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Aírton Pavilhão: “É maravilhoso saber que eu fiz tanta gente feliz”

No último dia 3 de abril – ou seja, há uma semana – completamos três anos sem Aírton Ferreira da Silva, o Aírton Pavilhão. Um ano antes de seu falecimento tivemos a oportunidade de entrevista-lo em sua casa, em frente ao Estádio Olímpico e ali encontramos um senhor sentado à beira de uma porta aberta, onde a todo momento entravam e saíam vizinhos, amigos e fãs, alguns deles sem sequer avisar que chegavam. Nós estávamos nesta terceira categoria – a dos fãs – escondidos sob a capa finissima, quase transparente de jornalistas sobriamente isentos: após alguns minutos de convivência com o maior zagueiro da história do Rio Grande do Sul tivemos de retira-la. Era impossível continuar a fingir: éramos admiradores diante de um ídolo.

Esperamos que a entrevista que segue, cumprindo o ritual estabelecido para todas as sextas-feiras no blog Perspectiva, seja um fiel testemunho disso.

O ano é 1962. Os jogadores da Seleção Brasileira convocados para a Copa do Mundo do Chile estão treinando em Campos do Jordão, região serrana do Estado de São Paulo, escolhida a dedo para acostumar os jogadores do “escrete” ao clima e à altitude dos Andes. O zagueiro Aírton Pavilhão, do Grêmio (o único convocado de fora do eixo Rio-São Paulo)  recebe uma bola na frente da área e dirige-se até a bandeirinha de escanteio, no que é acompanhado pelo adversário do treino. Chegando lá, Aírton parecia encurralado: atrás de si, o atacante; à frente, o final do campo. De repente, para surpresa de todos, ele gira o imenso corpo de 1m89cm e posicionando a bola do lado de fora do pé esquerdo, chuta-a com o peito do pé direito fazendo um lançamento para o goleiro Gilmar, a alguns metros dali. A isto antigamente chamava-se “dar de Charles” (hoje, chamaríamos “dar de letra”), e era uma jogada muito utilizada por atacantes habilidosos. Eu disse atacantes – nunca um zagueiro comum faria uma coisa dessas. Eu disse um zagueiro comum – não Aírton Ferreira da Silva. Todos ficaram boquiabertos com o lance, inclusive o treinador, Aymoré Moreira, que nunca vira nada parecido. E como nunca vira nada parecido, achou melhor dispensar Aírton do grupo que iria ao Mundial, com medo que ele repetisse e errasse a jogada durante o torneio. A verdade é que o único errado nesta história era o próprio Aimoré Moreira: Aírton nunca errou aquela jogada. Com isso, o Brasil perdeu a chance de ter tido o primeiro zagueiro, desde Domingos da Guia, a rivalizar em talento com os nossos melhores atacantes e a chamar a atenção do resto do mundo. A seleção de 1962 ficou mais pobre sem ele.


Mas Aírton era muito mais do que uma jogada de efeito. Era, para dizer tudo de maneira simples e direta, um zagueiro tecnicamente perfeito: excelente na saída de jogo, sem rival na bola aérea, habilidoso como um ponta-direita, forte como um halterofilista e, ao mesmo tempo, absolutamente leal em todas as disputas de bola, a ponto de receber elogios públicos de Pelé numa época em que os zagueiros de todo o mundo apelavam para os safanões quando enfrentavam o Rei do Futebol.

Ao procurar Aírton para esta entrevista, não lidamos com assessores de imprensa, não precisamos marcar horário na agenda e não esperamos horas ao telefone para falar com um intermediário. Dirigimo-nos ao estádio Olímpico numa tarde de sexta-feira e, a alguns poucos metros dele, batemos palmas em frente a uma casa (não por acaso) azul e, após passarmos três longas e inesquecíveis horas na companhia de Aírton, o nosso Aírton, o maior zagueiro da História do Rio Grande do Sul,  ainda fomos convidados para, no dia do próximo jogo do Grêmio, passarmos ali para conversar um pouco mais. Enquanto isso, deixamos aos leitores o resultado da conversa daquela tarde.

O senhor começou no Força e Luz, um time que era conhecido por revelar jogadores para a dupla, e ali ficou de 1949 a 1954. Naqueles tempos, o clube chegava a complicar para a dupla Gre-Nal?

Não chegava a tanto. Quem complicava mesmo era o Cruzeiro, que tinha um excelente time.  Mas o Força e Luz revelava, sim, muitos jogadores bons, que atraíam a atenção da Dupla. Foi o que aconteceu comigo. Em 1954 eu fui para o Grêmio, em troca de um pavilhão do antigo estádio da Baixada, mais 50 mil cruzeiros.

