Literatura

150 anos de Miguel de Unamuno

Em artigo publicado no jornal argentino La Nación em 1922, o italiano Giovani Papini colocava o escritor espanhol Miguel de Unamuno em companhia ilustre. Para ele, o autor de “Vida de Dom Quixote e Sancho” era para seu país o mesmo que Fichte, na Alemanha, e Carlyle, na Grã-Bretanha: um verdadeiro “apóstolo espiritual” de sua pátria. Papini era um admirador de Unamuno de longa data. Já havia publicado artigo em sua revista, Il Leonardo, acerca do mesmo “Vida de Dom Quixote e Sancho”, colocando-o como o principal sacerdote da religião de Dom Quixote – da qual ele, Papini, se declarava um fervoroso fiel – e um dos principais nomes do pensamento europeu daquele momento.

Tudo isto disse um entusiasmado Papini naquele momento. E foi com entuasimo semelhante que hoje, 30 de setembro de 2014, quando se comemora os 150 anos de nascimento do grande escritor, muitos jornais de língua espanhola disseram algo parecido de Unamuno. “Um mestre”, “pensador chave”, “nome de maior altura filosófica”, “paradigma de intelectual comprometido”, entre tantos outros elogios distintos que têm em comum o fato de colocarem-no em cima de um púlpito, a falar às multidões lá embaixo. Há muitos elogios a se fazer a Unamuno. Foi precursor do existencialismo, foi leitor de Kierkegaard de primeira hora (leu-o em dinamarquês), foi talvez mesmo, como disse Borges, o maior escritor em língua espanhola de seu tempo. Mas os elogios de mestre, sacerdote e apóstolo espiritual, proferidos por Papini há quase um século, e muitos outros há quase uma semana, ele dificilmente os merece.

Não me é fácil dizer que Unamuno não merece algum elogio. Para mim, a obra de don Miguel faz parte daquele grupo seleto de autores que levamos para toda a vida em nosso cânone pessoal. Soube disso logo que tomei contato com ela, ao entrar na universidade, através das obras completas da Escelicer, cujos nove volumes tomei emprestado diversas vezes. Li todos os seus principais livros –  “Del sentimiento trágico de la vida”, “Vida de Don Quijote y Sancho”, “La agonía del cristianismo”, “Paz en la guerra”, “Niebla” – e também seus textos jornalísticos, seus diários de juventude, seus relatos de viagem (“Por tierras de Portugal y España” segue sendo o melhor livro de viagens que li até hoje) e suas páginas de crítica literária. Aprendi muito de todos eles: aprendi, inclusive, o idioma castelhano, que Unamuno manejava como ninguém, e através dele conheci outros nomes do pensamento e das letras hispânicas que foram objeto de sua mirada, ora crítica, ora simpática. E sobretudo tornei-me um interessado no seu tema central, o da agonia do homem (no sentido original, do grego “agon”, “luta”), da luta entre a razão e a vida na busca pela imortalidade. Devo muito a Unamuno para negar-lhe os benefícios dos elogios. Mas sou obrigado a tal: não vejo neste homem de quem tanto aprendi um líder espiritual, sacerdote ou qualquer outro destes títulos.

Comigo parece concordar o grande Julián Marías, um dos maiores pensadores espanhóis do século passado e autor de um excelente ensaio sobre Unamuno, para quem ele ” no era sólo un genial escritor, un intelectual, un profesor de lengua griega en Salamanca, sino, ante todo, una persona, un hombre de esos con los que es forzoso contar, que están ahí viendo las cosas y hablándonos de ellas, sobre todo, viviéndolas con los demás”. Algo natural, para quem, como ele, só entendia o “hombre de carne y hueso” e não as coletividades abstratas, as massas e os públicos lá debaixo do palco.

Por isso, ainda que reitor da Universidade da Salamanca, ainda que professor de filologia, durante décadas, ainda que intelectual autorizado, a verdade é que o pulpito não caia bem a Unamuno e o papel de grande mestre nacional não lhe servia. Servia, claro, a Fichte, o homem que subia em caixotes de madeira diante do povo para pronunciar seus discursos à nação alemã. Servia, também, a Carlyle, que sempre se imaginou um reformador social. Estes foram educadores, sacerdotes, homens de púlpito. O papel de educador da nação espanhola não coube a Unamuno. Este papel seria assumido poucos anos depois por José Ortega y Gasset, que viria a ser um dos maiores responsáveis pela definitiva integração da Espanha à cultura europeia. Filósofo, professor de Metafísica da Universidade de Madrid e jornalista militante, Ortega foi um grande renovador do ambiente cultural peninsular (e também latinoamericano) com as principais novidades em ciências humanas daquele tempo, das quais a sua “Revista de Occidente” foi um autorizado veículo e seus ensaios, escritos num estilo elegantíssimo, atraíam todo tipo de leitor culto, especialista ou não, para o mundo do pensamento. Não é certo colocar os dois lado a lado. Unamuno deplorava o que classificava como “pedanterias kantianas” de Ortega. Este, como a confirmar o que dele pensava Unamuno, disse que não dominava o castelhano como um nativo pelo fato de ser vasco e que por isso seu texto tinha defeitos de estilo de quem aprendeu o idioma, e não o sentiu desde cedo – um grave e absurdo insulto. E quando Ortega assumiu, em 1910, a cadeira de metafísica, Unamuno felicitou-o da seguinte forma, que tudo revela de si mesmo: “A Pepe Ortega dale la enhorabuena y dile que si no le escribo directamente es porque no tengo nada objetivo que decirle, y no quiero molestarle con mis arbitrariedades y querellas. Que Dios, el Dios del engaño, le dé luces y fuerzas para engañar a sus discípulos con la filosofía e infundirles la suprema ilusión”. Estas, definitivamente, não são palavras de quem se imagina um educador de um povo.

Por isso, em carta de resposta ao seu admirador Papini, Unamuno saúda a simpatia do italiano da seguinte forma: “Hay una red invisible que une a todos los solitarios que desparramados por el mundo vamos en busca del sobre-mundo, de otra vida con raíces en la eternidad y copa en el infinito. Siento en torno mío voces lejanas de hermanos ignorados; el cielo de este princípio de siglo está preñado de aurora”. Como poucos soube colocar-se junto ao leitor – não pelo expediente mais fácil, que seria o de simplificar sua linguagem para chegar ao nivel do leitor médio, mas sim, de outra forma, superior: considerar  que ele e o leitor, sendo homens, são seres em luta, em busca da imortalidade, em verdade companheiros de caminho, o que está consubstanciado no seu belo prologo da “Vida de Don Quijote y Sancho”, que emociona a qualquer um:

“Te consume, mi pobre amigo, una fiebre incesante, una sed de océanos insondables y sin riberas, un hambre de universos, y la morriña de la eternidad. Sufres de la razón. Y no sabes lo que quieres. Y ahora, ahora quieres ir al sepulcro del Caballero de la Locura y deshacerte allí en lágrimas, consumirte en fiebre, morir de sed de océanos, de hambre de universos, de morriña de eternidad.

Ponte en marcha, solo. Todos los demás solitarios irán a tu lado, aunque no los veas. Cada cual creerá ir solo, pero formaréis batallón sagrado: el batallón de la santa e inacabable cruzada.”

Unamuno, o reitor, professor, jornalista, escritor, mestre, gênio, caminhou ao nosso lado e para cada um de nós dirigiu suas tonitroantes palavras em meio à caminhada que empreendemos. E é por falar a cada um dos que tiveram a sorte de o lerem que a razão principal de sua permanência entre nós hoje, quando completaria seus 150 anos.

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