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Política

O curioso governo da Grécia

O governo grego que agora ganha as manchetes em todo o mundo é geralmente descrito como uma aliança de esquerda, ou até de extrema-esquerda, comandada pelo primeiro-ministro Alexis Tsipras e seu braço-direito, o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis. Trata-se de uma verdade parcial, que encobre um pedaço importante da verdade total.

É certo que tanto Tsipras quanto Varoufakis são, sem lugar a dúvida, homens de esquerda: ateus, ex-integrantes do Partido Comunista grego e autoproclamados marxistas (“da vertente libertária”, Varoufakis faz questão de ressaltar), defendem ideias consideravelmente mais radicais do que qualquer outro nome da esquerda mainstream europeia, como os trabalhistas ingleses, os social-democratas alemães ou os socialistas franceses. E também é verdade que a maioria dos nomes indicados para os ministérios partilham de discurso parecido. Mas o governo grego que assumiu em 26 de janeiro de 2015 não é composto apenas por eles. Quem pensa que o governo grego é uma versão helênica do PSol será pego de surpresa se prestar atenção no que de fato defendem muitos dos integrantes da coalizão.

Vejamos. No cargo de ministro da Defesa Nacional – um dos ministérios mais importantes do país – temos Pannos Kamenos, economista e líder do partido Gregos Independentes. Com plataforma explicitamente conservadora, Kamenos é um homem religioso – é cristão ortodoxo praticante -, russófilo assumido, admirador de Vladimir Putin e fundador do Instituto de Estudos Geopolíticos com apoio do seu contraparte russo, o Instituto Russo de Estudos Estratégicos de Moscou.  É também crítico da política imigratória da União Europeia, a qual considera excessivamente aberta. Para os líderes europeus, lançou um alerta: se a Grécia entrar numa crise mais profunda, “nós encheremos a Europa dos imigrantes que vieram para cá, incluindo jihadistas do Estado islâmico”. Mais: “daremos aos imigrantes de qualquer lugar do mundo os documentos que eles precisam para viajar”

Elena Koundoura, ministra do turismo, pertence ao mesmo partido de Kamenos e deve ser a única pessoa no país que não tem medo da crise. Segundo ela – ex-modelo e celebridade midiática – a Grécia tem tantas paisagens lindas que não será uma crisezinha que irá afugentar os turistas. “Eles continuarão a vir”, garante ela.

Já Maria Kollia-Tsaroucha ocupa um ministério de nome insólito: o ministério da Macedônia e da Trácia. Uma das ideias defendidas por Tsaroucha é a de impedir a vizinha república da Macedônia de…..usar o nome “Macedônia”, tradicionalmente uma região da Grécia que o vizinho, criado após o fim da Iugoslávia, teria se apropriado indevidamente “com fins turísticos”.

O Ministro de Estado grego – cargo semelhante ao de Chefe da Casa Civil, no Brasil – é Terence Quick, que, apesar do nome inglês, é um nacionalista grego empedernido: quando seu celular toca escuta-se o hino da Grécia. Assim como Tsaroucha, Quick não aceita que a Macedônia chame-se Macedônia. Quando Angela Merkel, em visita àquele país, disse que estavam muito contente em estar ali (na Macedônia), ele , furioso, disse à imprensa grega que a Alemanha é o Quarto Reich encarnado, está tomando a economia dos demais países europeus e metendo-se na política dos outros.

Em suma: longe de ser um governo unicamente de esquerda, a coalizão grega é, na verdade, um agrupamento de vários setores críticos da União Europeia que vão da direita à esquerda, com especial predominância de radicais dos dois lados. Falando em termos europeus, é mais ou menos como se a Frente National de Marine Le Pen assumisse um governo com o Partido Comunista Francês. Ou, para falar em termos brasileiros, Levy Fidelix e Luciana Genro formassem uma aliança.

A união entre esquerdistas e direitistas em situações de crise econômica não é propriamente nova, em especial quando ambos professam um discurso antiliberal e antiglobalista: mesmo no Brasil o antigo PCB, por exemplo, apoiava a aliança entre o que chamava de “burguesia nacionalista” e os comunistas. Nos EUA, Patrick Buchanan, líder populista de direita, e Ralph Nader, velho guerreiro da esquerda, ficaram lado a lado nas greves automotivas nos anos 70. É uma surpresa, porém, para quem quer ver nessa questão grega uma disputa esquerda-direita nos moldes clássicos, onde a pequena e combalida Grécia faz o papel de Cuba e a União Europeia, capitaneada pela Alemanha, faz o papel de Estados Unidos. Não é assim.

Leia também: A aproximação entre Grécia e Rússia

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