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Entrevista com Matheus Bertotto, volante do Internacional: “O Inter tem uma mentalidade vencedora que levamos conosco desde a base”

“O Inter tem uma mentalidade vencedora que levamos conosco desde a base”

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Quando eu e o Fábio entramos pela porta envidraçada do Haus Burger Bar (rua Dr. Prudente de Moraes, 555, bairro Três Figueiras) naquele começo de noite de quinta-feira, dia 11 de junho, a chuva que caíra em Porto Alegre durante a tarde havia cessado e o frio já se fazia sentir. Felizmente fomos acolhidos pelo agradável interior da casa, bem guarnecida das inclemências do clima pela calefação e do stress urbano pelo ambiente decorado em madeira, pelos quadros e pela gentileza dos atendentes capitaneados por Júnior , o dono do estabelecimento.

Minutos depois de nos acomodarmos nosso entrevistado junta-se a nós: é Matheus Bertotto, volante do Internacional,  que se apresenta com a camiseta colorada por baixo do casaco e do cachecol. Uma das revelações das categorias de base do clube e capitão da equipe campeã brasileira sub-20 em 2013, Bertotto vem recebendo elogios pelas atuações seguras desde a metade do ano passado, quando passou a integrar o elenco principal do Inter. Competente na marcação, com boa visão de jogo e dono de um ótimo passe, este admirador de Steven Gerrard destaca-se numa posição particularmente difícil para jogadores jovens, em geral menos familiarizados com as sutilezas táticas que ela exige. Tudo isto – os começos de sua carreira, a vida na base do Inter, a sua chegada ao grupo principal, as referências em sua posição que admira e seus principais objetivos – foi abordado numa entrevista que se estendeu por duas horas regadas a boa comida e boa bebida.

*              *             *                *

Onde nasceste? Onde realizaste a tua formação?

Em Porto Alegre. Estudei no Colégio Santa Inês até os 12 anos de idade, quando me mudei para Brasília com meus pais.  Fiquei lá durante cinco anos. Lá tive o primeiro contato com o futebol de campo – antes só jogava futsal – e joguei num clube de lá chamado Legião. Depois retornei para Porto Alegre a fim de terminar meus estudos. E no último ano do ensino médio assinei meu primeiro contrato no Pedra Branca, de Alvorada. A partir daí a coisa ficou realmente séria.

Sempre pensaste em ser jogador?

Sempre.

Em que ano foste para o Pedra Branca? Quanto tempo ficaste por lá?

Em 2010. Joguei também em 2011. Em 2012 fui transferido para o Resende, do Rio de Janeiro.

Notou diferença quando foi jogar no Rio de Janeiro?

Notei. Aqui no Sul é focado mais na marcação. Lá se joga um futebol mais solto, com mais liberdade, mais drible e correria. Eles notam essa diferença e dizem que o nosso futebol tem mais força e pegada. E isso me ajudou bastante a encarar o futebol de lá.

No começo da tua carreira eras meio-campista, não? Como foi a adaptação para a posição de volante?

Sim, comecei de meio campo do Pedra Branca, quando ainda era juvenil. Quando passei para os Juniores me tornei volante. Foi uma adaptação fácil, porque eu era um camisa 10 que organizava o jogo e também gostava de marcar, dava os passes e não deixava de ajudar a defesa. Isso me ajudou muito. Quando me tornei volante vi que aquela era minha posição: um volante vê o jogo de frente, enxerga o campo todo.

Passaste um período na Europa. Como foi?

Tive três períodos na Europa. O primeiro foi quando eu morava em Brasília. Um dos preparadores físicos que eu tive gostou de mim, do meu futebol e por meio de alguns contatos pessoais conseguiu que eu fosse fazer um teste em Portugal. Fiquei dois meses por lá, um mês no Braga e outro no Sporting de Lisboa. Foi um periodo ótimo. Eu era bem novo ainda e isso me ajudou muito. Depois, já no Pedra Branca, que sabia que eu tinha possibilidade de fazer o passaporte estrangeiro, o italiano – sou bisneto de italianos – e resolveram explorar isso. Fiquei um mês na Itália fazendo testes no AlbinoLeffe, um time da Segunda Divisão deles, de Bérgamo, e foi uma baita experiência. Foi em 2011, já tinha 18 para 19 anos.

