Arte, Entrevistas

Entrevista com Irmão Renato Koch: “A arte é a conjugação do talento e do trabalho”

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Os finais de tarde nas cidades são sempre ruidosos, turbulentos, palpitantes. E o são ainda mais em cidades como Canoas. O final de tarde é o momento do operário voltar extenuado para sua casa, do estudante correr para apanhar o trem rumo às aulas noturnas – que seguem, é claro, um dia cheio – e do profissional liberal realizar à noite tudo aquilo para o qual o dia não bastou.

 Assim era o final daquela tarde de terça-feira em que eu e a Lúcia passamos, mais uma vez, pelos portões do La Salle, nosso velho Colégio, onde ja havíamos como alunos. Saindo das agitações do centro, sentamos com nossas câmeras e material de gravação no banco em frente ao prédio da Capela São José, onde a estátua de São João Batista de La Salle. Ali, em meio às memórias ditas e não ditas, encontramos Roberto Tietz, nosso ex-professor de Educação Física, multipremiado treinador de vôlei. Vem ele da agitação da cidade, da nossa cidade, da nossa Canoas rude de ferro e madeira, de gás e fumaça, de grito e ruído, para o silêncio do pátio do colégio por onde, também ele, passou como aluno, para depois passar como professor. Naquela tarde, porém, o Tietz vem  na condição de guia e intermediário entre nós e nosso entrevistado, irmão Renato Koch, 72 anos, um dos maiores restauradores de Igrejas do Brasil, especialista em órgãos de tubo, músico multintrumentista, pintor e escultor. Após um telefonema do nosso cicerone, irmão Renato nos aguarda em frente à capela, caminhando lentamente em nossa direção. Gentilmente nos leva aos seus aposentos, onde, na companhia de clássicos da música erudita, livros de História da Arte, da Arquitetura e da Música, instrumentos por ele construídos, quadros por ele pintados e esculturas por ele elaboradas, frequenta os maiores de todas as artes com a familiaridade de quem os conhece, e bem, por toda a vida. Ali, todas as manhãs, enquanto os homens da rude Canoas despertam apressados para as premências da jornada, irmão Renato levanta-se calmamente e, em passo a um tempo tranquilo e tenaz, acende as luzes e abre as portas da capela São José – cuja restauração comandou, há alguns anos – dando início a mais um dia de dedicação a fim de que, em meio à agitação do progresso, ao correr do tempo e aos finais de tarde ruidosos e turbulentos, não se perca o que é permanente.

O senhor é  natural de onde?

Sou de Carazinho. Na época em que nasci, em 1943, o local ainda era parte de Carazinho. Hoje é o município de Tapera. É o início da região das Missões. Minha família tinha origem alemã, falávamos alemão em casa. Minha mãe, inclusive, falava muito bem o alemão gramaticalmente. Meu pai trabalhava como plantador de trigo e soja. No entanto, eu nunca trabalhei no campo. Como de menino tive um câncer na perna, isso me retirou do trabalho físico.

Esse impedimento chegou a atrapalhar na escola ou em outro aspecto da vida infantil?

Bom, isso me atrasou um ano na escola. Mas fora isso, não. Nós adorávamos ir à aula, mesmo com as dificuldades, era muito frio e lembro que íamos à escola a pé, com frio, as poças de gelo congelavam e nós pisavamos em cima (risos). E o Primário no Rio Grande do Sul era muito forte. Tinha a revista do ensino, e todos os professores tinham de ter o magistério para ensinar na escola primária. Há alguns professores meus ainda vivos e eu tenho contato com eles ainda hoje. Tinha uma professora aquarelista, ela pintava muito bem, cantava muito bem, e isso me me fascinava. Também cantávamos muito na escola. Minha mãe tinha ouvido absoluto e minha irmã também tem. Se ela tivesse desde criança estudado piano teria sido uma grandissima pianista.

Durante a infância recebeu alguma influência no sentido de se tornar artista?

Houve, sim, e muito forte. Meu avô paterno era um clarinetista profissional e a minha mãe também era do campo das artes e gostava muito do piano. Chegou a ser professora de artes culinárias. Além disso, ela fazia crochês, toalhas e outras coisas muito bem. Tudo tinha de ter arte. E isso se verificava até mesmo no ensino. Quando íamos para a escola juntos, eu e meus colegas fazíamos competição de quem antes decorava a poesia que tínhamos aprendido em aula. Mas eu, sem falsa modéstia, saí do poço como um petróleo que jorra por si: eu tinha de fazer arte.

