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Política

Têmis e as tentações da mídia

Em sua obra clássica “O Impeachment”, Paulo Brossard tecia duras críticas a este instituto com base numa argumentação que só ganhou força com o passar do tempo: a de que, no mundo de hoje, um julgamento de ordem política, conduzido por políticos e executado por políticos para punir políticos corria o seríssimo risco de ver-se contaminado pela influência marcante e crescente dos meios de comunicação de massa nas decisões populares e, por consequência, na atividade dos representantes do povo. Um deputado ou senador estaria, segundo ele, mais sujeito às pressões do midiático do que os julgadores tradicionais, isto é, os membros do Poder Judiciário.

Brossard escreveu esta obra em 1965. Seu ponto de vista está menos marcado pela época em que foi elaborada do que pela formação de seu autor, liberal clássico de boa cepa e confiante no Poder Judiciário no reserva moral inatacável e alheia a toda relação com o midiático.  Os políticos, fruto da democracia de massa, não estariam alheios a isso. Os juízes, escolhidos necessariamente entre a elite intelectual da nação, sim. E esta visão ainda está, em grande parte, presente na consciência popular, que nitidamente tem pelos membros do Poder Judiciário muito mais estima e respeito do que pela classe política.

Grande parte desse respeito e desta estima está consubstanciado na imagem tradicional da deusa Têmis, com sua venda nos olhos. Ela representa uma Justiça que não é propriamente cega, mas que cobre os seus olhos para não cair na tentação de decidir de acordo com as figuras envolvidas. Essa confiança nos “olhos vendados”, na sobriedade, na postura discreta e alheia a clamores midiáticos, que gera a segurança. Uma segurança que, de Paulo Brossard ao cidadão comum, todos esperam do Judiciário.

Hoje, ao acompanhar a página de Facebook do meu amigo, o professor Dr. Gabriel Divan, li sua manifestação indignada a respeito da decisão do serviço de comunicação do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul (TJRS), que age contra os verdadeiros propósitos da instituição e da sua sua missão em relação à sociedade ao tratar de forma sensacionalista o terrível caso da morte do menino Bernardo. O Gabriel, assim como Brossard, assim como todos nós, espera que o Judiciário mantenha-se longe, e acima, do midiático. Certamente não é papel da página do Tribunal de Justiça do RGS rivalizar com os jornais sensacionalistas na divulgação dos sórdidos detalhes de um crime impactante. O destinatário de seus serviços não pode ser visto como um público consumidor que precisa ter sua atenção chamada através de banners e chamadas.

Que a Justiça cumpra seu papel investigando, julgando e punindo exemplarmente quem for condenado. E que se deixe para os tabloides a divulgação de detalhes e alarde. Hoje é esse crime sendo repercutido com estardalhaço na página que deveria ser sobriamente isenta; amanhã pode ser qualquer outro, a critério subjetivo do responsável pela mesma. É esse o ponto.

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