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Ciências Humanas, Política

A aproximação entre Grécia e Rússia

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As notícias sobre a crise econômica na Grécia vêm dando espaço para todo tipo de especulações sobre o futuro daquele país. Para muitos, a saída da União Europeia é questão de tempo: a Grécia, dizem eles, não tem mais condições de seguir no bloco e qualquer ajuda momentânea é apenas adiamento do inevitável. Dentre estes, há dois grupos: os que receiam um aprofundamento dos problemas já existentes e os que vêm nisso a única possibilidade de salvação para a economia grega. Por outro lado, muitos não acreditam que medidas mais fortes serão tomadas: no fim das contas, dizem estes últimos, os gregos seguirão como bons cidadãos europeus.

Há, portanto, espaço para tudo. E um espaço garantido pelo terreno das especulações, que desconhece fronteiras. Já outro terreno, o dos fatos, tem seus limites bem circunscritos; e nele há um fato bastante visível, observável a qualquer distância e reconhecível por qualquer um que se detenha sobre o tema: o de que a relação entre a Grécia e o resto da Europa está irreversivelmente abalada.

A relação começou muito bem. Quando aderiram à UE, em 1986, os gregos viram uma oportunidade única para sair de seu atraso histórico em relação aos vizinhos. Foram entusiastas da integração desde o começo, e ainda mais entusiasmados ficaram quanto, durante os felizes anos 90, o PIB do país crescia a taxas quase chinesas. O grego, antes candidato à emigração, recebia turistas endinheirados em suas praias mediterrânicas, passou a receber imigrantes da África e da Ásia. Eram, finalmente, uma nação do Primeiro Mundo.

Mas as coisas mudaram: depois da crise de 2008-2009 e do seu desenrolar, os gregos já não acreditam na UE. Além disso, sentem-se desrespeitados  pelas nações mais ricas e poderosas do bloco num momento de fragilidade. Entre os demais europeus – em particular, os alemães -, é crescente a tendência a enxergar a velha nação helênica como um bando de corruptos, incapazes e preguiçosos sustentados pelo labor alheio. Assim, caso permaneça na UE, o mais provável é que a Grécia passe a ser vista – e isso na melhor das hipóteses – como um familiar indesejável numa casa rica, cujos donos escondem as joias e o dinheiro com medo de serem roubados num momento de descuido.

Os gregos estão cansados disso. São um povo orgulhoso, por razões fáceis de se imaginar. Se nesta casa rica não são benquistos, procurarão outra onde sua cultura, sua maneira de viver e seu país como um todo serão mais apreciados. Surge a questão: para onde irão? Uma resposta possível, levantada recentemente por muitos analistas e sustentada por vários acontecimentos recentes, pode surpreender e atemorizar: para o círculo de influência da Rússia.

Não se trata propriamente de uma novidade. Desde que a coalizão de esquerda Syriza assumiu o poder no país, em janeiro deste ano, o primeiro ministro eleito, Alexis Tsipras, realizou várias viagens à Rússia com o discurso de estreitamento de laços na ponta da língua. “Somente ao lado da Rússia” – disse ele após uma dessas viagens- “será possível construirmos uma nova Europa“. Na última delas, esteve presente no Fórum Econômico de São Petersburgo, onde teve uma longa conversa com Vladimir Putin e selou vários acordos bilaterais. Indagado sobre o rumo que a Grécia tomará diante da crise, deu a seguinte resposta: “Estamos em meio a uma tempestade. Mas, como vocês sabem, nós vivemos perto do mar. Não temos medo de tempestades e nem de nos lançarmos em mar aberto. Estamos prontos para tomar o caminho do mar e ir em busca de um porto seguro”. 

Essa declaração de Tsipras tem um efeito simbólico e imagético poderoso. Os gregos foram, de fato, um povo do mar, cujo legado histórico e cultural espalhou-se por todo o Mediterrâneo e além dele. Com o advento do cristianismo, os missionários da Grécia, de Bizâncio e do resto do mundo helênico foram os responsáveis pela conversão de quase todos os povos do Leste Europeu e da Ásia Menor – incluindo os russos. O  geógrafo inglês Halford Mackinder em seu ensaio fundador “The geographical pivot of history”, sublinhou este fato e mais outro: foi o grego, filho de uma civilização marítima, o responsável por civilizar o russo; e foi o russo helenizado quem conquistou as estepes da Ásia central e formou o mais extenso Império terrestre que o mundo conheceu. Helenizado em quase tudo: na fé, ortodoxa; na administração pública, de inspiração bizantina; e até no idioma, pois o alfabeto usado pelos russos foi criação do santo grego Cirilo, nascido em Tessalônica, responsável pela conversão dos povos eslavos orientais ao cristianismo. O porto seguro a que Tsipras parecia fazer referência era, portanto, bem conhecido de seu povo.

Esta aproximação já fora de certa forma antevista por Samuel Huntington no seu influentíssimo (e criticadíssimo) “Choque de Civilizações”, de 1996. Na tipologia civilizacional ali proposta, a Grécia não está junto à civilização ocidental, da qual é normalmente – e justamente – tida como fundadora, mas sim junto à chamada “Civilização Ortodoxa”, ao lado da Rússia e das demais nações que, como os gregos, professam a Ortodoxia.

Na época, Huntington foi ridicularizado por muitos analistas. “Como assim?”, perguntaram. “Não é a Grécia fundadora da Europa e do Ocidente? Não é uma de nós?” As respostas para estas perguntas, que um sujeito como Huntington seguramente bem conhecia, podem desapontar a quem as faz pensando que elogia os gregos: a Grécia, meus senhores – dirá um grego –  não é fundadora da Europa; é, em verdade, muito mais do que isso. E são testemunha disto todos os povos que, muito antes dos europeus, conheceram os gregos e foram pelos gregos conhecidos, estudados e influenciados: os árabes, cristãos e islâmicos; os persas; os africanos do norte e mesmo os não tão a norte; e os russos.

O  passado aproxima gregos e russos. Mas é preciso atualizar e concretizar essa aproximação. Por isso, no mesmo dia em que declarou-se pronto para lançar-se ao mar em busca de porto seguro, Tsiprias fechou um acordo com Vladimir Putin para a instalação de um gasoduto que ligará os fartos suprimentos de gás da Rússia central à Grécia e à Europa Ocidental. Trata-se do maior empreendimento do gênero já realizado na Grécia e terá papel fundamental numa futura reconstrução econômica do país; ao mesmo tempo, lança combustível extra na fogueira das especulações sobre a saída da União Europeia.  O terreno das especulações, foi dito, pode abarcar questionamentos deste tipo. Já o dos fatos – os do passado e, sobretudo, os do presente – nos mostra que gregos e russos estão cada vez mais próximos.

Leia também: O curioso governo da Grécia

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Discussão

2 comentários sobre “A aproximação entre Grécia e Rússia

  1. Irão, os gregos, conseguir novamente “helenizar os russos? Ou serão absorvidos?

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    Publicado por Nelsi | 29 de junho de 2015, 19:36

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  1. Pingback: Primeiro ministro grego pediu empréstimo à Rússia para imprimir moeda – e recebeu um “não” | PERSPECTIVA ONLINE - 22 de julho de 2015

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