As aulas na sua escola eram em português?

Eram. Fui alfabetizado em português, como toda a minha geração. Já a de minha mãe foi alfabetizada de manhã em alemão e de tarde repetiam a mesma coisa em português.

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Tem irmãos?

Somos seis, quatro homens e duas mulheres. Um irmão mais novo seguiu na arquitetura, e ainda é hoje professor em Frederico Westphalen, de maquetes. Os outros foram para o campo.

É impressionante a qualidade do ensino de uma região do interior do RS, aparentemente afastada dos grandes centros

Sim, mas veja: na nossa escola, passavam coordenadores estaduais periodicamente e reuniam os professores da escola para uma inspeção, a fim de ver se tudo estava bem. E as provas vinham lacradas, como as prova de vestibular de hoje, para o primeiro ano primário, diretamente de Porto Alegre, impressas. Assim que chegavam, os professores as levavam lá a frente, com o lápis na mesa, e diziam, “vamos abrir as provas” –  nem os professores as tinham visto.

Que tipo de aluno o senhor era?

Ah, eu perguntava muito, às vezes fora da lição. Lembro de ter perguntado a uma professora:, porque se diz que o Brasil foi descoberto em 1500, sendo que a América foi descoberta em 1492 e está encaixado na mesma América? Ela me respondeu: “Favor não me fazer perguntas fora da lição” (risos). E também havia lá um colégio de freiras, de irmãs, do Coração de Jesus, onde, lembro bem, iam irmãs de Florença, na Itália, e lá faziam cenários para os teatros. Veja que se dizia que o ensino não iria tão elevado nesse colégio. Quem queria que o filho fosse adiante, fosse médico, advogado, colocava os filhos na escola pública.

Isso me impressiona muito. Nasci em 1983 e para mim é um pouco difícil imaginar um mundo em que a escola pública era melhor do que a particular.

 E foi! Veja-se o Colégio Rondon, na época do professor Frank. O RS e MG eram os dois estados do país que tinham educação mais elevada.

O senhor já sentia que possuía a vocação religiosa na juventude?

Já, sim. Na minha cidade havia um seminário, o pré-seminário, onde se fazia a preparação para virar padre. Era o seminário menor. Naquele tempo colocaram o padre mais duro para controlar  o seminário. Inclusive por isso muitos seminaristas fugiram para as terras do meu pai, onde ele lhes dava assistência e tudo o mais.

Eu, quando fui pra lá, fiquei impressionado com o rigor. A comida era muito ruim. Eu então disse: “não quero mais ser padre”. Foi uma decepção, sobretudo para minha mãe. Depois fiz o exame de admissão ao ginásio. Aí fui depois estudar em Palmeira das Missões e ali vivia da pintura

A esta altura, já pintava?

 Já. Eu obtinha material da seguinte forma: chegava na aula e tinha um colega chamado Carlinhos Grun, filho de alemães, que tinha tinta a óleo e o material todo, e eu trocava com ele por rapadura (risos). Eu tinha naquela época 12, 13 anos.

Com que idade foi para Palmeira das Missões?

Com 14 saí de casa e fui para Palmeira das Missões. Depois ganhei uma bolsa de estudos para ir ao La Salle de Carazinho, um dos melhores da região. Ali no La Salle um amigo meu, chamado Ibaté de Moura Branda, que hoje é engenheiro em carazinho, me disse: “tu leva jeito pra padre”. Ele se lembra disso ainda hoje! Passado um tempo, decidi ser irmão lassalista. Depois entrei na congregação com 1960, e tomei a farda com 19 anos. Fiz o noviciado em 1962, em Flores da Cunha. Numa quinta-feira santa eu vi um coro de quarenta irmãos e eles cantaram uma lamentação de Jeremias profeta a quatro vozes aquilo me derrubou e eu disse “é aí que eu fico”. Parecia que estava ouvindo algo eterno. Foi como quando eu fui escutar um órgão numa cidade vizinha da nossa, ouvi os baixos, e eles me deram uma ideia de eternidade. Foi a confirmação de que a minha decisão havia sido a correta, uma verdadeira iluminação divina. Ouvi dizer que Paul Claudel teve a mesma sensação: ele era ateu e passou em frente a Catedral de Notre Dame de Paris quando estava tocando um órgão. Quando ele se deu por conta ele estava chorando, ajoelhado. Ele disse que era amigo de muitos teólogos, mas nunca conseguiu ter fé.