E daí veio o apelido…

Exatamente. O Grêmio estava tentando montar um time forte para enfrentar o Inter, que ganhava tudo naquela época e tinha jogadores como Larry, Bodinho, Chinesinho, Oreco e outros. O nosso  treinador na época era o seu Osvaldo Rolla, o Foguinho, que  me tirou da posição de centromédio, onde eu comecei, e me pôs na de zagueiro. Esse meu período como centromédio do Força e Luz foi muito bom, porque quem joga nessa posição precisa desenvolver o passe, o posicionamento e a visão de jogo, e foi o que aconteceu comigo. Estes fundamentos foram muito úteis quando eu comecei a jogar de zagueiro. Na época, o titular era o Ênio Rodrigues, e o seu Rolla, pra eu entrar, pôs ele para o lado do campo.

Na época, quem eram as principais forças do futebol gaúcho?


Além de Grêmio e Inter, tínhamos o Renner, Cruzeiro, Aimoré, Pelotas, o Brasil de Pelotas e vários outros. Naquela época, o Campeonato gaúcho era muito forte. Se perdesse um ponto, perdia o campeonato. Não podia perder a linha de jeito nenhum. Para mim, era mais difícil que o campeonato brasileiro de hoje. Hoje todos os craques vão embora e antes não era assim, todos ficavam por aqui.

O senhor cresceu numa época em que o Inter era mais poderoso do que o Grêmio, não?

Sim, o Inter não perdia para ninguém. Era o time do Tesourinha! Mas eu, felizmente, nunca joguei contra ele. Quando ele estava no Inter eu ainda era muito guri, e quando ele veio para o Grêmio eu estava começando e ele prestes a encerrar a carreira, então nunca nos enfrentamos.

Antigamente, a diferenciação entre as duas torcidas era maior do que hoje, não?

Sim, era mais clara. O Inter era mais povão e o Grêmio era mais elitista.

Quando começou a disputar jogos contra equipes de fora?

Quando o Grêmio começou a ganhar títulos estaduais, começamos a jogar contra o Santos, o Botafogo e outros clubes do centro do país pela antiga Taça Brasil, que reunia os campeões estaduais. O Grêmio começou a jogar fora,  jogamos no Rio, São Paulo e em outros lugares. Depois, passamos a fazer excursões, que era uma coisa que os clubes brasileiros faziam muito na época. Fomos pra Europa e o time começou a plantar uma sementinha para ser famoso. Ganhamos de todo mundo na Grécia, jogamos na Rússia, Alemanha…..

Numa das excursões que o Grêmio fez pela Europa, jogou contra o Real Madrid. Como foi marcar Puskas?

Quando entrei em campo  e eu vi aquele baixinho pegar com o pé esquerdo de um jeito diferente e eu disse, “bah, esse canhoto é bom”. Não deu outra: ele acabou com o jogo e perdemos para eles. O Real Madrid naquela época era quase imbatível. Perdemos também para a seleção da Rússia lá e eu não me conformei. Solicitei que o Grêmio trouxesse os russos para cá, para a revanche, e aí ganhamos deles.

Em 1959, o Grêmio foi o primeiro clube estrangeiro a vencer o Boca em La Bombonera. O senhor estava lá. Como foi aquele jogo?

Bom, primeiro é importante falar que o Boca era uma equipe excepcional. Eles tinham o Rattin, um centromédio espetacular, um dos melhores jogadores do mundo na época. Na entrada do estádio era uma festa , papel picado, eles cantando “Boca, Boca”……..era a primeira vez que eu via uma festa daquelas. Eu saí do jogo surdo, o ouvido ficava zumbindo! Era um terror. Não estava acostumado com aquilo, porque o jogo aqui no Brasil era calmo. Quem venceu o jogo para nós foi o Gessi, que tinha passado no vestibular para odontologia e chegou para o jogo meio “alto” (risos). Mas ele jogava muito, muito!

Como se sente sendo reconhecido nas ruas?

