Esportes

Dia de Lincoln, dia de homenagens

A rodada de ontem homenageou a dois grandes. Ou a três, talvez. Não importa: a noite, em si, foi grande.

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No dia 15 de abril de 1865, por volta das sete da manhã, Abraham Lincoln perdia definitivamente as forças e, sob o olhar do ministro de sua igreja, o reverendo Phineas Gurley, e seu secretário de guerra e fiel escudeiro, Edwin M. Stanton, deixava os Estados Unidos da América sem presidente, sem líder, sem a maior figura de toda a sua história política. Sua trajetória ficou marcada sobretudo pela libertação dos escravos nos estados do Sul. Stanton sentenciou gravemente: “Seu nome agora pertence à história”. Lincoln viveu e morreu como um vencedor.

Ainda escreveremos sobre este grande personagem aqui no Perspectiva.

Por enquanto, importa-nos outro personagem, outro Lincoln, outro 15 de abril.

O 15 de abril de ontem foi marcado por protestos e paralisações. O transporte público foi interrompido por 24 horas em manifestação contra o projeto de lei da terceirização, que cortará salários, benefícios e aumentará o desemprego. Mais: pela natureza mesma da terceirização, que facilita o escapar às responsabilidades trabalhistas, o trabalhador terceirizado é regra geral, menos capaz de fazer valer seus direitos e submetido a condições bem piores do que os demais. Não é de se espantar que 90% dos libertados de trabalho escravo no Brasil ano passado fossem terceirizados.

A reação popular surtiu efeito: os defensores da ideia na Câmara recuaram. 

Mesmo assim, 10 mil abnegados torcedores, sem trem para os levar ao jogo nem ônibus para os levar em casa compareceram à Arena para assistir ao Grêmio vencer o Campinense por 2 a 0. Uma vitória esperada e que não seria lembrada, não fosse a ascensão de um menino negro de 16 anos que marcou seu primeiro gol como profissional. E não qualquer gol: um golaço.

O nome deste menino , autor do gol da noite desde 15 de abril, é Lincoln.

Neste 15 de abril, Lincoln marcou seu nome e uma luta popular saiu vencedora. Assim como há 150 anos.

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A rodada da Taça Libertadores da América desta semana foi a primeira, desde que a competição teve início, sem a presença de Eduardo Galeano.

River Plate, San José, Juan Aurich e Tigres tomaram parte numa peça destinada a homenagear aquele que disputa com Nelson Rodrigues o título de melhor cronista de futebol que o mundo já conheceu. E homenagearam-no da melhor maneira possível: encenando uma situação digna de figurar em “O futebol ao sol e à sombra”, sua imortal obra sobre futebol, inspiração de todos quantos escreveram e escreverão sobre futebol neste lado do mundo.

Neste mesmo 15 de abril, há oitenta anos, nascia um dos maiores jogadores de todos os tempos do River Plate, o brasileiro Delém, do qual já falamos aqui. Foi também responsável pela categoria de base do clube durante anos e um de seus pupilos foi o atual treinador da equipe, Marcelo Gallardo.

Falemos, então, da peça:

No grupo 6 da Libertadores da América a situação estava completamente indefinida até o começo da noite passada.

O mexicano Tigres, em princípio, estava classificado, e jogaria com os reservas no Peru, contra o Juan Aurich, que ocupava a segunda posição com seis pontos. Ao mesmo tempo, em Buenos Aires, jogavam o River Plate e o San José boliviano.

Uma vitória do Juan Aurich resultaria em inapelável classificação dos peruanos junto aos mexicanos. Já uma derrota daria a vaga ao vencedor do confronto em Buenos Aires.

Um mesmo jogo em duas cidades diferentes, envolvendo quatro equipes em simultâneo. No Monumental de Nuñez, a aflitíssima torcida dos Millonarios assistia ao jogo com o radinho de pilha ao ouvido. Os que não tinham aparelho pediam emprestado um fone de ouvido ao torcedor vizinho para poderem acompanhar a partida em Lima. Vizinhos que desconheciam, que nunca tinham visto antes.

O River iniciou nervoso: errando passes,  pressionando o San José sem muita organização, estava perdido em campo. Os bolivianos, retrancados, esperavam o contra-ataque salvador, esperança de todo clube pequeno.

Mas o River fez o primeiro. E o segundo. E o terceiro. O jogo terminava aos 22 do segundo tempo. Enquanto isso, em Lima, os gols também iam saindo. Um, dois, três, quatro. Cinco. Seis. E não parou mais: terminou como um jogo de nove gols. O Tigres, com os reservas cuspindo fogo em busca de um lugar na equipe titular, venceria por 5 a 4 e seus gols eram comemorados em Buenos Aires como se do River fossem. E a primeira rodada de Libertadores sem Eduardo Galeano terminava de um jeito que, estamos certos, ele gostaria de ver. E escrever sobre.

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