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Ciências Humanas, Cultura, Política

Dando nome aos ‘progres’

Miguel de Unamuno era um grande defensor do intercâmbio entre as nações ibéricas. Contrariando a tendência dominante em Espanha naquela época, convidava o leitor espanhol a estudar Portugal e a língua portuguesa, não para buscar algo novo e diferente, mas para conhecer algo melhor de si mesmo. No campo linguistico, o estudo do português – dizia-nos Unamuno – seria capaz de perfeccionar o próprio uso do idioma castelhano por parte dos espanhóis, pois iria revelar-lhes novas maneiras de usar expressões e enriquecer-lhes o vocabulário. Dizia ele que “en el portugués encontraremos rincones y recovecos de nuestro idioma que no los descubrimos directamente. Aprender portugués es un buen recurso para enriquecer nuestro castellano”. A atitude de Unamuno estava fincada na sua firme crença de que a Ibéria era, na verdade, uma e só cultura com duas faces – a portuguesa e a espanhola – e que cabia a um lado conhecer melhor o outro.

Compartilhando, como compartilhamos, da atitude de Unamuno, fomos à Espanha fazer o caminho contrário, mas com o mesmo espírito: em busca de enriquecimento, de conhecer o outro lado, de buscar “rincones y recovecos”. E voltamos, desta vez, com uma palavra nova, que, acreditamos, será de imensa valia para os brasileiros,  sobretudo nestes tempos em que correm: a palavra “progre”.

Antes de mais nada, quero dizer que, embora seja um entusiasta da relação intercultural, sou um crítico da incorporação desmedida de palavras e expressões com equivalentes em português, mesmo em se tratando das de uma língua irmã como o castelhano. O enriquecimento de que fala Unamuno, e do qual falo aqui, só pode existir quando a incorporação é de uma palavra nova. E este é, precisamente, o caso de “progre”.

Que significa, então, esta curiosa expressão? Importa antes de tudo dizer que ela é relativamente nova: seu surgimento é localizado nos últimos anos do franquismo, e fazia referência aos jovens de classe média e classe média alta com simpatias por certos tópicos, como o comunismo cubano, Che Guevara, maio de 68, uma sociedade mais justa, mais igualitária e menos preconceituosa. Tudo isso, é claro, mais no discurso do que na prática. Como sói acontecer a essas expressões populares, trata-se de uma contração: da palavra “progressista”, entendida aqui no seu sentido político do termo, isto é, como quase sinônimo de “esquerda”. Progressista é aquele que acredita no progresso da História e seu inimigo é o “reacionário”, que se opõe a esse progresso. Progressistas são Lula e Dilma, Lenin e Trotsky, Olof Palme e Willy Brandt, cada um à sua maneira, mas todos sem a menor dúvida progressistas.

Sendo contração, ocorre aqui uma redução do sentido original da palavra progressista. O progre não é um progressista como os outros. Ela acredita, de certa forma, no progresso da história, numa sociedade “melhor”, num mundo “melhor”, mas não possui o mesmo discurso da esquerda mais antiga e não adota os mesmos canais de comunicação desta. Não tem muito interesse na organização quase militaresca dos antigos partidos comunistas, nem no estilo de vida difundido pela antiga URSS. Muitas vezes nem mesmo é marxista. Em alguns casos, é até mesmo anti-marxista.  A expressão que mais próxima temos no Brasil é “esquerda caviar”, mas não serve exatamente. O esquerdista caviar médio (assim como o progre dos anos 70 da Espanha) pode gostar de luxo, mas defende Cuba, a URSS e outros países, mesmo que da boca para fora.  Já o progre moderno nem sempre o faz. “A los jóvenes de ahora no les interesa la política de los partidos, que con su estructura y burocracia son entidades cerradas. Se sienten más satisfechos y encuentran más gratificaciones en otro tipo de plataformas, como las ONG, las redes sociales, donde creen que su acción acaba siendo más efectiva”, indica Julián Santamaría, professor de Ciencia Política da Universidad Complutense de Madrid.

Tão difundida está essa palavra em Espanha que mereceu até mesmo um verbete na última edição do prestigiado dicionário da Real Academia Espanhola. Em artigo dedicado ao tema, Piergiorgio M. Sandri aponta que “las nuevas generaciones se parecen poco al progre de la transición. Aunque puedan haber heredado su antiguo espíritu de lucha, sus reivindaciones ahora se centran en otros temas, como el ecologismo, la igualdad, el pacifismo –esencias del nuevo progresismo– y se llevan a cabo a través de plataformas muy diferentes, más espontáneas y menos organizadas”. A estes temas poderíamos adicionar outros, como as ações afirmativas, o aborto, o casamento gay, a igualdade da mulher e outros. Questões estruturais de ordem econômica, que eram de primeiríssima ordem para os antigos socialistas, comunistas e social-democratas, ficam muitas vezes relegadas a segundo plano diante destas reinvidicações comunitárias, minoritárias e grupais dos progres.

O crítico espanhol Juan Manuel Prada aponta outra característica psicológica fundamental do “progre”:  “ser progre consiste en tener siempre razón, si la realidad te lleva la contraria, peor para la realidad”. É o que os ingleses, outro povo criador de excelentes expressões idiomáticas, chamam de “self-righteouness”. Não é difícil imaginar, assim, a atitude de hostilidade de muitos esquerdistas da antiga – além, é claro, dos direitistas em geral – , criados no velho discurso marxista-leninista. Um exemplo da própria Espanha é Julio Anguita, ex-secretário-geral do PCE, ex-prefeito de Córdoba e uma das mais respeitadas lideranças políticas da esquerda espanhola, que disse, para quem quisesse ouvir: “yo soy rojo, no progre. Si quiere insultarme llámeme progre”. E para diferenciar do progressimo, ao qual ele adere, Anguita criou um novo adjetivo, a “progresia”, para definir a atividade dos progres. “La progresía es, ni más ni menos, el sumidero por donde se han ido las ideas de la izquierda. La progresía es quedarse en la reforma de una serie de aspectos sociales, como los matrimonios homosexuales o las medidas de discriminación positiva de la mujer, mientras que se deja intacta una realidad económica injusta” . A definição de Anguita parece plenamente de acordo com o credo marxista que ele professa, e serve para quem quiser entender bem o fenômeno.

A adoção do termo entre nós ajudará, e muito, a qualificar o nosso reconhecidamente desqualificado debate político. Dentro do rótulo de “esquerda” os brasileiros costumam aglomerar, indistintamente, leninistas, trotskystas, social-democratas, liberais de esquerda e anarquistas, como se todos fossem a mesma coisa. Com esse aporte vindo diretamente da banda hispânica do nosso mundo ibérico, passaremos a identificar uma força que, mais do que simplesmente existir entre nós, tem grande relevância em vários partidos e na condução das políticas públicas do país.

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