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Entrevista: Irmã Hiltgardis – ““O mundo de hoje entende que se deve apenas gozar a vida””


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Irmã Hiltgardis com ex-alunas do Colégio Maria Auxiliadora de Canoas/RS em foto de julho de  2014.

Poucos alunos do colégio Maria Auxiliadora em Canoas/RS desconfiam da origem do nome de irmã Hilgtardis. Sabendo que se trata de uma senhora alemã, imaginam que o nome, de difícil pronúncia para um falante de língua portuguesa, seja o seu original. Na verdade, como sói acontecer a tantos religiosos, trata-se de uma homenagem a outro religioso que lhe serve de inspiração. No caso, trata-se da monja beneditina Hildegard Von Bingen foi uma das mulheres mais importantes da história da Igreja Católica. Mulher de múltiplos talentos – além de mística e visionária, foi poetisa, exegeta, compositora, cientista e dramaturga -, passou para a história como um exemplo feminino de dedicação à Igreja e de desenvolvimento pessoal numa época em que isto dificilmente era franqueado às mulheres. Acaso ou não, tais talentos podem ser percebidos também nesta senhora alemã batizada com o nome de Magdalena Spielhoff,  nascida nos arredores de Dusseldorf e brasileira desde 1938, que demonstra, aos 99 anos – 39 dos quais dedicados ao colégio Maria Auxiliadora – , uma disposição invejável até para jovens, com uma memória impressionante ao relatar, em detalhes, acontecimentos da época do nazismo alemão, e uma rara lucidez ao analisar o mundo contemporâneo.

Entrevista realizada em dezembro de 2009.

A senhora é natural de onde?

Irmã Hiltgardis: Nasci numa cidadezinha próxima a Dusseldorf, na Alemanha no dia 23 de julho de 2015. Era uma região mais industrial, muito desenvolvida, onde havia fábricas muito importante e, inclusive, muitas das que fizeram as armas usadas na 1ª. e na 2ª. Guerra. Minha família vivia bem. Meus pais fizeram tudo para investir na nossa formação. Não gastávamos em coisas fúteis, em jóias, mas sim em longas viagens, em aulas de piano e nos livros que tínhamos em casa. Nada de ostentação. Meus pais nos educaram a evitar sempre a ostentação, o chamar a atenção. Por exemplo: nós tínhamos em casa edições belíssimas dos clássicos da literatura alemã –  Goethe Schiller e outro – mas a mãe não permitiu que eu os levasse para a aula. Acha que eu ia me exibir. Ela disse “tu tens dinheiro, mesada, compre a edição escolar”, que era uma edição mais barata. Quando crianças, tínhamos lápis e comprava-se um de papel dourado ou de papel simples. A mãe comprou o simples, mas eu queria dourado, como todas as crianças queriam (risos). Aí pedi para a minha vizinha trocar, ela trocou e me deu aquele de ouro. Cheguei em casa e fiz meus deveres com aquele dourado. Aí, ela disse “Magdalene – esse era meu nome antes de entrar para a vida religiosa -, que lápis é esse?”. Respondi: “Eu troquei com a Maria, minha colega”. Ela me exigiu que eu devolvesse e pedisse desculpas.

Era uma família católica?

IH: Sim, apesar de eu ser do norte da Alemanha, onde há mais protestantes, mas na nossa região especifica havia mais católicos. Estudei em colégios públicos nos primeiros anos e depois fui para o colégio de Santo Agostinho, um dos melhores da cidade, tinha observatório astronômico, tinha piscina de natação, era o melhor da cidade. Era uma educação ótima.

Como era o sistema de ensino alemão?

IH:  Na época, eram 4 anos de escola elementar, 6 anos de liceu e mais 4 anos de superior e só depois a faculdade. Depois desses anos, tínhamos uma banca e tínhamos que fazer exame oral, muito difícil e exigente. Vinha gente do governo para nos avaliar para validar os diplomas. Hoje é diferente, claro.

14 anos? Tudo isso?