O que me emociona é ver alguém dizer que o pai falava muito de mim, ou um homem, já adulto, me agradecendo por ter feito o pai dele tão feliz. A minha auto-estima vai lá em cima. É maravilhoso saber que eu fiz tanta gente feliz. Esses dias, eu estava sentado e de repente passa um guri de 10 anos e grita “E aí, Pavilhão?” (risos). Um guri de dez anos! Apesar disso, eu acho que o Rio Grande do Sul é um estado que não tem memória. O único jogador que entrevistam sou eu. Eu fico louco com isso.  Alcindo, Florindo, Alberto, onde estão? Não dão o devido valor pros jogadores antigos. Tu paras de jogar e pronto, morreu. O único que lembram sou eu e isso me faz sentir mal. O Alcindo jogou Copa do Mundo, o Alberto foi convocado para a seleção….foram tantos. Mas felizmente eu sempre sou reconhecido, o que gera também situações engraçadas.Às vezes o Grêmio perde e eles passam ali brabos, e eu estou ali quieto. Eles dizem “tu também és culpado” e eu digo “Eu? Eu parei há quarenta anos! (risos).

Como foi enfrentar o Pelé?

Olha, marcar o “negrão” no mano a mano era brabo. Mas ele nos respeitava muito. Agora, quando o Inter foi campeão da Libertadores, ele disse que eles conheciam mais o Grêmio, por causa dos jogos na Taça Brasil. Uma característica do Pelé é que ele era forte e objetivo, não era tipo  o Ronaldinho que fica driblando para lá e para cá. Ele pega a bola e partia para cima, não ficava dando driblezinho à toa. O Ronaldinho….(risos) Eu queria marcar o Ronaldinho!

Porque?

Porque ele dribla muito. É muito mais fácil de marcar o Ronaldinho que o Pelé.  Esses dribles para o lado que ele fica fazendo dão oportunidade do defensor tirar a bola dele. Só toma drible do Ronaldinho quem é bobo. Eu gostava de jogar com aquele jogador que driblava na minha frente, pois esse é mais fácil. O complicado é quem é forte e vai direto pro gol. Esses são os mais dificeis. Já o Garrincha era diferente, era driblador mas também era objetivo e, diga-se de passagem, muito gente fina, estive com ele na Seleção.Nunca joguei contra ele, mas era mais fácil que o Pelé, com certeza. É que nem a cobra e o sapo. A cobra não ataca. Quem tenta fugir é o sapo. Era isso que eu tentava fazer.

O senhor estudava seus adversários?

Sempre que podia, eu assistia a jogos para saber como é que os caras jogavam. Esse cara do Inter, D´Alessandro, por exemplo, ele é canhoto e entra pela direta. Se eu assistisse os jogos dele, saberia que o melhor era esperar ele tocar a bola. Assim, ele nunca passaria por mim.

Acha que os zagueiros cometem hoje erros que não cometiam na sua época?

Claro. Cometem erros bobos. Por exemplo, os gols de cabeça os zagueiros de hoje tomam a todo momento. E sabe porque? Porque ficam empurrando o cara. Quem entra pro gol? A bola. Eles não marcam a bola. Eu não quero saber do jogador, eu quero a bola. E eu fiz sempre isso. O Grêmio, na minha época, não tomava gol de cabeça. O segredo é olhar para a bola, é só seguir em direção a ela. Eu falo isso na TV e eles ficam loucos. Eu queria fazer uma entrevista assim: eu no meio e todos os ‘entendidos’ fazendo perguntas. Não precisa ser jogador para ser treinador, mas é como o pessoal fala, só manda quem sabe fazer. Se não teve a prática, não tem como. E eu tive. Sempre quis fazer o melhor e ser diferente dos outros. Uma vez joguei contra o Pelé e sem querer trombei nele –  ou melhor, ele trombou no meu corpo –  e aí quem ganhou fui eu, que era mais alto e forte. Ele caiu, e eu disse “tudo bem, negrão”?. E ele “tudo, Airton, não se preocupe porque eu sei que você não precisa disso”. Quase me arrepio quando lembro disso!

Que homenagem!

Uma senhora homenagem. Como eu disse,  sempre fiz questão de ser um jogador diferente dos outros. Os treinadores às vezes me  mandavam bater, mas eu sempre desobedecia. Tu, por exemplo, se fores ser advogado, não podes ser qualquer um, tens de ser o melhor advogado. Eu pensava: se eu tenho a chave da porta, porque vou arrombar? Se eu machucasse algum jogador eu ficava com vergonha, porque significava que eu não podia com ele. Eu sempre quis fazer o melhor de mim e ser o melhor de todos, e isso valia para o Grêmio também. Se na minha equipe um  amigo meu errasse eu dizia “sinto muito, gosto de ti, mas tu vai sair do time” e eu dizia pro treinador, esse aí não dá. Para teres uma idéia, eu fiz 125 gols na minha carreira. E olha que a gente jogava quase sempre só no domingo e muito pouco na quarta. Senão ia fazer muito mais gols. Todo ano eu era o melhor jogador do campeonato. Aí parei de disputar, porque era sempre o melhor.  Aí fui me convencendo que eu era realmente o melhor. E que era bom mesmo.

