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O desrespeitoso tratamento destinado ao futebol feminino

Veja: Futebol feminino: O gramado sintético e a discriminação da FIFA

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CBF

Seleção brasileira com o mascote da Copa do Mundo 2015

Bah, mas que tanta  mulher feia! Olha aquela ali. FUTEBOL DOS GURIAS, HA,HA,HA

As expressões grosseiras destacadas acima são apenas algumas das muitas que são ouvidas quando se assiste a alguma partida de futebol feminino em lugares públicos. A resistência masculina à prática do esporte bretão por mulheres é algo indicativo do atraso cultural que ainda vivemos no Brasil.

Isso porque grande parte da sociedade brasileira ainda não consegue olhar para uma mulher sem, imediatamente, buscar razões para fazer exigências que não são sequer pensadas em relação aos homens.

Os comentários são dos mais abjetos e horrorosos. Tudo de acordo com a “Tabela Machista” de avaliação do futebol feminino. A jogadora é ou “bonita demais” – e aí, alvo de comentários sobre esta ‘qualidade’, ficando o futebol em segundo plano – ou “feia demais” e, aí, claro, “só podia jogar futebol mesmo”.  Clássicos, ainda, são os comentários chavões sobre as jogadoras “masculinas demais”.

Em suma: mulher, quando joga futebol, tem todas as suas características pessoais destrinchadas, avaliadas e pontuadas como protagonistas, como se isso fosse o mais importante a ser destacado em relação àquelas mulheres. Se jogam bem ou não, é outro detalhe.

Evidentemente, sabe-se que é impossível evitar comentários sobre características pessoais, porque mesmo no futebol masculino isso é comum (vide Cristiano Ronaldo). Todavia, no futebol masculino essa avaliação é feita de forma periférica, coadjuvante. O aspecto principal analisado no jogador é a qualidade técnica. No feminino, há a tendência de destacar primeiro o atributo físico/pessoal. A questão técnica é que é tratada de forma periférica.

Quando pretende falar de futebol, a mulher, basicamente, tem que “provar que pode”. Tem que provar que seu interesse vai além desse ou daquele jogador.

Quando se diz torcedora de um clube, é bombardeada com perguntas sobre a história daquele clube, tudo com o fito de provar que, sim, pode se dizer gremista, colorada, corinthiana, etc. É constantemente sabatinada, questionada sobre o aspecto tático. Comprovar que não é, basicamente, uma “torcedora/tiete de ocasião”.

Aliás, sempre, de início, se supõe que a mulher admira o Cristiano Rolando porque ele é “gato”. Uma mulher não tem o direito de admirar o Cristiano Ronaldo porque ele, afinal, tem três Bolas de Ouro e é artilheiro constante dos campeonatos que disputa. Não. “Ah, tu prefere ele ao Messi porque ele é mais bonito.” A propósito: prefiro o Messi.

Por sinal, aparentemente é impossível achar um jogador bonito e, ao mesmo tempo, apreciá-lo por suas qualidades como jogador. O critério admitido é ou um, ou outro. Se acha bonito, então é por isso, e só por isso, que admira. Mesmo que a mulher lute, com todas as suas forças, para “provar” a admiração pelo jogador por suas qualidades técnicas. É uma visão bidimensional e simplista, que cataloga as opções de forma única e excludente, ou uma ou outra, sem permitir nuances.

Em outras palavras: quando fala de futebol, uma mulher, para ser respeitada (e, por respeito, leia-se não ser alvo de piadas constantes)  tem que se mostrar especialista no assunto. Tem que elidir a presunção de que não entende o suficiente (tudo segundo critérios masculinos, é bom que se destaque).

A respeito das piadinhas, é como se existisse um manual de conduta: “Como reagir às mulheres que dizem gostar de futebol”. É um padrão.  De início, quando uma mulher tenta participar do assunto, o ar mais respeitoso (se é que assim se pode dizer) a elas destinado é o de condescendência. Quase de pena. Se a mulher insiste e consegue “provar” que pode entrar para o time daqueles que debatem o esporte (time esse que, muitas vezes, é lotado de homens que sabem muito menos do que ela), ainda assim, em 99% das vezes, será alvo de piadinhas quando mostrar que sabe demais, como se isso fosse notável e digno de destaques. Quase como se faz com aquela criança que aprende a ler cedo.

Pondera-se que não são todos os homens que agem assim. Todavia, o comportamento dos que agem é referendado pelo próprio tratamento destinado pela imprensa e pelas organizações das competições de futebol feminino, colocando-o em um segundo escalão do esporte. Ou seja: o comportamento “oficial” destinado ao futebol feminino é o do desdém e o do desrespeito. Os muitos homens que assim não agem estão, também, agindo contra a maré, contra o tratamento oficial.

Indo de fora para (quase) dentro do campo, vale o destaque para a forma como são tratadas as “bandeirinhas”. É impossível assistir a um jogo com assistentes mulheres sem que o narrador (ou comentarista, ou o repórter, enfim) faça algum comentário sobre a beleza da bandeirinha. Impossível. O pior é que tratam isso como um ato de elogio. Pior: bandeirinha (ou juíza) mulher, quando erra, erra porque “é mulher”. “Não dá pra pôr mulher apitando jogo de futebol”. ‘Vá posar para a Playboy, não trabalhar com futebol’. Essa última, pasmem, foi dita há pouco mais de um ano, por um dirigente do Cruzeiro.