Imagino que pra um volante ou jogador de defesa uma experiencia na Itália tenha muito a ensinar.

Claro. Lá tem muita força, eles privilegiam muito a defesa, o aspecto tático. De lá saíram alguns dos melhores defensores do mundo. Cada jogador tem de cumprir 100% a sua função em campo. Depois voltei. Mais tarde fui fazer testes novamente na Europa, no Preston North End, onde o Beckham jogou. Joguei lá em maio de 2011. Fiquei duas semanas. Foi uma experiencia muito boa. Lembro que fomos visitar o centro de treinamento do Manchester United e lá estavam o Owen, Scholes e todos os outros. Depois disso voltei definitivamente para cá.

Como foi a tua ida para o Inter?

Em 2012, quando estava no Resende, com 18 para 19, o treinador gostou de mim, o prof. Paulo Campos, e aí acabei me destacando nos treinamentos e joguei todo o Campeonato Carioca como titular.  Joguei no time principal, jogamos contra o Fluminense, contra o Vasco e joguei o resto todo do campeonato. Ficamos em quinto, atrás apenas dos quatro grandes. Aí me destaquei e o Inter se interessou.

Quando foi isso?

Isso foi em setembro de 2012. A princípio vim por empréstimo de quatro meses, de setembro até janeiro. Joguei então a Taça São Paulo e tive o contrato renovado até o fim de 2013. Devido a uma lesão, só pude disputar campeonatos a partir de junho. Aí disputei o Brasileiro sub-20. Ali ganhamos o título, fui o capitão e fiz gol na final. O José Leão, nosso treinador então, me deu confiança para ser capitão. Esse Brasileiro foi a divisória da minha vida no Inter: meu contrato foi renovado por mais quatro anos e me afirmei definitivamente.

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“D’Alessandro me chamou, reuniu o grupo e falou:

‘- Hoje temos aqui conosco o Bertotto, nosso companheiro que está começando. Independentemente do que aconteça essa noite, somos o Inter, somos um grupo.’ Pode até parecer bobagem, mas isso me deixou muito tranqüilo. Essa é a mentalidade que nosso capitão leva para o grupo e para o campo.”

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Como se dá a escolha do capitão?

É preciso ter a confiança do grupo e do treinador. Não existe uma regra. Às vezes a escolha parte do somente do treinador. Em outras situações, ele é escolhido pelo grupo, ele é o cara que todo mundo respeita, aí a faixa vai pra ele.

Jogaste mais de um ano no sub-23, não?

Sim, aí em agosto de 2014 fui pela primeira vez para o time de cima. Disputei nove partidas. E a primeira delas justo contra o São Paulo.

Como foi marcar o Kaká?

Foi um sonho, porque a gente joga com o cara no videogame, e aí você vê o jogador ali, ao vivo. O time do São Paulo tinha Pato, Kardec, Kaká e muitos outros. Foi um jogaço e felizmente eu fui bem naquela partida, tanto que não voltei para o sub-23, como acontece em muitos casos. Depois desse jogo fui para todos os jogos, viajei, estive ao menos no banco em todas as partidas. Foi tudo muito rápido e, ao mesmo tempo, recompensador.

Estava definitivamente incorporado ao grupo principal.

Sim, isso.

Como foi a chegada ao profissinal vindo da base? Antes vias aqueles caras na TV, hoje joga ao lado deles.

É uma coisa louca. Um dia tá treinando na base, com um monte de jovens e outro dia está lá junto com os caras que tu via os jogos. É uma situação que impressiona, sim, no começo.

Depois, com a classificação para a Libertadores, tu estavas cotado para ir para o grupo da Libertadores, não é?

Sim, mas eu me lesionei antes de sair a lista, e aí fiquei de fora.

Como é a convivência com o grupo profissional, com jogadores experientes? Aprende e conversa muito com eles?