Depois de alguns confrontos com Pelé, chegou a ser pretendido pelo Santos, não é?

Sim. Joguei 3 meses emprestado para o Santos. Só que acabei querendo voltar, porque tinha medo de avião e o Santos viajava muito pelo mundo. A linha deles era Durval, Coutinho, Pelé e Pepe. Não tinha como perder com esses aí. E ainda tinha o resto do time, que também era excepcional.

Sem contar a famosa jogada que o senhor fazia, levando a bola para a linha de escanteio e, de “Charles”, atrasando-a para o goleiro…

Sim, e pior é que tinha centroavante que ficava brabo comigo por causa da jogada, queriam dar em mim! O centroavante Almir Pernambuquinho era um deles. Por isso, eu queria marcar o Edmundo, Ronaldinho e esses que são mais debochados. Esses aí, eu levava lá no cantinho e fazia a jogada! (risos)

Quem foi o maior treinador que o senhor teve ?

Osvaldo Rolla. Esse sabia de tudo. Ele foi fantástico. Conhecia muito de tática. O seu Rolla  gostava muito do time da Hungria em 1954 e aplicava o mesmo no Grêmio. Colocou só zagueiro grandão lá atrás e fez todos participarem do jogo. Mas eu também jogava o meu jogo independente dos treinadores. Se o treinador me dissesse para fazer isso ou aquilo, eu ouvia e dizia “sim senhor” – e não fazia. Ia jogar o meu jogo. Se ele dizia “ Airton , não vai cabecear”,  eu dizia “sim senhor”,e eu ia. E s e fizesse o gol, ele não tinha do que reclamar! (risos)

Como foi a sua passagem pela seleção?

A primeira foi no Panamericano de 1956, quando fomos campeões. Depois, cheguei a ser convocado para ir à Copa de 62.

Airton na Seleção Brasileira 1962- último à direita na fila de cima

Foi o único jogador de um clube de fora do eixo Rio-São Paulo a ser convocado.

Sim, isso mesmo. O problema é que, num treino, fiz a jogada de “Charles” e o Aimoré Moreira, treinador do Brasil naquele ano, ficou com medo, não gostou e eu fui cortado. Além disso, o jogador gaúcho nunca conseguia espaço. Muito raramente nos davam chance.

Acha que se tivesse jogado no centro do país teria tido mais visibilidade?

Sem duvida. Hoje eu penso que deveria ter ido para fora. Acho que comigo aconteceu como naquela história do barco, em que o cara está se afogando, pede ajuda para Deus, passam vários barcos, ele continua pedindo ajuda e, de repente, ele morre e Deus diz “rapaz, eu te ajudei, te mandei vários barcos e não aproveitaste nenhum!”. Foi o que aconteceu comigo. Ele me disse, vai lá para ser o melhor do mundo e eu fiquei no Rio Grande do Sul. Não por causa do dinheiro. O resto queria me ver e não me viu. Aí eu não posso culpar Deus, pois eu é que não aproveitei. Quando eu vejo um  jovem me agradecer por eu ter feito o pai dele tão feliz, eu penso sempre que eu tinha mais coisa para dar. Eu podia ter dado mais de mim. Eu poderia ter feito mais gente feliz.

O senhor acha que os centroavantes hoje são muito supervalorizados?

Acho, pelo menos os que jogam aqui. Antes, todos os bons jogavam aqui. Hoje, os jogos me enjoam. Assisto meio tempo e me enjoa. Eles só jogam para o lado, e eu quero jogo para a frente. Viu o jogo do Gremio ontem? O único que põe o time para a frente é o Rochemback. Eu fazia como ele, era o homem surpresa. O Grêmio é interessante, joga bem um jogo, joga mal um mês. Aquele time anos 60 jogava bem quase todo jogo. A gente quando errava ficava louco. Joãozinho, Volmir, Alcindo, era incrível o que aquele time fazia. E nós éramos bem balanceados, tínhamos um ataque muito bom e uma defesa muito bem organizada. É como se diz: um ataque ganha jogo, mas uma boa defesa ganha campeonato.

As condições eram piores na sua época?

