Ciências Humanas, Entrevistas

Irmão Norberto Luís Nesello: ““Toda escola precisa de alunos que queiram estudar, uma instituição bem preparada e pais para auxiliar”

O Blog Perspectiva passa, a partir de hoje, a publicar uma entrevista todas as sextas-feiras com personalidades ligadas, de alguma forma, aos temas por nós abordados. Para dar início a esta série, escolhemos o professor do Unilasalle, Irmão Norberto Luís Nesello, que há sete décadas – sim, sete décadas – dá aulas na instituição, primeiro no colégio La Salle e depois na Universidade criada em 1998. A entrevista foi realizada na sala de estudos de Irmão Norberto, no Unilasalle, em novembro de 2009. 

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O sarape é a roupa típica usada pelos camponeses da Guatemala. Nossa primeira reação é a de confundi-lo com o poncho que nós, gaúchos, tão bem conhecemos. Foi o que aconteceu quando avistamos irmão Norberto Luís Nesello nas escadarias da capela do La Salle, caminhando na nossa direção para realizarmos a entrevista. Informados de que não se tratava da típica vestimenta gaúcha, estranhamos: o que um legítimo gringo do Norte do Rio Grande do Sul, alto, com as maneiras típicas dos italianos, fazia vestido dessa maneira? Explicou-nos o irmão Norberto que era recordação de uma de suas muitas viagens por este mundo afora: este gaúcho de 81 anos, natural de Marcelino Ramos, já esteve em praticamente todos os lugares onde os irmãos lassalistas passaram, seja em missões, em viagens de estudo ou para dar palestras. Leitor de Camões, Machado de Assis e Santo Agostinho, quando lhe perguntamos sobre outros autores de que tenha gostado ele diz que não costuma ler muitos outros, pois não devemos ler livros bons. E por quê? “Só devemos ler os ótimos, porque a vida é curta”.

O senhor é natural de onde?

De Marcelino Ramos. Na divisa com Santa Catarina, nas margens do Uruguai. Eu sou de origem italiana, mas era uma região com muitas etnias, alemãs, italianas, poloneses, afros. Passei a infância por lá, em uma localidade chamada Rio Quinto, mas viajei por muitas partes do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, sempre fui uma espécie de cigano. Meus avós eram italianos. Desde pequeno falava o dialeto italiano daquela região, era o dialeto que falávamos em casa. Quando cheguei aqui não falava bem português.

Isso era comum e um problema para alguns religiosos de origem italiana ou alemã, não é?

Sim, e mesmo alguns depois da vida religiosa conservavam um sotaque forte e tinham grandes dificuldades em falar português. Mas eu já falava algo, porque estudei em Santa Catarina, num colégio de freiras. Só vim para cá em 1941. Quando cheguei, tive um problema nos olhos, acho que era tracoma, que chegou a me deixar cego, mas melhorei. Então fiz o ginásio e tive que esperar a idade canônica para começar o noviciado, que era os 16 anos. Fiz o noviciado no colégio Santo Antonio Em 1946, tive um problema de pulmão e fui considerado um candidato à morte. Não existia penicilina, não havia os tratamentos que há hoje, mas consegui me salvar. Em 1950, comecei a lecionar no Externato São Luiz como alfabetizador. E o irmão Fidelis também, grande companheiro, de quem o Jorge Uequed gostava muito. Aliás, lembro-me muito bem dos irmãos Uequed, do Jorge, do Omar e do Paulo, dei aula para eles todos. Comecei a lecionar como alfabetizador, fiz isso por dois anos. Depois fui secretário do colégio, e fui dando aulas até o 3º. Científico. Dava Língua Portuguesa, Francês e Geografia. Dei aulas depois no Magistério, no Científico, até o ano de 1966. Em 1967, o irmão provincial me mandou para carazinho para assumir a direção de um setor do nosso seminário. Fiquei três anos. Fiz faculdade entre 1973 e 1977, em Letras. Fiz pós em língua e literatura portuguesa, na Unisinos. Em 1992, tive a chance de ir à Guatemala, onde conheci o irmão Álvaro Rodriguez Echeverría, e me impressionou o conhecimento, a capacidade, a santidade do professor. Aí em 1995 fui para Roma fazer um curso. Conheci toda a Itália, inclusive a terra dos meus avós. Depois fui fazer mestrado.

O senhor chegou a Canoas em 1942. Foi a primeira vez que o senhor saiu da sua terra?

Não, como eu disse, eu sempre fui um pouco cigano. Já tinha conhecido Santa Catarina, algumas cidades vizinhas e já tinha até andado de automóvel, o que, para um menino daquela época e daquele lugar de onde eu vinha, era um luxo.

E como Canoas pareceu ao senhor logo que chegou?

Era pequenininha. A única grande impressão que eu tenho era, quando vínhamos da estação Augusto Pestana, próxima ao Laçador, pegamos um ônibus e vimos a torre da Igreja Iluminada. Chegamos aqui num sábado.

Vindo para Canoas, o senhor notou muita diferença de onde vinha?

A única cidade com um certo porte que eu conhecia era Joaçaba. Nós, como internos, não tínhamos muito conhecimento sobre a cidade, só dávamos um passeio pela cidade algumas vezes… a única estrada calçada era a Victor Barreto… a estrada de cimento que vinha desde Porto Alegre até São Leopoldo. Havia poucas casas. A cidade terminava ali na Barcelos e ali pelo lado da Federal. Poucas casas além disso. Lembro da construção da BR-116 – que era conhecida como a Estrada da Tropa, por causa da passagem de gado da Fronteira para o Guajuviras. E fiquei sabendo também da enchente de 1941, apesar de não ter estado aqui. Niterói, Fátima, Harmonia, tudo ficou debaixo d’água. A enchente de 1965 eu já vi e era tudo água. Por isso foram construídos os taludes de defesa.