É uma relação muito boa, inclusive com os principais jogadores. O D’Alessandro, por exemplo, é um cara 100%. Sempre quer o bem do Inter, quer sempre que o Inter vá para frente e tento de todas as formas aprender alguma coisa com eles. Aliás, lembro de quando fiz minha estréia no Beira-Rio. D’Alessandro me chamou, reuniu o grupo e falou: “- Hoje temos aqui conosco o Bertotto, nosso companheiro que está começando. Independentemente do que aconteça essa noite, somos o Inter, somos um grupo.”. Pode até parecer bobagem, mas isso me deixou muito tranqüilo. Essa é a mentalidade que nosso capitão leva para o grupo e para o campo.

O Inter parece estar num momento especial da sua relação clube-torcida: um time coeso, uma categoria de base muito forte. No teu caso, como jogador, com a formação feita no Inter, sente que o ambiente todo entra contigo dentro de campo?

Claro, isso está tudo bem unificado. A torcida e todos estão na mesma sintonia. Comissão técnica, torcedor, jogador, todos estão juntos e parece que algo vai sair de bom daquilo lá. O Inter está muito unido. Todos estamos em busca do objetivo, não estamos pensando somente em cada um de nós. Pensamos no grupo.

Jogar em casa é mesmo diferente?

Claro. Para mim, a principal diferença entre jogar fora ou jogar em casa é a torcida. Quando jogamos no Beira-Rio estamos jogando no campo em que treinamos todos os dias, não precisamos pegar avião, temos uma série de vantagens. Além disso, quando a torcida está inflamada, não queremos fazer feio na frente deles, dos nossos familiares, nossos amigos.

Queria falar um pouco da tua posição. Ouve-se muito que o volante moderno é o cara que ataca e defende com a mesma competência, ao contrário dos volantes de antigamente. No entanto, quando olhamos para trás, vemos que o time em que jogas, na época em que ganhou tudo, teve dois volantes chamados “modernos”, Falcão e Carpeggiani. Acha que a formação de volantes do Inter tem a ver com isso? Os exemplos desses dois auxiliam na formação de vocês?

Eu acho que sim. Como o Falcão, Carpeggiani são grandes ídolos e exemplos, mesmo inconscientemente acabamos sendo influenciados pelo que eles representam. E, de fato, na base os treinadores enfatizavam que tínhamos que sair jogando, manter o toque de bola, a posse, sem jamais descuidar, claro, da marcação.

Nasceste em 1993. Tu pegaste uma época, nos teus anos de formação, em que o mundo viu o aparecimento de muitos volantes bons: Gerrard, Pirlo, Schweinsteiger, Lampard, Scholes – este de outra época, mas que ainda jogava em alto nível – Xavi e muitos outros. Algum desses, desse periodo, te influenciou de alguma forma? Tens admiração especial por algum deles?

Como eu comecei a carreira sendo meia eu não prestei tanta atenção nos volantes naquele momento. Mesmo assim, já naquela época eu gostava de ver jogadores como Gerrard ou Scholes. Depois comecei a olhar o Gerrard com mais cuidado. Foi um cara que eu sempre gostei, da postura, do futebol, ele defendia, atacava muito bem. E era o capitão, identificado com a torcida. Gosto do Pogba, do Tony Kroos. O Mascherano é outro. Na Copa ele foi fora de série. Acho mesmo um desperdício ele jogar na zaga no Barcelona. Mas, se pudesse citar um em quem me espelho, seria o Gerrard.

Fala um pouco a respeito do autocontrole, da maneira de cuidar o corpo: isso é algo orientado pelo clube ou fica mais a critério de cada um?

Sempre tem uma orientação, mas ninguém fica vigiando ninguém 24 horas por dias. Cada um tem que ser profissional. Cada um tem que conhecer seu corpo, saber seu limite. Ninguém fica em cima. Todo mundo sabe desde a base e aprende desde a base o que tem de fazer. São orientações que todos têm muito claras quando se tornam profissionais.

Nas cinco copas em que o Brasil foi campeão, todos os capitães eram jogadores de defesa: Bellini e Mauro eram zagueiros, Carlos Alberto era lateral-direito, Dunga era volante, Cafu era lateral-direito. Existe alguma razão para isso?

Não tem uma regra específica, mas fica sempre no ar a ideia de que o jogador de defesa é um cara mais responsável. O atacante pode errar lá na frente que não teremos tantos problemas. Já o pessoal da defesa não pode errar, se errar toma o gol. Fica no ar a ideia de que é um cara mais sério. Claro que isso varia muito, mas a impressão que eu tenho é essa.

