Música, Mundo pop

Um DJ no mundo comunista


Erich Hoenecker, presidente da República Democrática Alemã, com um contrabaixo

Estamos acostumados a imaginar a vida dos jovens dos países do antigo Bloco Comunista como cinzentas, frias, desprovidas de toda e qualquer diversão, e ainda menos de diversões “ocidentais” como o rock’n roll.

Por isso, a muitos causará surpresa descobrir, por exemplo, que na duríssima Alemanha Oriental, a DDR (acrônimo para Deutsche Demokratische Republik, República Democrática Alemã) de Erich Hoenecker, da Stasi (polícia secreta do regime), do marxismo-leninismo ortodoxíssimo e dos Ladas circulando pelas ruas de Berlim Oriental, havia um cenário rock não só pujante como dotado de características distintivas do lado Ocidental. Chamado, à sintética maneira alemã, de “Ostrock” – literalmente, “rock oriental”, ou “rock do Leste” -, trazia letras mais sutis, meditativas, “filosóficas” do que as congêneres ocidentais. Uma das razões para isso era a necessidade de driblar a censura: a fim de terem seu material liberado, os compositores do lado oriental que quisessem criticar o governo ou os costumes – tópicos básicos do rock’n roll desde os seus começos – precisavam caprichar nas mensagens veladas, que censores, em todos os países, de todas as ideologias, em geral não compreendem.

Além disso, o rock da DDR apresentava estruturas musicais mais “sérias” e “conservadoras”, o que era, segundo alguns estudiosos do fenômeno, fruto dos investimentos em educação musical, sobretudo clássica, das escolas públicas do país. Em todo o mundo socialista o pop “decadente” ocidental era malvisto, mas a tradição musical clássica, não. Era entendida como legado humanístico a ser preservado, junto com toda a literatura e a arte até fins do século XIX e começo do XX (isto é, até a chegada dos “decadentismo” modernista, identificado com o acirramento das contradições do capitalismo) . Na antiga DDR, como em todos os países comunistas da época, escutava-se muito Mozart, muito Bach e muito Beethoven e lia-se muito Walter Scott, muito Tolstói, muito Thomas Mann (e não Joyce, Virginia Woolf ou Kafka). Tudo isto influenciou de maneira decisiva na formação do rock da região.

Já tivemos a oportunidade falar brevemente deste interessante cenário aqui. Mas as rádios da DDR, como a mítica DT64, não eram, naturalmente, feitas apenas da sua música nacional. E o mesmo pode ser dito das rádios tchecas, russas, ucranianas, polonesas e de todos os demais países atrás da cortina.

Podemos ter uma ideia do que tocava por lá a partir desta entrevista com Vladimír Zahradníček, ex-DJ de uma rádio da República Tcheca. Descobrimos, por exemplo, que o ultra-americano Bob Dylan era bem visto pelos membros do partido por suas canções anti-imperialistas, e que o pop “inofensivo” do Ocidente era tolerado, ao passo que os Beatles e os Rolling Stones não eram bem vistos.

Quando perguntado sobre o que tocaria em sua rádio, ele respondeu da seguinte forma, o que nos dá uma boa ideia do que o lado comunista escutava à época:

Karel Gott 

Lady Karneval

Bob Dylan

I Want You

Helena Vondráčková 

A ty se ptáš co já, a cover of ABBA’s “The Winner Takes It All”

Boney M

Rasputin

Puhdys 

Lebenszeit, or “Lifetime”

Modern Talking 

Cheri Cheri Lady

Elán

Tanečnice z Lúčnice, or “Dancer from Lúčnice”

Alla Pugacheva 

Million Roses

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