Política

Uma noite de julho

Se há uma palavra que define bem os primeiros tempos de retorno à democracia no Brasil é a palavra “excesso”. Excesso em todos os campos e em todos os sentidos: excesso de sentimentos represados, recalcados, amarrados por uma corda que, quando arrebentasse, liberaria algo de muito grande – um grande líder popular, uma grande mudança para o país ou um grande fracasso. Assim como o prisioneiro que, tendo passado anos atrás das grades,  quer de todas as formas recuperar o tempo perdido quando se vê livre, aqueles cuja juventude e vida adulta transcorreram sob o olhar arrogante dos militares aproveitaram as recém-conquistadas garantias da Constituição apelidada “Cidadã” com ânsia de jovem recém-liberto. Todas as demandas tinham de ser imediatamente atendidas; todas as liberdades, protegidas; toda autoridade, em princípio questionada; toda manifestação de pensamento ou opinião, admitida. Um estado de espírito até certo ponto natural para o país que havia acabado de sair de um dos mais longos períodos ditatoriais da America Latina.

É preciso ter em conta este estado de espírito – verdadeiro espírito de época – ao dirigirmos olhar para aquela noite de 17 de julho de 1989, quando onze candidatos a presidente da República compareceram à Rede Bandeirantes, em São Paulo, para travar o primeiro debate eleitoral da história do Brasil. Sim, porque eram onze de treze convidados, e treze de trinta e quatro candidatos inscritos para concorrer, de todos os partidos e tendências conhecidas. Os não-convidados estão, com exceção de Fernando Gabeira, candidato do PV, e Enéas Carneiro, candidato do PRONA, esquecidos pela população. Já as outras duas faltas tinham muito peso. Uma foi a de Ulisses Guimarães, do PMDB, uma das mais importantes vozes de oposição ao regime militar, figura respeitada em todos os campos da situação e da oposição. A outra, Fernando Collor, era nada menos que o líder das pesquisas. Os onze presentes àquele momento histórico foram Mário Covas (PSDB), Leonel Brizola (PDT), Lula (PT), Paulo Maluf (PDS), Afonso Camargo (PTB), Aureliano Chaves (PFL), Ronaldo Caiado (PSD), Guilherme Afif Domingues (PL) e Roberto Freire (PCB). Três inequivocamente de esquerda: Brizola, Lula e Freire. Um de centro-esquerda, Mário Covas. Dois de centro-direita, Afif Domingues e Afonso Camargo. E três de  direita explícita: Aureliano Chaves,  Ronaldo Caiado e Paulo Maluf. Uma leve vantagem numérica para o lado esquerdo do time, compensada pelo imenso peso político e histórico dos seus representantes, superior aos do lado direito.

Naquela noite de julho,  o comando da mesa ficou a cargo de Marília Gabriela, escolhida para a difícil tarefa de entrar para aa história como a primeira mediadora de debates da história do país. Sem ter nenhum modelo anterior para basear-se e com a constante rebeldia dos escoladíssimos convidados, todos políticos calejados, malandros e bons oradores, Marília teve uma tarefa difícil. Afinal, tudo era novo. Também por isso, assistir ao programa agora, vinte e cinco anos depois, é uma experiência reveladora em vários níveis. Para nós, acostumados aos debates com regulamento rígido, microfones cortados e tempo cronometrado à risca, é impressionante ver as mudanças súbitas de regras, os apartes concedidos (algo típico de oradores), o clima geral de informalidade, a longuíssima duração – mais de três horas – e, mais do que tudo, a atuação dos seus participantes.

Atuação que causa surpresas. Vemos, por exemplo, Paulo Maluf abrir a possibilidade de não-pagamento da dívida externa, a 2h42min – algo impensável para um político supostamente liberal – e Leonel Brizola, justo ele, negar peremptoriamente esta possibilidade sob o liberalíssimo argumento de que há contratos a cumprir, a 43:20. Vemos um Lula que contraria a imagem que muitos tinham dele: tão preparado , articulado e inteligente quanto hoje, e com um discurso conciliatório entre as diversas correntes de esquerda e o establishment. No entanto, o Lula de 1989 ainda defendia, – quase ao mesmo modo de Maluf, diga-se – a suspensão do pagamento da dívida externa, a 12:40, bem como a renegociação da dívida pública. E quando perguntado por Covas sobre as regras para a presença do capital estrangeiro, a 18:30, respondeu claramente e com maturidade. E surpreende por um impressionante “liberalismo” ao dizer , a 1h:59:10, que o papel do estado não é o de se meter mas sim de aceitar que livremente o movimento sindical possa estabelecer negociação coletiva com a classe empresarial – pelo que foi criticado asperamente por Roberto Freire logo em seguida, que, como comunista, era contrário à livre negociação de salários.

Freire, aliás, fazia o difícil papel de defensor do comunismo em plena desagregação da URSS. Capitalismo e comunismo ainda eram tema de discussão naqueles tempos e Freire foi duramente fustigado pelo então jovem André Singer acerca da estabilidade do emprego na URSS, a 2h29. Freire responde que isso é uma questão da URSS e que o Brasil terá o seu próprio caminho para a construção do socialismo  – e ele deixa claro a 3ho8 que é isso que deseja. Sobre o tema, Brizola se pronuncia a 1h48min, dizendo que o Brasil precisa de um choque interésse publico – de soberania e consciencia nacional – e que está sob o dominio do capitalismo selvagem.