Muito piores. A bola era mais pesada, o campo era pior, e a torcida queria te matar. Quando a gente jogava no interior,os torcedores rivais queriam acabar com a gente! A gente comia pó para chegar em Bagé, porque não era asfaltado. Tudo era mais difícil.

Como avalia os zagueiros de hoje?

Olha, o Lucio é o melhor, mas, como eu disse, os zagueiros de hoje não têm o mesmo nível da minha época. Hoje todos jogam com líbero, com volantes, com jogadores fazendo cobertura. Na minha época não era assim. Zagueiro que é bom para mim, é o bom no mano a mano. É raro encontrar um assim. Nunca gostei de jogar com libero. Era vergonha para mim. É uma maneira de eu dizer que eu não tenho condições.

Dos zagueiros que jogaram em sua época, com quem o senhor gostaria de ter feito dupla?

Ah, tem vários. No Inter tinha o Florindo, que era um jogador fora de série. O pessoal da  minha época era incrível. Nilton Santos era incrível, Djalma Santos era melhor ainda. O Bellini era diferente, era mais durão. Eram vários.

O senhor mora em frente ao Olímpico, jogou toda a vida no Grêmio, tornou-se um símbolo do clube……já pensou em como vai ser quando ele for destruído?

Olha, nem quero pensar (risos). Nem sei como vai ser. Vou ficar muito, mas muito triste. Todos os campos em que eu joguei acabaram.  Aquele campinho do Força e Luz, onde eu comecei,  foi desmanchado; o do Cruzeiro, a mesma coisa; o Eucaliptos, do Inter, onde joguei tantas vezes, também. O Olimpico era último estádio desses antigos que tinha sobrado. Todos foram embora. Todos terminaram. O seu Hélio Dourado não queria que o estádio fosse destruído. Aliás, eu mesmo, nos anos 70, ajudei o Sr. Dourado e fazer a campanha para buscar tijolo, para a torcida construir o estádio, porque a verdade é que o Olímpico foi construído pela torcida do Grêmio. E hoje querem construir um novo…..tanta coisa por um ou dois jogos da Copa……

Tinha boa relação com o pessoal do Inter?

Tinha. E eles tinham uma relação de amor e ódio comigo. Vou lhe contar uma emoção que eu senti. Era um Grenal , jogo duro, e eu estou lá atrás como zagueiro e nós estamos atacando lá na frente, na área deles. De repente, olho para a torcida e eles começam a me vaiar, e eu disse “o jogo está lá, olhem para o jogo!”. Naquele momento, eu pensei, “deixaram de ver o jogo para prestar atenção em mim. Eles realmente me amam”.

A diferença de salário era muito grande do Santos para o Grêmio?

Ah, pagavam muito mais. O Santos pagava muito melhor. Mas não era pelo salário que eu quis ir para lá, e sim para me tornar mais conhecido, para me apresentar para mais gente, para que mais pessoas me vissem. Era muito difícil se tornar conhecido jogando aqui, naquela época. E o nosso jogador, aqui do Rio Grande do Sul,  para aparecer é brabo.O Gremio quando é campeão do mundo dizem que foi sem querer, e o Flamengo, quando ganha, fazem um carnaval. O Everaldo foi para a seleção para ser reserva. Era melhor que o Marco Antonio. Mas vou dizer: nenhum dos dois era melhor que o Ortunho.

A relação que os senhores tinham com o clube antigamente era diferente da que se vê hoje?

Eu acho que o jogador tem que ter dois amigos para entrar em campo, o juiz e torcida. Se ela gostar de ti, tudo bem. Hoje é tudo diferente, porque o salário é outro, os valores são outros……..e, como eu disse, eu pessoalmente nunca liguei tanto para dinheiro. Sabe do que eu tenho raiva? De homem velho, político, que quer cada vez mais dinheiro. O que dá depois? Briga de família. Tenho nojo de político ladrão. Se eu ganhar 5 mil, ganhar um bom carro, boa casa ,um bom emprego, já me chega. Se eu quiser mais, já me começa a incomodação. Nunca sabe se quem se aproxima, se aproxima por amizade ou por interesse. Então, eu vejo essa diferença, os jogadores de hoje ganham milhões e têm uma vida muito diferente da que a gente tinha, e isso reflete na relação com a torcida. Mas tem uma coisa que eu noto de diferente na torcida.  Hoje as pessoas saem do jogo e não estão rindo, estão apreensivas, nervosas, irritadas. Antes, as pessoas saíam rindo do jogo.

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