legítimo da tradição russa, enquanto Tolstoi é o ocidental ilustrado, filho das reformas modernizantes de Pedro, o Grande, autor de extraordinários e muito bem escritos romances realistas, relacionado, segundo Spengler, a Marx, Zola e Ibsen. Já Dostoiévski não se relaciona com nada, exceto com os apóstolos. Com isto desagradou tanto aos revolucionários e aos conservadores que o leram em primeira mão. Mas isso não lhe importa nada: ser conservador ou ser revolucionário, aponta Spengler, são conceitos ocidentais, inaplicáveis à sua visão de mundo. Os russos, esse “povo sem cidades, que busca realizar sua forma própria de vida, sua própria religião, sua própria história futura”, esse povo é representado por Dostoiévski, e não por Tolstoi. É este povo que está preparando, gestando, algo novo, diferente, enquanto a velha Europa decai. “A alma russa está preparando uma terceira espécie de cristianismo, por enquanto sem sacerdotes, baseada no Evangelho de São João e muito mais próxima ao cristianismo mágico (isto é, árabe) que ao fáustico”. E vaticina, em mais uma de suas frases com tom de profecia: “O cristianismo de Dostoiévski é o do próximo milênio”. Neste momento histórico em que a Rússia de Putin reaparece no cenário internacional estas palavras ganham um significado especial. Nossa leitura de Spengler em 2014 não pode desconsiderar isto – do contrário, sequer será leitura.

Convém entretanto não petrificarmos a poesia de Spengler, buscando nela previsões definitivas: assim, deixará de ser poesia e de inspirar, até hoje, quase um milênio depois de publicada, a tantos pensadores do mundo. Da “Nova Direita” francesa de Alain de Benoist ao novo nacionalismo russo de Alexander Dugin, passando por anti-colonialistas latino-americanos e revolucionários do mundo islâmico, ela segue, multifacetada, aberta a releituras e a ressignificações – como toda boa poesia – expandindo a mente e os horizontes de muitos. Como dissemos, infelizmente ainda não podemos lê-la toda em português – o que já é, também, uma convocação para uma editora, talvez a própria Forense, traduzi-la por completo (uma boa sugestão, em idioma próximo, é a espanhola assinada por ninguém menos do que Manuel Garcia Morente) e brindar o leitor brasileiro com a poesia de Spengler. Ao menos sua poesia pode ainda emocionar. Ainda mais em anos de decisão, como estes em que vivemos.

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Um comentário sobre “Ler Oswald Spengler em 2014

  1. Li seu comentário sobre Spengler e gostei muito. Eu li o livro, quando ainda morava em Ribeirão Preto, há mais de 30 anos , e agora, lendo seu comentário achei coisas diferentes daquilo que eu pensava sobre ele. Mas as coisas são assim mesmo. Eu sempre achei que ele fosse um gênio da história, mas agora vejo que não foi tudo isso. Ainda vou reler o Decadência do Ocidente e depois procurar coisas de Arnold Toynby para me inteirar mais sobre o assunto.
    De Norival Marietto, de Bragança Paulista

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    Publicado por Norival Marietto | 5 de março de 2017, 23:02

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