IH: Sim. A formação era excelente. Mais tarde, quando fui estudar na PUC e na Unisinos e para mim era uma brincadeira. Foi muito fácil.Eu lia autores da época, os clássicos e outros, éramos examinados oralmente e precisávamos ler tudo. Lia Goethe, Schiller, Thomas Mann…………

E como surgiu a vocação religiosa?

IH: Com o meu amor pelo Brasil (risos). Eu explico. Eu, como jovem,queria ir para o Brasil de qualquer maneira. Conheci o Brasil pelos meus livros, pelo estudo, pela leitura. Vi as fotos no meu livro de geografia e fiquei impressionada com o Amazonas. Nunca me esqueci dessas imagens. Eu poderia ainda hoje pintar o Amazonas como eu o vi, pois ele nunca saiu e ele nunca sairá da minha cabeça. Eu não queria ir para a África, mas não quis porque não gostava de inglês. Mas eu nunca vi o Brasil tão bonito quanto no meu livro de geografia.

E então como a senhora veio?

IH: Através da congregação. Eu exigi que viesse para o Brasil e não para outro país. Vim em janeiro de 1938.

 

Época de grande migração alemã para cá…

IH: Sim, por causa da guerra. Nos da congregação éramos enviadas para cá para fugir de Hitler. Eu própria fui da Juventude Hitlerista.

A senhora fez parte da Juventude Hitlerista?

IH: Sim, por uns meses. Tinha 19 anos. Como eu tinha boa formação intelectual, fui guia, dava palestras para grupos. Só que numa palestra eu falei a palavra Deus, e me chamaram a atenção, porque diziam que não havia Deus e sim que Hitler era Deus. Cheguei em casa, contei para os meus e meu pai disse para eu sair daquele grupo, que não era para mim. Então meus pais me mandaram para a Itália para conhecer o país e eu o conheci de Norte a Sul.

E como era a vida na Alemanha de Hitler?  A senhora nasceu em 1915 e certamente pôde acompanhar a ascensão dele ao poder, os seus primeiros passos como governante……

IH: Sim, eu assisti a toda a ascensão de Hitler. Era uma loucura. Era idolatrado. Era um paranóico na terceira potência e nos corríamos atrás. Meu pai era opositor, como todos os alemães mais esclarecidos, e ficou muito triste quando soube que eu fazia parte da Juventude Hitlerista. Hoje eu sei calcular a dor que eu devo ter causado pro meu pai. Mas sabe como é, os jovens não medem certas coisas. Eu tinha uniforme de Hitler, marchava, fazia discursos.

Na verdade, o Hitler chegou ao poder por causa da situação miserável em que o país estava. Era uma situação de muita pobreza. A mãe me contou que, durante a 1ª. Guerra, ela chorava porque não tinha o que dar para as crianças. A fome na Alemanha na 1ª. Guerra era terrível. Até o país se erguer levou muito tempo. Estávamos cegos pelas desgraças pelas quais o país passou, a humilhação, a fome, a miséria. Por isso queríamos um salvador, e ele não foi um salvador, foi um paranóico.

Eu saí em 1938, portanto não vi a ruína total da Alemanha. Mas fiquei sabendo pelas cartas dos meus pais que eles passaram fome, tanto que mandávamos comida para eles do Brasil. Eu nunca vi pobreza em casa, tínhamos uma boa condição financeira, mas os meus pais que ficaram lá sofreram muito. Meus pais nunca vieram me ver aqui.  Um irmão meu faleceu na guerra, na Rússia. Outro veio me visitar mais tarde, quando esteve no Paraguai. Mas foi um período terrível.

Como era a relação entre os judeus e os alemães na sua cidade,?

 

IH: Era normal. Os católicos, os protestantes e os judeus viviam juntos. A nossa família tinha uma família amiga de judeus que tinha uma grande casa comercial. E nesta casa a minha mãe era gerente. Não havia qualquer problema. Em casa eu nunca vi nada parecido com antissemitismo, racismo, nada.

