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O jogo que não acabou

tricolortricolor.JPGUm Gre-Nal muda tudo, é o que dizem. Ou, como disse o ex-governador Ildo Meneghetti, “Gre-Nal é Gre-Nal”. E ponto final. Não é preciso dizer mais. A importância do clássico maior do futebol gaúcho não pode ser medida por reles adjetivos. Nada fica imune ao resultado do Gre-Nal. Caem treinadores, diretorias inteiras, jogadores são dispensados, carreiras terminam – ou, em caso de vitória, o caminho para a glória é pavimentado. Foi um Gre-Nal que imortalizou Lara, o craque imortal do hino do Grêmio. Foi em Gre-Nais que Alcindo se tornou o maior artilheiro da história do Grêmio, que Escurinho deixou sua marca como cabeceador, que Renato e Falcão se tornaram de fato craques. Um Gre-Nal não passa em branco. Ele é sempre uma espécie de ritual de passagem na história de um clube, o momento em que um ciclo que precede acaba e um novo começa.

É claro que nem todos têm a mesma importância. Gre-Nal é Gre-nal, sim. Mas há Gre-Nais e Gre-Nais. Há o Gre-Nal que ajuda a derrubar o treinador e a colocar um jogador na seleção brasileira e o Gre-Nal que muda toda uma história, colocando um dos clubes num novo patamar, seja isso para o bem ou para o mal. Há poucos clássicos desta última categoria, muito poucos. Mas não é difícil escolher um deles para homenagear o maior derby do futebol gaúcho e, para muitos, também do futebol brasileiro, porque nenhum jogo foi tão decisivo para alterar a trajetória de um dos clubes envolvidos do que o Gre-Nal da final do Gauchão de 1977. E o clube que viu um grande ciclo terminar e outro grande ciclo começar foi o Grêmio.

Para explicar o que aquele jogo simbolizou é preciso explicar também as suas circunstâncias. Talvez para os leitores da minha geração, nascidos a partir dos anos 80, que já conheceram o Grêmio campeão do mundo e da Libertadores, que cantavam “Vamos com raça, vamos com força, nós somos campeões da América” com a mesma paixão que o hino de Lupicínio Rodrigues, que nunca imaginaram, enfim, um mundo sem De Leon, China, Tarciso, Paulo Nunes, Jardel, Dinho, Adilson e, principalmente, Renato Portaluppi, para esses leitores talvez seja difícil imaginar o que era ser gremista por volta dos anos 70. O que era o Grêmio como instituição, como história, naquela altura? De concreto, tinha alguns campeonatos regionais e uma participação apenas razoável nos nacionais – tanto que vitórias isoladas, como o 3 x 1 contra o Santos de Pelé, em 1971, e o 5 x 1 contra o Palmeiras de Ademir da Guia, em 1967, eram lembradas pelos torcedores como verdadeiras conquistas. Tinha um goleiro no seu hino – Eurico Lara -, que só os mais velhos reverenciavam; um zagueiro campeão pela seleção brasileira – Aírton Pavilhão -, muito famoso na década anterior, mas que, por várias razões, acabou sem disputar uma copa do Mundo; um centroavante que disputou uma, Alcindo – por azar dele, justamente a Copa de 1966, a do fiasco da eliminação na primeira fase; e, por fim, o Grêmio tinha Everaldo, lateral-esquerdo campeão em 1970. Everaldo não era uma das principais figuras daquela seleção, mas o fato de ser titular da maior equipe de futebol que a humanidade já conhecera foi suficiente para eterniza-lo na bandeira do Grêmio com uma estrela. O interessante é que nem o Santos, nem o Fluminense, nem o Botafogo nem qualquer outro time que cedeu jogadores para aquela Copa imortalizou seus atletas campeões. Não precisavam: tinham ídolos de sobra. O Grêmio, aparentemente, não os tinha. Ter um jogador naquele esquadrão foi uma honra tão grande que decidiram colocá-lo no mesmo patamar do próprio distintivo do clube.

