Esportes

Carlitos, o Romário argentino

Durante sua gloriosa e vitoriosa carreira, Romário sofreu sucessivos boicotes nas convocações para a equipe nacional. Na Copa de 90, apesar de atravessar grande momento no PSV, foi relegado ao banco de reservas na maior parte do tempo. Nas eliminatórias para a Copa de 94, destaque no Barcelona, mesmo assim vinha sendo deixado de fora das convocações da Seleção Brasileira. Com o pífio desempenho do Brasil, foi convocado no desespero da CBF e Carlos Alberto Parreira, que temiam pela não participação da Seleção na Copa do Mundo. Convocado para a última partida das eliminatórias para o jogo decisivo contra o Uruguai, o baixinho resolveu a partida em uma das mais memoráveis partidas da Seleção no Maracanã: 2 x 0, dois de Romário, e a classificação assegurada. Não houve como deixá-lo de fora do Mundial.

Em 1996, na Olimpíada de Atlanta, Romário voltou a sofrer boicotes da CBF e comissão técnica: Zagallo, um dos grandes desafetos do baixinho, optou por deixá-lo de fora da lista de jogadores com idade acima de 23 anos para a disputa da medalha de ouro, escolhendo Aldair, Rivaldo e Bebeto como jogadores mais experientes. Em 1998, talvez o mais trágico dos acontecimentos: por uma suposta lesão que o impediria de jogar a Copa do Mundo na França, a comissão técnica de Zagallo optou por cortar Romário da lista de convocados e impediu o mundo de desfrutar da infernal dupla de ataque que fazia com Ronaldo, ainda o Fenômeno.

Os problemas não parariam por aí. Em 2000, ano em que Romário fez mais de 70 gols, Luxemburgo optou por levar uma Seleção sem jogadores acima de 23 anos para a disputa dos jogos olímpicos. A Seleção foi eliminada nas quartas de final quando perdeu por 2×1 para a Seleção de Camarões, sendo que os africanos estavam com apenas 9 jogadores em campo.  Em 2002, o desfecho triste de uma trajetória que poderia ter sido ainda mais brilhante: por divergências com Luís Felipe Scolari, é preterido na convocação para a Copa do Mundo, ainda que houvesse clamor popular pelo camisa 11.

Qual a razão desses boicotes? Por que tanta prevenção contra um craque? Será que o Brasil não teria logrado maior êxito nessas competições caso o baixinho tivesse sido convocado? E – acima de apenas resultados – a história do futebol não teria ficado mais rica com a dupla Ro-Ro atuando junta por duas copas? A pequenez, a mesquinharia de alguns impediu que desfrutássemos disso.

As confederações não apreciam jogadores com a personalidade que Romário sempre teve. Dentro do Brasil sempre foi clara a predileção da CBF pelo estilo passivo de Ronaldo em detrimento  do posicionamento crítico  de Romário: não foi à toa que no Comitê Organizador Local da Copa do Mundo o Fenômeno foi figura importante enquanto Romário só teve voz pelo voto popular que fez dele parlamentar brasileiro. Como o próprio Baixinho disse em 2011: “Eles sempre tiveram que me engolir”.

Grande jogador, ídolo popular, multicampeão, polêmico e de personalidade difícil. Todos esses adjetivos podem e foram utilizados para identificar Romário, mas também servem para identificar outro personagem do futebol sul-americano.

Quando Gerardo Martino substituiu Sergio Agüero por Gonzalo Higuain na final da Copa América 2015, os responsáveis pela Seleção Argentina escancararam as restrições que têm por um atleta cujas qualidades deveriam se sobressair a qualquer outro aspecto: Carlos Tevez, que em vista da “perseguição” sofrida com a albiceleste já pode ser considerado o Romário argentino. Assim como o camisa 11 brasileiro, Carlitos é ídolo nacional e popular, e, assim como Romário, Tevez enfrenta ressalvas quanto sua participação na Seleção Nacional, em que pese ter qualidades indiscutíveis.

Na Copa do Mundo de 2014 Tevez foi preterido por jogadores comuns como Rodrigo Palacio e Di Santo. Sua ausência foi sentida na final, quando em jogo duríssimo contra Alemanha a Argentina precisou colocar o mediano Palacio em campo. Na Copa America encerrada no último sábado, Tevez esteve presente, mas pouco jogou: Tata Martino preferiu manter Agüero, que não consegue brilhar mais na albiceleste, e deixar Higuain e Lavezzi como primeiras opções. Tevez, melhor jogador entre os três, foi relegado à última opção. Por quê?

É misteriosa a razão que manteve El Fuerte Apache de fora da Copa de 2014 e da final da Copa America de 2015. Serão vaidades? Questões pessoais? Temas menores colocados acima do interesse do esporte? A única certeza é que  o maior prejudicado com este afastamento não foi Carlitos Tevez, e sim a própria Seleção Argentina – da mesma forma que o maior prejudicado pela ausência de Romário da Seleção não foi o próprio, e sim o Brasil. Esperemos que os argentinos não precisem levar 7 a 1 de alguma potência futebolística para questionar as suas práticas administrativas.

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