E depois o senhor entrou para a Escola de Belas Artes da UFRGS, não?

Sim, isso mesmo, ali no centro. Posteriormente, fiz também arquitetura em Minas Gerais, o que foi maravilhoso, afinal, as cidades históricas estão todas lá. Eu era também apaixonado por fazer aquarelas. Eu ia a uma cidade histórica, na rua, e vendia aquarelas. Por isso sempre tinha dinheiro (risos). Fiz isso na Italia também. Lá desenhava na rua, no chão, com aquele giz colorido que é um pastel e punha caixinhas para arrecadar dinheiro em cada idioma: “danke schon”, em alemão”, tante grazie, em italiano e merci beaucoup, em francês, e um muito obrigado.

Que tipo de desenhos fazia?

Releituras, basicamente. O que, para qualquer pintor, é importante.

Picasso dizia que fazer releitura era divino e pintar maus quadros era cretino….

Claro. Veja-se, por exemplo, que o museu do Prado, em Madrid, nasceu como adendo do Belas Artes onde copiavam quadros célebres. Em Viena, eu copiei quadros do museu de lá. Isso é normal e importante para a formação do pintor.

Quando foi sua primeira ida a Europa?

Em 1981, fazer um curso no Centro Internacional Lassaliano,em Roma. Foi nesse período que eu desenhei na rua para pagar as diárias. As pinturas dos irmãos superiores lassalistas foram restauradas por mim também. Posteriormente, recebi uma proposta para trabalhar no Vaticano. Ali aprendi novas técnicas, como a de fazer retelagem, que consiste em pegar uma tela podre, retirar a crosta da tinta e por numa tela nova. Mas meu escopo lá era estudar órgão no Pontifício Instituto de Musica Sacra de Roma. Foi um período muito enriquecedor.

Foi muito dificil voltar?

Foi muito difícil voltar. Mas era necessário. Meu pai havia falecido e eu tinha de voltar.

O senhor trabalhava com restauração de que?

De igrejas. A Igreja São Luiz se transferiu para cá por um ano. Creio que restaurei umas sessenta.

Quais o senhor elencaria como as mais importantes?

Talvez a catedral de Santo Ângelo. Ali se formou uma firma ao meu redor, com os empregados, mas eu não posso ter firma, então eles formaram. Além disso, fui muito bem tratado pelo pároco. Pedi que fechassem a igreja por um tempo para fazermos a restauração, e ele prontamente me atendeu.A Catedral de Criciúma, a de Novo Hamburgo e outras que pediram para fazer. Eu faço pela congregação. O Irmão Provincial me delega.

Na Europa trabalhou em quais?

Na Europa eu trabalhei na restauração dos quadros da congregação. Acho que são mais de vinte telas diferentes. Restaurei o órgão da nossa casa lá, que é um grande instrumento, e trabalhei junto ao Pontificio Instituto, onde tive contato com a firma Marchioni. Conheci e restauramos “n” instrumentos importantes.

E qual a mais antiga das que o senhor trabalhou na restauração?

A de São Rafael, creio. Tinha 150 anos. Ela tem uma história muito bonita. Dom Sebastião Laranjeira foi a Paris para o Concilio Vaticano I, e na volta ele passou por Paris e comprou um pequeno órgão, o qual, naturalmente, trouxe de navio. Este órgão eu também ajudei a restaurar. O navio quase foi a fundo. Os padres então se reuniram na proa e fizeram um voto a San Rafael, padroeiro dos nautas no Antigo Testamento, e ali se salvaram e construiram essa capela, San rafael, que tem 10 sinos.Cada restauração é uma releitura. Eu, nessa capela, fiz uma releitura do que tinha desenhado na parede, mas isso foi apagando, o povo passava vassoura para limpar e destruia. Enfim. O restaurador  tem de respeitar a história. Se está no estilo românico eu não posso transformar em gótico e vice-versa. Era um trabalho dentro do neoclassicismo românico e o que tinha eu apenas ressaltei. E também a reconstrução do espaço fisico. E deve-se adaptar à liturgia pós-concilio.

Qual o maior compositor de música para órgão de todos os tempos?