O senhor deu aula durante quanto tempo?

Entre 1950 e o ano passado. 58 anos de aulas para o Ensino Fundamental, Médio e Superior. Passei por todos os níveis.

Ao longo do tempo, o senhor notou alguma diferença no perfil do aluno?

Nesello: Comparando com o de hoje, muita diferença. Os alunos eram mais tímidos, mais afastados. E a família fazia o seu papel. Era muito importante. Se você mandasse uma queixa para família do aluno, ele apanhava em casa. Hoje, se fizer o mesmo, o professor apanha no colégio (risos). O estudo era muito mais intenso. Fazia- se 40 horas de aula em casa. Manhã e tarde. Era praticamente só irmãos lassalistas. A única exceção era o professor Armando Würth, que era professor de Educação Física.

E em 1970 passou-se pela reforma Passarinho, quando muito daquele ensino de Humanidades perdeu-se.

Sim, eu lembro. Latim, música, filosofia… tudo aquilo acabou.

Pelo menos para mim, quando pego um livro de literatura, ou quando comparo o programa de ensino de literatura nas décadas de 50 e 60, fico com vergonha. O que eu aprendi é quase nada perto do que se aprendeu lá. Estudava-se clássicos franceses, latinos…

De Bello Gallico, de Julio Cesar, era lido aqui mesmo, no La Salle. Às vezes, ficam impressionados aqui quando faço contas de cabeça, porque ninguém decora a tabuada. Eu noto essa decadência no ensino em vários aspectos. Apesar disso, noto que os jovens não têm medo de falar, são mais desinibidos. Mas eu percebo que decaiu, sim. Quando eu convido alguém das faculdades para ler algo na capela eu fico impressionado, eles não sabem ler.

E como o senhor avalia aquele momento, visto a partir de hoje?

No sentido humano perdeu-se muito. Baixou o nível também. Uma vez escrevi um artigo chamado ““O Triângulo de um lado só””. Ora, toda escola precisa de três coisas: alunos que queiram estudar, uma instituição bem preparada para ensiná-los e os pais para auxiliar. Três lados, portanto. Só que quando se fala de educação, fala-se de melhorar a qualidade do ensino, melhorar a instituição, mas não dos outros dos lados do triângulo, nunca se fala. Qual é o pai que cobra o seu filho? Onde é que anda o aluno durante a noite? Quando eu comecei não havia nada disso, e nem era necessário, já que os pais faziam o seu papel e faziam os filhos cumprirem o seu. Com essas mudanças, o sentido mais humanístico do ensino se perdeu. E as consequências estão aí, para todos verem.

Discussão

6 comentários sobre “Irmão Norberto Luís Nesello: ““Toda escola precisa de alunos que queiram estudar, uma instituição bem preparada e pais para auxiliar”

  1. Foi um privilégio ter sido aluno do Ir. Norberto, no primário, no ginásio, no cientifíco e na graduação! São José, La Salle, CELES, UINULASALLE, O Irmão Norberto era como coringa, atuava em várias posições (aulas).Pessoa inesquecível! O Uma passagem: não esqueço de um jogo recreativo de basquete, ele correndo de batina, e pegava a bola com uma só mão, eu achava o máximo! Abraço. Roni Eloy Taborda

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    Publicado por Roni Eloy Taborda | 13 de março de 2015, 18:33
  2. Meu querido mestre, amigo e parceiro nos Pequenos Cantores por 21 anos. Pessoa única. Merece todas as reverências.

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    Publicado por Claudionor Lima | 14 de março de 2015, 01:31
  3. Bela perdonalidade esvolhida para entrevista. Irmao Norberto, meu grande professor há 50 anos atrás e até meu amigo de muitos churrascos e outros encontros sempre agradáveis !!!

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    Publicado por Abílio Boll | 14 de março de 2015, 20:08
  4. Bela perdonalidade escolhida para entrevista. Irmao Norberto, meu grande professor há 50 anos atrás e até meu amigo de muitos churrascos e outros encontros sempre agradáveis !!!

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    Publicado por Abílio Boll | 14 de março de 2015, 20:09
  5. Tive a grande honra e satisfação de ser aluno do Irmão Norberto. Pessoa de uma mente brilhante e de inesgotáveis saberes. Sinto-me muito feliz em vê-lo tão bem! Um grande abraço. Viva Jesus em nossos corações!

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    Publicado por Lisiani Souza | 14 de março de 2015, 23:21
  6. “…..Fui Aluno, por vários anos deste *Grande Mestre*, da Língua Portuguesa, calmo, e dedicado para com os Alunos e com á Instituíção, fico Feliz de saber notícias dele. Obrigado Irmão Norberto, Que DEUS contínue lhe Abençoando, pois o senhor é merecedor.

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    Publicado por ROGERIO BRASIL FLORES | 27 de dezembro de 2016, 15:38

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Fonte: Book felino 2017. #cats Feliz aniversário para o meu parceiro nos esportes. Te amo, pai. 💙  #newyeareve #newyear2017 De volta pra casa #borges #jorgeluisborges Desenho que fiz para ilustrar o texto "O homem que parou o tempo", sobre #FidelCastro ,  escrito pelo meu irmão Celso Augusto para o site www.perspectivaonline.com.br Desenho que ilustra matéria a respeito do filme sobre o jovem #KarlMarx no site www.perspectivaonline.com.br #draw #arts #marx #marxism #theyoungkarlmarx

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