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Um cedro sob o sol

Quanto tomamos as bandeiras das nações árabes lado a lado destaca-se uma, mais simples, onde aparece, em meio a duas faixas vermelhas, apenas uma simpática arvorezinha: a bandeira do Líbano.

Simpática e algo ingênua: em vez daquelas superposições de figuras geométricas de diversas cores, que simbolizam movimentos e slogans de variado significado, com reivindicações mais ou menos justas e causas mais ou menos nobres, os libaneses preferiram representar o seu país por uma simples plantinha verde que de longe parece um pinheiro natalino, como a denunciar uma filiação ancestral com o cristianismo. E de fato tem, pois a dita plantinha foi várias vezes citada na Bíblia, como material de construção dos palácios de Salomão, Davi e do Templo de Jerusalém. Essa plantinha é o cedro.

É uma árvore com uma característica curiosa: evita, quase obsessivamente, a sombra. Busca sempre o sol, mais do que as outras plantas. Nasce nas montanhas libanesas, a mais de mil metros de altitude, e desenvolve-se melhor nas encostas, onde a luz não encontra barreiras. É como se o destino lhe tivesse posto para nascer em meio às neves e ela, desgostosa com o frio, caminhasse lentamente em direção à luz melhor desenvolver-se, como uma criança que lentamente engatinha para o lado ensolarado da pracinha nas manhãs de inverno.

Não foi diferente o caminho do povo que ela representa. Os libaneses que saíram pelo mundo foram justamente os da montanha, nascidos não sob a canícula do deserto (como convém ao estereótipo do árabe) nem nas praias próximas às movimentadas ruas de Beirute (como convém à imagem de “Paris do Oriente”, atribuída a ela) mas debaixo de frio e neve, onde o sol do Mediterrâneo é um bálsamo concedido apenas em alguns poucos dias do ano. E o destino que em maioria escolheram para emigrar, e onde seus talentos e realizações melhor vicejaram, foi justamente o ensolarado Brasil.

Quando chegaram, após longa viagem de navio, aportavam nas alfândegas, onde seus passaportes, escritos em árabe, às vezes não eram entendidos pelos funcionários. Perguntavam-lhes então em francês, idioma que todos, até os analfabetos, dominavam devido aos anos de colonização, e diziam seus nomes. Nomes que homenageavam os santos da cristandade Oriental, frequentemente em francês, como Pierre, André, Catherine, Élie, Geries. Na pena dos funcionários brasileiros, viraram Pedro, André, Catarina, Elias e Jorge.

E um desses Jorges era um bebê recém-nascido que, há exatos cem anos, nos braços da mãe, Rugina, e do pai, Feres, desembarcou no Brasil, vindo da rude e fria Nibay, nas mesmas montanhas libanesas cobertas onde os cedros buscam o sol para crescer e frutificar. E neste mesmo solo onde passou todo o resto da vida, e sob o sol onde fez crescer sua família e seu legado, plantaremos neste sábado, às 14 horas, um pequeno cedro em sua lembrança pelo que de bom fez pela terra que o acolheu. 

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Falando um pouco sobre (contra o) marketing infantil durante o #IACL , evento incrível que ocorreu na Faculdade de Direito da #UFRGS. #workinprogress #watercolor 😊 🌞🌞 #skyline 😊😊 Essa aquarela foi finalizada neste final de semana, mas sempre acho interessante lembrar dos momentos em que a tinta estava secando :) #watercolor #aquarela #gaucho #arts #art

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