Bandeirinhas homens, em contrapartida, se erram, não erram “porque são homens”. Não são ceifados da atividade em razão do seu sexo.

 E isso, esse comportamento, obviamente, como já dito, se verifica no futebol feminino. Um machismo tanto expresso como implícito, que se materializa tanto em comportamentos explicitamente abjetos (como o do dirigente do Cruzeiro) quanto no desdém. O desdém ao futebol feminino é tamanho que mesmo na TV paga é difícil assistir às partidas, além de ser praticamente impossível descobrir o horários dos jogos ( no PERSPECTIVA você pode vê-los AQUI).

Assistindo aos jogos da Copa do Mundo (aos poucos transmitidos, é verdade), com seus estádios lotados, vê-se que o Brasil é um resistente: resiste, insistindo em indeferir mínima atenção à seleção feminina, equipe que, gize-se, tem Marta, a mais vencedora da(o)s jogadora(e)s brasileira(o)s de futebol em atividade, já nomeada 11 vezes para o prêmio da Fifa, tendo vencido em cinco oportunidades. Respeitadíssima mundialmente, Marta é, sim, mais conhecida do que as demais atletas de futebol no Brasil, mormente porque é unanimidade no resto do mundo, reconhecida como uma das maiores jogadoras de todos os tempos. Ainda é muito pouco: se fosse norte americana, por exemplo, seria tratada como uma verdadeira estrela, cobiçada por eventos e anúncios publicitários.

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Nem o reconhecimento mundial de Marta consegue fazer com que o futebol feminino seja valorizado no Brasil

Há, assim, um desdém insistente quando o assunto é futebol feminino. Como se as mulheres estivesse adentrando em terreno masculino, de propriedade dos homens, e somente eles teriam o condão de permitir essa entrada. Como se precisassem pedir licença.

Evidentemente, isso vem mudando. Cada vez mais é possível notar a presença de meninas que jogam futebol, algumas semanalmente, lutando contra o preconceito intrínseco em um país que insiste em considerar o futebol como um esporte masculino. Mulheres que assistem ao futebol, como é direito seu, seja pelo motivo que for, sem a necessidade de justificar o seu apreço pelo esporte e pelos atletas. Mesmo porque inexiste esse dever de “dar explicações”. Gosta porque gosta. Ponto. Não precisa provar (nem justificar) o gosto. Não existe essa obrigação de se submeter à sabatina.

E quando se falar no esporte, em si, tampouco se pode admitir como absolutos os chavões como “placares dilatados demais” e partidas ruins – crítica padrão quando se direciona a abordagem exclusivamente para o futebol (especialmente quando se recorda do inesquecível 7×1 vivenciado pela seleção masculina, maior vexame da história das Copas).

Em uma sociedade na qual se luta dia a dia pela igualdade e respeito entre os sexos, é de se refletir (e combater) acerca do tratamento machista e atrasado ainda destinado às mulheres que demonstram gostar de futebol. E, diante do momento atual do futebol masculino (e de tudo o que o circunda), mostra-se mais do que atual a reflexão sobre a justa posição do futebol feminino no contexto do futebol brasileiro.

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Sobre Yassmine Uequed Pitol

Yassmine Uequed Pitol nasceu em Porto Alegre em 30 de maio de 1984. Graduada em Direito em 2011 pela Uniritter. Pós graduada em Direito do Consumidor pela Ufrgs (2014). Cursou Artes Visuais na Ufrgs.Atualmente cursa Pós Graduação em Direito Processual Civil na Uniritter e mestrado em Direito no Unilasalle. Yassmine gosta de jogar futebol e de correr. Pintora e desenhista, acompanha futebol, filmes, seriados, música e tênis. No Perspectiva Onlina, escreve sobre tudo isso e muito mais.

Discussão

8 comentários sobre “O desrespeitoso tratamento destinado ao futebol feminino

  1. É lamentável que seja dada praticamente nenhuma importância à participação da Seleção Brasileira de Futebol Feminino. Sendo o Campeonato Mundial Feminino, disputado no Canadá, ao mesmo tempo que que se realiza a Copa América, ao que parece só a Sport TV faz a cobertura dos jogos. Para conseguirmos alguma noticia sobre aquele evento, encontramos as maiores dificuldades. Isso porque temos a maior goleadora em Copas do Mundo, indicada também sete vezes para a melhor do mundo, das quais, saiu se vencedora em cinco vezes. Até quando iremos ignorar essas meninas que, enfrentando as maiores dificuldades, não medem esforços para levar o nome do futebol brasileiro ao exterior?

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por Renato Jose Alves | 14 de junho de 2015, 21:57
    • Pelo menos o Brasil tem uma seleção.
      E os outros países que nem sequer tem uma seleção de futebol feminino ?
      A copa do mundo de futebol feminino tem pouquíssimas equipes. Será que um dia alcançarão o nível do futebol masculino? Acredito que, apesar da evolução do futebol feminino, não alcance tanto público quanto o esperado.
      As nossas guerreiras do futebol demonstram raça, força e qualidade em campo, enquanto nossa seleção masculina do idolatrado Neymar (principalmente pela globo) jogam por jogar.
      Infelizmente as coisas são assim, valorizam o que não merece ser valorizado e desprezam o que realmente faz a diferença.

      Curtir

      Publicado por Jéter Miguel | 16 de junho de 2015, 20:36
  2. TENHO.ORGULHO.DE.VER.ESSAS.MENINAS.JOGAR

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    Publicado por A | 20 de junho de 2015, 12:25

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