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Breve lembrança de Paulo Brossard (1924-2015)

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Nesta manhã de domingo, aos 90 anos, Paulo Brossard nos deixou. Há muito o que se dizer do jurista, do político, do ministro de Estado, do colunista político, do liberal clássico formado sob Raul Pilla que combateu a ditadura militar na sua memorável passagem pelo senado, enfim, do homem público na acepção mais ampla que a expressão pode ter. Muito foi e será dito neste 12 de abril sobre este homem que deve ser lembrado pela posteridade, com todo o merecimento e sem nenhum favor, como um dos principais artífices do Brasil democrático.

Por isso, em meio a tanto que será dito em homenagem a Brossard, quero também dizer algo sobre ele. Será uma pequena, breve contribuição. Mas uma contribuição que, tenho certeza, só poderá ser feita por mim. E por uma razão muito simples, que passa longe de qualquer delírio pretensioso: porque trata-se de uma lembrança pessoal. Uma lembrança que fala pouco de mim, muito dele e dará, creio, bem a medida do homem Brossard. Por isso, e só por isso, é que a deixo aqui.

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Equipe do Blog Perspectiva com Paulo Brossard

Era um jantar na casa de meu tio, amigo do ministro desde os tempos de MDB, numa noite fria de junho.de 2011. Lá estavam, entre muitos outros convidados, Brossard, sua esposa e uma de suas filhas. Enquanto estas últimas conversavam com os demais convidados o ministro pediu, gentilmente, para sentar-se em outra mesa. E ali acomodou-se. Tive então a oportunidade de conversar com ele.

Comentei que, havia poucos dias, tinha lido o seu prefácio a “Pequena história territorial do Brasil”, de Ruy Cirne Lima. Foi o suficiente para que um discreto sorriso se abrisse no rosto no ministro, talvez pela oportunidade de conversar sobre um tema de sua predileção. Falou então longamente sobre a impressionante familiaridade de Cirne Lima com a tradição jurídica ibérica e ibero-americana, em especial os juristas portugueses e espanhóis do fim da Idade Média e do Renascimento, e lamentou brevemente que esta tradição já não fosse tão conhecida dos jovens de hoje. Perguntou-me então o que estava cursando. Respondi que, naquele ano, concluía o curso de Direito e logo depois o de Letras (este, na verdade, teria de esperar até 2013). Outro sorriso se abriu. Perguntou então quais as minhas áreas de preferência dentro do Direito. Respondi que tinha especial atração pelos temas de Direito Público, Direito Internacional e Teoria do Estado (que seriam, aliás, objeto de minha monografia de conclusão). “Excelente, excelente”, disse ele. Sugeriu então – “se lhe posso sugerir algumas leituras”, foram suas exatas palavras – que lesse aqueles autores com muita atenção. Agradeci e apontei que, no prefácio em questão, ele, Brossard, mencionara que o grande jurista gaúcho dizia que “as novidades jurídicas têm, em geral, trezentos anos idade”. Outro sorriso, desta vez mais aberto, menos comedido: “É verdade, mas não podemos dizer isso por aí”.

A conversa estendeu-se por mais umas duas horas e adentrou o jantar. Falamos sobre o estado atual das faculdades de Direito, as exigências que hoje se faz para ingresso na carreira acadêmica (exageradas e tolhedoras, segundo ele), de alguns episódios da política do Império e da República, da importância de Raul Pilla para a formação dos políticos de sua geração e muito mais. Após falar e ensinar muito, interrompido por algumas perguntas minhas – a isso limitei-me – ele virou-se para mim e perguntou: “você está terminando o curso de Letras, não é?”. “Sim”, respondi. Perguntou então o que achava da crítica que Machado havia feito à obra de Eça de Queirós na famosa resenha de “O Primo Basílio”, publicada quando o brasileiro ainda era um iniciante e Eça um nome já consagrado. Respondi que concordava, em parte, e que, embora tivesse apreciado imensamente “O Mandarim”, “A Cidade e as Serras” e alguns de seus contos, achava que faltava o conflito interior e autonomia às personagens de Eça, razão pela qual não me sentia tão tentado a lê-lo novamente. Brossard ouviu tudo atentamente, e em silêncio, assentindo aqui e ali. Quando terminei, apontou: “Já leu os artigos de opinião dele?”. Respondi que, salvo um ou outro ensaio, não havia lido. Ele sugeriu que os procurasse. “Ali está algo do que melhor se escreveu em português no que se refere ao humor e à sátira”, disse ele. Agradeci a indicação. Logo depois, Brossard foi chamado pela esposa e a filha para irem para casa. Já passara da meia noite. Levantamos e nos despedimos, não sem antes o ministro agradecer a companhia e a conversa e eu a imensa generosidade da companhia, das lições e da oportunidade única.Oportunidade que agora recordo certo de  que o homem que a concedeu fará uma irreparável falta.

Leia também:

“O Impeachment”, de Paulo Brossard: lições de uma leitura

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