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Ciências Humanas

Walter Burkert (1931-2015)

Burkert(web)

Neste último sábado, dia 14, no silêncio que convém aos homens de estudo, faleceu Walter Burkert, um dos maiores helenistas do último século e deste que inicia.

Na verdade, dizer “helenista” não é dar a exata dimensão da relevância de seu trabalho. Não que ser helenista signifique pouco: definitivamente, não é.  A questão é que este bávaro nascido em 1931 foi muito mais do que isso. Da mesma forma que Erich Auerbach, Ernst Robert Curtius, Georges Dumézil, Max Muller e tantos outros, Burkert foi filólogo, profissão que desafia os limites que a academia impõe ao pesquisador. Explico: o filólogo impõe a si mesmo o trabalho de partir do idioma e do texto, sobretudo o literário, para chegar, em última análise, à compreensão de uma civilização inteira. De um trecho da Odisséia, Erich Auberbach extrai conclusões sobre toda a cosmovisão dos gregos; dos nomes que os nórdicos davam a seus deuses, George Dumézil faz inferências sobre toda a organização social e política daqueles povos. Por isso, filólogo tem de, por definição, ser um conhecedor de amplos domínios do saber. Não há, a rigor, especialistas em filologia. Talvez por isso não seja uma ciência muito presente nos currículos acadêmicos de hoje, que primam, bem ou mal, pela necessidade imperiosa de especialização.

A obra de Burkert é imensa, em variedade e importância. Em Homero aos Magos, abordou a influência oriental na tradição grega, incluindo aí insuspeitas presenças do Gilgamesh. Em  A criação do sagrado, a maneira como o sentido de sagrado se forma na mente humana. E naquela que muitos consideram sua obra prima, Homo necans, Burkert investiga o processo de transformação da religião em arte, em um rito vivido por um grupo, com o objetivo de instaurar. Os leitores de René Girard – pensador que, nos últimos anos, tem ganho boa divulgação no Brasil – reconhecerão aí conclusões semelhantes em obras como “Violência e o sagrado”. E terão razão: Burkert reconhece, já no prefácio de Homo necans, que a abordagem de Girard tem pontos em comum com a dele.

Nesta mesma obra Burkert define, em poucas e definitivas palavras, qual a tarefa que lhe coube, e que serve para definir plenamente a atividade de todos os filólogos:

“Sou um filólogo que parte dos antigos textos gregos e tenta encontrar explicações biológicas, psicológicas e sociológicas para os fenômenos religiosos”. 

Uma tarefa que cumpriu plenamente em seus 74 anos de vida.

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