Para completar, naqueles dias, a própria torcida do Grêmio era menor. A alcunha de “clube da elite” ainda tinha a sua razão de ser, enquanto o Inter era, de fato e de direito, o clube do povo. Além disso – e talvez por isso – enquanto o Grêmio patinava nos campeonatos estaduais e nacionais, o Internacional formava uma das melhores equipes do mundo e certamente a melhor equipe brasileira daquela década, capaz de jogar de igual para igual com qualquer Seleção. Para termos uma idéia vaga do que era aquilo só se nos colocássemos no lugar do minúsculo Espanyol de Barcelona, obrigado a ver todos os anos as conquistas do seu conterrâneo mais famoso. E mesmo assim seria uma idéia inexata: Motta, Iniesta, Deco e Ronaldinho, por melhores que sejam, não são páreos para Batista, Carpegiani, Falcão e Valdomiro. Nem Thuram e Puyol servem para sequer lavar os pés de Figueroa. O Grêmio enfrentava algo pior, muito pior, do que o Barcelona em Gre-Nais. Some-se a isso oito anos sem ganhar um mísero estadual e ver o adversário ser bicampeão nacional para que tenhamos um retrato da situação desesperadora do gremista. Para completar, o Estádio Olímpico, apesar de seu nome pomposo, só tinha um anel – e o Beira-Rio já tinha dois.

Naquele ano de 1977, porém, os gremistas pareciam firmemente dispostos a dar um basta naquilo tudo. Partindo para uma solução que viria a se tornar típica do Grêmio, a diretoria, sem dinheiro em caixa e focada na construção do segundo anel do Olímpico, foi catar veteranos em todas as partes do Brasil e do mundo. Quem comandaria esse pelotão balzaquiano seria o tarimbadíssimo Telê Santana, já respeitado em todo o país como grande estrategista. Para o gol, chamou Walter Corbo, ex-Peñarol e seleção uruguaia. Na lateral-direita o ex-palmeirense Eurico, que vivera o ápice da carreira quase uma década antes. Na zaga Oberdan, ex-Santos e Coritiba, que merecia como nenhum outro o rótulo de ex-jogador: já havia abandonado o futebol quando Telê Santana pediu sua contratação. Tiveram que buscá-lo na sua casa, em Santa Catarina. Para o meio-campo veio Tadeu Ricci, ex-América do Rio, também já passado dos trinta anos. Finalmente, para o ataque vieram dois centroavantes: André Catimba, ex-Vitória da Bahia, e ninguém menos que o ídolo gremista Alcindo, aos 33 anos, que voltava ao clube após 4 anos no México. O único jovem contratado foi o ponta-esquerda Éder, uma das grandes revelações do futebol brasileiro, conhecido pelo chute forte e pelos gols olímpicos. Dos anos anteriores sobraram o ponta-direita Tarciso e o zagueirão Ancheta, titular absoluto da seleção uruguaia, famoso pelas suas atuações perfeitas na Copa de 1970 que lhe renderam o título de melhor defensor daquela competição. Ancheta era a resposta que o Grêmio deu à contratação de Figueroa. Era, também, a única posição em que os tricolores tinham um jogador capaz de rivalizar com os colorados.

Pois aquele campeonato gaúcho chegava ao seu final. No dia 25 de setembro, no Estádio Olímpico, Grêmio e Inter disputariam, em jogo único, quem seria o campeão. O regulamento colocava aquele jogo como partida extra, porque Grêmio e Inter chegaram na fase final empatados em número de pontos. Absolutamente lotado, o Olímpico esperava uma provável vitória colorada.

O jogo começou tenso, como costumam começar os Gre-nais. Tão tenso que, logos aos dezoito minutos do primeiro tempo, o juiz marca um pênalti em favor do Grêmio. O estádio pára. A idéia é fazer aquele gol e retrancar pelo resto do jogo, esperando pacientemente a taça. O destacado para a cobrança é Tarciso, o Flecha Negra, artilheiro do time e cobrador oficial há muitos anos. Tarciso nunca errava pênaltis. Mas esse Gre-Nal de 1977 precisava de uma dose de emoção a mais, só para temperar. Tarciso parte para a bola, mira o canto direito e…..erra. Os colorados gritam, urram de emoção, e o próprio Inter perde a timidez do visitante e começa a atacar. Os gremistas parecem não acreditar no que vêem e alguns já se resignam com mais uma derrota.Porém, aos 42 minutos, o volante Vítor Hugo, especialista no desarme, rouba a bola de Batista. Toca para Iúra, deus da raça gremista, que faz um lance de craque: lança no meio da zaga colorada, bem onde se encontra André Catimba estrategicamente posicionado. André recebe e bate de direita. A bola vai no ângulo de Benitez, goleiro da seleção paraguaia recém-contratado para substituir o grande Manga. Benitez era ótimo goleiro, mas o chute era indefensável. Grêmio 1 x 0, com direito a uma comemoração maluca do centroavante baiano que custou-lhe o resto do clássico, substituído pelo eterno ídolo gremista Alcindo. O primeiro tempo termina logo depois. Ensandecida, sem acreditar no que vê, a torcida do Grêmio não agüenta a emoção durante o segundo tempo. Aos 42 minutos, quando o Inter tem a bola e pretende iniciar um ataque, uma multidão de gremistas invade o gramado para comemorar o título. Em poucos minutos, mais da metade do estádio está em campo com os jogadores do Grêmio e ainda começando uma confusão com os colorados, que exigem o imediato reinício da parte. Um reinício que nunca vem: o juiz termina o jogo e manda todos para casa. O Grêmio é oficialmente, e finalmente, campeão gaúcho de 1977.