A direita também falou, nos seus mais variados matizes. Afonso Camargo teve participação tímida e Aureliano Chaves, na dificílima condição de ex-vice do general Figueiredo,  parecia travado. Já Ronaldo Caiado, líder da bancada ruralista, fala a 14min em diminuir o Estado e defende o interesse dos grandes produtores a todo momento, como a 1h38 – que, naquela época, eram alvo preferencial do MST, atuando com toda a força. Mas nenhum discurso dos direitistas foi tão coerente quando o de Guilherme Afif Domingos. Ex-presidente da associação comercial de São Paulo, Afif já discutia, cinco anos antes de Bresser Pereira, a 15 minutos, a reforma administrativa e enxugamento de ministérios, e expunha, a 1h33min, o discuso liberal clássico sobre a inflação. Sem fazer referências a exemplos externos com pouco a ver com a realidade brasileira (Maluf incorreu nesse erro), com retórica consistente sem ser excessivamente técnica, didático e claro, Afif desempenhou muito bem o papel de defender de uma linha de pensamento que, lamentavelmente, nunca conseguiu ter muito espaço no panorama político brasileiro: a liberal clássica.

No meio disto tudo, um tema comum: a inflação. Mário Covas, a 7 minutos, apontando o óbvio: que a crise inflacionária era o primeiro passo e problema a ser enfrentado. Maluf fala a mesma coisa, a 49:10. Já Brizola, perguntado sobre o tema, fala, a 1h34:40, opina que a causa da inflação são as perdas internacionais, clássico discurso dos trabalhistas.

As regras do debate são alvo de discussão a 1h:20: Covas e Marilia Gabriela discutem sobre a má aplicação delas. São numerosos os apartes, o tempo estourado que os candidatos não respeitam, a confusão geral, o que acaba gerando, a 2h:01min:30, a necessidade de o diretor geral de jornalismo da emissora, José Paulo de Andrade, afirmar que esses problemas ocorrem porque, afinal de contas, este é o primeiro encontro de presidenciais da história do Brasil.

E Brizola soube aproveitar-se como nenhum outro destas falhas de organização. A 1:51:20, fala sobre a necessidade de um “salariaço” e pede um aparte a 1h54:35 para discorrer sobre o crescimento econômico e aproveitar para atacar o seu inimigo de sempre a 1h56:20: Roberto Marinho, então presidente das organizações Globo. Não contente, ainda se indispôs com Ronaldo Caiado, a 2h20:30,falando sobre os grandes industriais e capitalistas que receberam concessões de terra na ditadura. Este lhe responde lembrando, a 2h23min, das propriedades de Brizola no Uruguai. Por isso, Brizola ganha, a 2h24, o direito a responder a afirmação. Ali, neste momento, é muito provável que tenha surgido o instituto do direito de resposta, que então não estava previsto.

Um nome a se destacar é o de Mário Covas. Tem um discurso muito coerente com o PSDB, que nascia naquele momento. A 1h:46, respondendo a Fernando Mitre, Covas dá as linhas do discurso social-democrata do partido: se temos um capitalismo o façamos de maneira que a maioria do povo brasileiro seja dele beneficiário. E lança, a 1h:47:15, o discurso que viria a se tornar anátema: o de que o PSDB era a favor de privatizar alguns setores. Termina sua participação a 2h51:35, dizendo que tem orgulho de ser político e que é possível, sim, ser um político honesto no Brasil. Por fim, Ulisses Guimaraes não foi uma figura esquecida: A 2:54:20, Brizola lamenta a sua falta, que teria enriquecido e muito o debate. E é profético com Collor.

A eleição teve participação entusiasmada da população: votos brancos e nulos somaram, juntos, em torno de 5%, grande parte dos quais pode ser creditados aos erros ao escrever seu voto na cédula, algo bastante comum naqueles tempos pré-urna eletrônica. Tudo isso fruto daquele “ excesso de sentimentos represados, recalcados, amarrados por uma corda que, quando arrebentasse, liberaria algo de muito grande – um grande líder popular, uma grande mudança para o país ou um grande fracasso”. No caso, foram as três coisas juntas, consubstanciadas na figura de Fernando Collor, o caçador de marajás que fazia promessas mirabolantes sem nunca ter sido testado nas urnas e acabou terminando seu governo de forma melancólica dois anos depois.

Uma comparação com o momento atual se impõe. Temas muito presentes hoje, como a violência urbana, estão surpreendentemente ausentes naquele momento, assim como a legalização das drogas, ações afirmativas e políticas ligadas ao público GLS. O único momento em que temos desta natureza aparecem está a 29:45, quando Maluf pergunta sobre a legalização do aborto para Covas, lembrando que é uma pergunta diferente de todas as demais. Covas responde de maneira franca: contra. Trata-o junto a temas como pena de morte, intitulando “tema de natureza existencial” e que, como qualquer um destes temas, só pode ser tratado por plebiscito. A resposta de Covas merece especial atenção por abrir uma nova via de interpretação desta questão tão maltratada pelo debate público, indo além da já clássica disputa “direito sobre o corpo da mulher” x “minha religião não permite”, refinando-a e elevando-a a outro patamar. Este momento de Covas serve para mostrar bem a distância que nos separa, hoje, daquela noite de 17 de julho de 1989.O Brasil democrático nascia, em 1988, como a maior democracia do Ocidente, dando voz a 100 milhões de eleitores. Naquela noite de julho, quando Mário Covas, Leonel Brizola, Lula , Roberto Freire, Paulo Maluf, Afonso Camargo , Aureliano Chaves  Ronaldo Caiado e Guilherme Afif Domingues sentaram lado a lado,  parecia nascer também como a melhor.

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