Tu costumas acompanhar os jogos? Estuda tática dos jogos? Observar como certos treinadores posicionam seus defensores?

Sim. É uma parte que eu gosto do futebol. Sempre que assisto a um jogo eu presto atenção na tática. Até porque a minha posição exige isso. Um bom volante precisa ter alguma noção de tática de jogo desenvolvida.

Qual a tua perspectiva de retorno? Ainda é possível voltar a tempo de disputar a Libertadores?

Em duas semanas. É possível, sim, ainda voltar a tempo de jogar a Libertadores, porque ainda podemos fazer três alterações para a semifinal. O time do Inter está muito bem, todos estão bem, então vai ser um desafio para mim.

Dá para o torcedor pensar em te ver na semifinal?

É o que eu espero.

O Inter, dos anos 2000 para cá, formou muitos jogadores importantes. É uma categoria de base muito prolífica. A que atribuis isso?

Começa com a parte do investimento. O CT onde que a categoria de base treina é ótimo, os profissionais que estão lá são da melhor qualidade, departamento médico, fisioterapia. O jogador não precisa se preocupar com a parte de fora. E tem treinadores que entendem muito de formação, de trabalhar com jovens. Nossa estrutura é muito maior que a dos outros times, sobretudo os pequenos. Entramos sempre para ganhar, não importa contra quem seja. O Inter tem uma mentalidade vencedora que levamos conosco desde a base e depois, quando chegamos ao profissional, ela se mantém. Além disso, a torcida gosta muito de quem é da base. Mostra um orgulho e um carinho diferenciado com o jogador que vem dela.

Jogaste no Pedra Branca, no Resende e agora estás no Inter. Isso de sentir a camisa existe mesmo?

Com certeza. Quando se está no Inter a responsabilidade aumenta. A gente está preparado para isso, claro, mas a pressão é bem maior. A gente sabe e está ciente que a camiseta do Inter é algo bem maior. A torcida é de milhões de pessoas e isso passa para nós.

E sobre o suporte familiar: teus pais te deram apoio desde o começo?

Sempre. Sempre deram apoio à minha escolha, para o que eu quisesse fazer, e sempre estiveram junto, não perdem um jogo e sempre ajudaram. Não parei de estudar, passei no vestibular para Educação Física na UFRGS, penso em terminar o curso e tudo o mais, mas o foco é mesmo o futebol.

A morte do vice de futebol do Inter, Luís Fernando Costa, ocorrida no começo do ano (um infarto durante a madrugada) recebe menções no cotidiano do grupo?

Sim, com certeza. Foi uma tragédia que surpreendeu a todos. Em preleções, treinos e reuniões do grupo sempre é lembrada a imagem e honra do dirigente.

DSC00568Cenário da nossa entrevista
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Discussão

5 comentários sobre “Entrevista com Matheus Bertotto, volante do Internacional: “O Inter tem uma mentalidade vencedora que levamos conosco desde a base”

  1. Bertotto é um excelente profissional, jogador de extrema qualidade e está fazendo falta no time do Inter. Parabéns ao grupo Perspectiva pela entrevista!

    Curtir

    Publicado por Thiago Almeida | 17 de junho de 2015, 10:59
  2. Boa, gostei!

    Curtir

    Publicado por L. Benício | 17 de junho de 2015, 11:39
  3. Parabéns pela excelente entrevista.

    Curtir

    Publicado por Mauro | 17 de junho de 2015, 15:31
  4. Conheci o Bertotto aqui em Brasilia quando ainda só jogava futsal. Tinha um enorme potencial, além de um carácter maravilhoso indo da perfeita educação que teve dos seus pais.
    Um exemplo de atleta e pessoa. Desejo muito sucesso na sua vida!
    Abração

    Curtir

    Publicado por Marcelo Laitano | 14 de julho de 2015, 10:45
  5. Quando me tornei volante vi que aquela era minha posição: um volante vê … xxboxvolante.wordpress.com

    Curtir

    Publicado por vincenzeckholty6 | 22 de julho de 2015, 02:56

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