Como lhe pareceu o Brasil de 1938, vindo a senhora de um país central da cultura européia?

IH: Eu achei muito pobre. Até pela própria vida conventual, que era muito restrita. Quando vim, fui para Passo Fundo e passava os dias no convento, até porque não havia por lá grandes coisas fora dele, era uma cidade pequena. Aqui no Rio Grande eu senti muita influência alemã e isso me impressionou. Eu achei que fosse mais luso-brasileiro, não imaginei que tivesse tantos alemães no Sul do Brasil, cidades com traços alemães, gente falando dialetos rurais alemães. Pensei que fosse como o Rio de Janeiro (risos).

E quando visitou Porto Alegre, gostou?

IH: Sim, muito. Eu era professora de história da arte então ia para lá com freqüência levar os alunos. O Museu de Arte da Cidade está no mesmo patamar dos melhores da Alemanha, não fica atrás. Mais tarde, fui à capital estudar, fiz Teologia na PUCRS.

Quando chegou a Canoas?

 

Em 1960. 22 anos depois de ter chegado ao Brasil.

OT:E o como lhe pareceu Canoas?

Muito simples. As ruas ainda tinham barro, nem tinha calçamento. Mas não era problema, porque eu podia ir para Porto Alegre com mais freqüência.

Onde a senhora aprendeu português?

IH: Na Alemanha, aprendi um pouco, mas aprendi mesmo foi aqui na convivência. Hoje isso já não é permitido. Eu aprendi conversando. E falo francês, isso me ajudou muito porque é um idioma de origem latina.

E o que lhe pareceu o idioma? Ouço muito os estrangeiros falarem da nossa pronuncia como algo musical….

Ah, sim, sem dúvida, é muito sonora. O alemão é mais duro, não é tão melodioso. Mas eu gosto muito da língua portuguesa, mas ainda tenho alguns problemas, o que é natural para quem a aprende de maneira não-sistemática, como foi o meu caso. Ainda hoje, quando faço traduções de livros alemães para o português, preciso que uma aluna me venha corrigir.

E que livros a senhora traduziu?

 

Livros da nossa congregação, dos Notre Dame. Eu procuro sempre trabalhar em algo, mesmo que já não dê aulas.

Deu aulas até quando?

 

IH: Até os meus 84 anos. Em 1999.

Quais disciplinas?

 

IH: Fui professora de História da Arte, de Francês e de outras disciplinas, incluindo religião. Nunca usei aqueles livros de religião que nos davam. São chatos e de má qualidade. Nenhum aluno vai se interessar por aquilo. Então costumava trazer temas atuais, dos jornais, para relacionar com a matéria dada em aula. Sempre funcionou melhor.

De que maneira a senhora viu as mudanças na educação durante todo esse tempo?

 

IH: Eu tenho a impressão de que é mais superficial. Os professores não são mais tão interessados em ajudar, em querer saber mais. Pode ser que eu me engane, mas a impressão que tenho é essa. Penso que o ensino era melhor, que era mais profundo e tocava o essencial.

E a vida religiosa? As vocações? Nota alguma diferença?

IH: Sim, muita. Antigamente, as famílias tinhas 7 ou 8 filhos e acabava sobrando para a vida religiosa, um ia ser padre. Hoje as famílias são menores, são menos filhos . E o mundo de hoje não favorece esse tipo de coisa. O mundo de hoje entende que se deve apenas gozar a vida e não se abster dela, o que é um dos centros da vida religiosa. Isso se nota de modo geral, não só aqui, na Europa também. Eu tenho contato com os conventos e eles têm lá também dificuldade de renovação.

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Discussão

Um comentário sobre “Entrevista: Irmã Hiltgardis – ““O mundo de hoje entende que se deve apenas gozar a vida””

  1. Irmã Hiltgardis exemplo de modernidade, dignidade, perseverança, caráter…..nossa irei listar muitos adjetivos…..adoro essa amiga querida……em que ainda hoje temos o previlégio de conviver !!!!

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por Margaret Kazali | 7 de março de 2015, 23:13

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