Literatura, Livros

Almoços com C.S. Lewis

Quem abre Conversando com C.S. Lewis (editora Pórtico, tradução de Sandra Martha Dolinsky) pensando que irá encontrar, como o título sugere, uma longa entrevista com o autor de Crônicas de Nárnia sairá decepcionado: nas 223 páginas que compõem o volume a voz de Lewis aparece poucas vezes e sempre entre aspas em trechos cuidadosamente escolhidos pelo autor, Alistar McGrath, professor de teologia em Cambridge. E digo decepcionado em mais de um sentido. Em geral, quem busca obras compostas por longas entrevistas com um autor, artista ou cineasta é o aficcionado ou admirador de longa data, desejoso de descobrir novidades de sua vida pessoal ou da elaboração dos livros, obras de arte ou filmes que só podem sair da boca do admirado, após serem devidamente provocadas por um repórter inteligente. Não são livros, portanto, de introdução. E, no entanto, é exatamente isto que Conversando com C..S Lewis é: um livro para introduzir o leitor à obra de Lewis.

Porque, então, fala-se em “conversa” com C.S. Lewis? Na introdução, McGrath afirma que pretende organizar oito “almoços” imaginários, cada um com um tema específico, onde C.S. Lewis “aparece” através de suas ideias e obras. A conversa é, portanto, menos com o próprio Lewis do que com aquilo que ele disse e pensava. Nas palavras do próprio McGrath, o objetivo é “oferecer resumos precisos das ideias de Lewis, temperados com algumas de suas melhores frases e citações , para esboçar aos leitores sua maneira de pensar. Vamos explorar suas ideias, ver como podem funcionar e descobrir como podemos usá-las”. Ou seja, importa não apenas a obra ficcional e ensaística de Lewis, mas o uso prático de suas ideias na condução da vida das pessoas.

Assim, nos oito “almoços” organizados por McGrath verifica-se um evidente tom cristão. É natural: McGrath é um clérigo anglicano e C.S. Lewis, embora seja mais conhecido como autor de ficção, foi um dos maiores apologistas cristãos do mundo de língua inglesa no século XX, a par somente de G.K. Chesterton (de quem era, aliás, admirador) e seus livros com esta tônica, como “Cristianismo Puro e Simples” e “Reflexões sobre os Salmos”, são de vasta circulação entre cristãos de todas as denominações.

O foco do livro, no entanto, é Lewis e sua obra, que McGrath apresenta aos iniciantes com um tom de aula informal muito habilmente mantido em toda a obra, mesmo nos momentos em que aborda questões conceituais mais complexas. E, nesse interim, lança luz sobre pontos importantes da vida do autor que certamente agradarão ao público mais familiarizado com sua obra, como o Inklings (grupo de intelectuais britânicos com particular afeição pelas tradições inglesas e nórdicas), os detalhes de sua conversão ao cristianismo e a amizade com J.R.R Tolkien, a quem – descobrimos com a leitura – ele propôs para o Nobel de Literatura de 1961. No fim, um enriquecedor apêndice com uma biografia de Lewis e uma lista de indicações de leitura sobre cada um dos temas abordados nos “almoços” muito bem organizados e servidos por McGrath.

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