Dissemos logo acima que um Gre-nal fecha ciclos e inicia outros. E que esse Gre-Nal de 1977 fechou um grande ciclo. Na verdade, “ciclo” é uma palavra equivocada. O que essa vitória incrível do Grêmio de Corbo, Eurico, Ancheta, Oberdan, Ladinho, Vítor Hugo, Iúra, Tadeu Ricci, Tarciso, André e Éder, mais Zequinha, Alcindo, Cassiá e outros, foi o marco de uma mudança histórica do clube. A partir daquele jogo, daquele jogo inacreditável, inesquecível para os que o assistiram, o Grêmio deixou de ser aquele time ranheta, que se limitava a complicar a vida das grandes equipes do país e apanhar sempre que postulava algo maior, para se tornar de fato um dos maiores clubes do futebol brasileiro. Em 1978 o time chegou em quarto lugar no Brasileiro, sua melhor colocação até então. Em 1979, foi novamente campeão gaúcho. Em 1980, voltou a ficar entre os quatro do país. E em 1981 veio outra vitória inacreditável, contra o São Paulo e seus sete jogadores de seleção brasileira, em pleno Morumbi. E em 1983, outra vitória inacreditável, contra o Peñarol e seus seis jogadores de seleção uruguaia e seus três títulos mundiais. E naquele mesmo ano, contra o Hamburgo e seus cinco jogadores da seleção alemã vice-campeã da Copa do Mundo, mais uma vitória. Inacreditável. Heróica. Inesquecível. Como passaram a ser as vitórias do Grêmio.

São conclusivas as palavras de um dos heróis daquela conquista, o ponta-direita Tarciso: “Até hoje, quando assisto Gre-Nal no Olímpico parece que estou vendo aquele jogo de 77”. Não é nenhuma ilusão do ídolo gremista. É porque, de certa maneira, o Grêmio ainda está jogando aquela partida. O juiz, lembrem-se, não deu o apito final. Quando joga com adversários aparentemente imbatíveis, como o Inter de Falcão e Figueroa, o Grêmio, com o seu plantel de zagueirões, cabeças de área e centroavantes matadores, muitos deles trintões, como Oberdan e Tadeu Ricci (ou Douglas) mas também ou jovens recém saídos da categoria de base, como Éder (ou Mamute, Luan e Lincoln), com ídolos castelhanos como Corbo e Ancheta (ou Braian, Cebolla ou mesmo Matias), o Grêmio apenas segue jogando metaforicamente aquela partida que mudou para sempre a história do futebol gaúcho e brasileiro ao retirar um clube da semi-obscuridade regional e colocá-lo no patamar dos maiores do mundo. É um jogo duro e longo. Às vezes o adversário está melhor, às vezes, é o Grêmio quem está melhor, sempre suando a camisa, sempre levantando e dando a volta por cima, sempre lutando contra tudo e contra todos. Sempre Imortal.

Airton Pavilhão- “É maravilhoso saber que fiz tanta gente feliz”

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Falando um pouco sobre (contra o) marketing infantil durante o #IACL , evento incrível que ocorreu na Faculdade de Direito da #UFRGS. #workinprogress #watercolor 😊 🌞🌞 #skyline 😊😊 Essa aquarela foi finalizada neste final de semana, mas sempre acho interessante lembrar dos momentos em que a tinta estava secando :) #watercolor #aquarela #gaucho #arts #art

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