O Bach é o que mais se sobressaiu. Foi o maior genio da música que surgiu, não só no que diz respeito ao órgão. Um concerto sem Bach é como uma festa sem churrasco para o gaúcho.

 O órgão precisa de quais cuidados?

O órgão precisa ser mantido a uma certa temperatura. Ele sobe e desce de tom conforme o frio e o calor. Uma mudança de dois graus já dá uma certa diferença. Além disso, cada flauta tem uma sonoridade que depende do teor de estanho. Quanto mais estanho tiver, o som fica mais “lírico”, brilhante. As que têm 50% de estanho e 50% de chumbo são mais graves. É como um coral onde há um grupo de universitários e põem uma pessoa mais idosa, que tem outro timbre. E afinar um órgão é durissimo.

 Quanto tempo leva?

Depende do tamanho dele. Este (o órgão da capela São José, em Canoas), para afiná-lo todo, e com um bom ajudante, levo em torno de um mês, trabalhando de manhã à noite. É um órgão de 2500 flautas. No Rio de janeiro eu afinei um que tem cinco teclados e é o maior da America do sul, está em Niterói, na igreja Nossa Senhora Auxiliadora. Ali são 11 mil e 830 flautas. Ali demorei para afinar uns seis meses. Ali estava um colega meu de curso de Roma, que faleceu há um ano, durante o concerto. Teve um infarto fatal. Ficaram filmando no telão, quiseram esconder mas o público se deu conta. E quando desceram-lhe o corpo ele foi aplaudido por todos. Uma história impressionante.

O senhor tem formação em artes e arquitetura, é pintor, escultor, músico……concilia bem todas estas atividades?

Eu não vejo diferença. Tem o lado do órgão, tem o lado da arquitetura, pintura e escultura, e todos se completam, estão unidos num todo maior. A arquitetura me ajuda a arquitetar a peça. E eu tenho apreciação também por outras artes, como a literatura.

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Fonte foto:Unilasalle     Capela São José do Unilasalle/Canoas, restaurada pelo Irmão Renato Koch

Quem admira na literatura?

Graciliano Ramos, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Machado de Assis, José de Alencar. Alguns deles eu costumo de dizer que são verdadeiros pintores, pois pintam quadros com palavras. Em José de Alencar, por exemplo, a maneira como termina “O Guarani” é extraordinária. E a própria a poesia tem pontos em comum com a música. Lembro da poesia “café com pão” do Drummond, que imita o som de uma máquina a vapor. E admiro quem consegue dizer tanta coisa em poucas palavras. É o chamado talento. No entanto -e isso quero enfatizar, e serve para qualquer arte – o talento, em qualquer arte, tem de ser aperfeiçoado. A arte é a conjugação do talento e do trabalho. O talento, sozinho,é apenas “lento”, se não for desenvolvido. Ele precisa ser aperfeiçoado.

Como homem religioso, no entanto, é visivel que a arte medieval tem para o senhor uma especial relevância.

Claro. A Idade Média foi um momento grandioso na história da cultura. Nunca mais se combinou tão bem a arquitetura, a música e a teologia num todo coeso. Veja o canto gregoriano que ressoa dentro das catedrais, como em Notre Dame, ou em Colônia com seu pé direito de 50 metros, onde o homem sente-se uma formiga perto de Deus. Tudo está ali interligado.

Irmão Renato Koch acendendo as luzes da Capela São José, trabalho que realiza diariamente

Discussão

2 comentários sobre “Entrevista com Irmão Renato Koch: “A arte é a conjugação do talento e do trabalho”

  1. Ir. Renato: Grande Ser Humano!

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    Publicado por Andre Gabriel Beneduzi | 19 de maio de 2015, 13:05
  2. O Irmão Renato Koch é mestre. Perfeccionista. Amigo das artes – várias – e das pessoas que admiram a cultura, a arte e o talento. Com ele estudei. Bastante. E aprendi a admirar sua perfomance. Sua ética. Sua inspiração para o belo, para a construção do encantamento. Seu limite é a pura inspiração. Arrojado, soube perseguir, com sede incansável, novos horizontes. Correto, em pensamento e atitudes, construiu uma obra magnífica. Puro encantamento. PARABÉNS, Ir. Renato.
    Prof. Romeu Halmenschlager

    Curtir

    Publicado por Romeu Halmenschlager | 24 de setembro de 2015, 19:06

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