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O apoio da direita ao governo grego

Marine Le Pen: “Madame Frexit”

“O projeto da União Europeia está morrendo. É fantástico assistir à coragem do povo grego face as intimidações de Bruxelas”

A frase acima não foi dita por algum líder socialista, nem por algum acadêmico de extrema-esquerda e tampouco por algum militante enragée. Não foi dita por Luciana Genro, nem por Slavoj Zizek e muito menos por João Pedro Stédile. Estas entusiasmadas palavras de apoio à Grécia saíram da boca de Nigel Farage, líder do UK Independents, uma das mais novas, controversas e influentes vozes da direita inglesa.

Farage não está sozinho. Do outro lado do Canal da Mancha, a líder da Frente Nacional francesa, Marine Le Pen, também saudou o “não” dos gregos à proposta da União Europeia como “uma vitória contra a oligarquia da União Europeia”. “Este ‘não’ que vem do povo grego deve abrir caminho para uma nova aproximação”, disse ela. E ainda fez uma brincadeira com o termo “Grexit”, que vem sendo usado para designar a possível saída da Grécia da UE: “Eu serei a Madame “Frexit” se a União Europeia não nos devolver nossa soberania monetária, legislativa, territorial e orçamentária”. O “Fr” de “Frexit” faz, é claro, referência à França que Marine Le Pen quer governar; uma França baseada em valores “identitários”, com severas restrições quanto à imigração – particularmente africana e árabe – e combate incessante ao que chama de “totalitarismo muçulmano”. Uma França exclusivamente francesa.

Enquanto isso, na Hungria, o partido Jobbik, de extrema-direita, publicou uma nota dando aos parabéns os eleitores gregos por terem dado um “tapa na cara da grande mídia e da propaganda Ocidental”. Sendo húngaro, o Jobbik em tese não deveria se preocupar tanto com o tema imigratório: são os húngaros, afinal de contas. que costumam imigrar para o resto da UE. Mesmo assim, o partido defende o fechamento das fronteiras e a expulsão imediata dos estrangeiros ilegalmente instalados em solo húngaro. É, portanto, outro partido com cariz identitário.

Na Itália, o líder da Liga Nord, Matteo Salvini, também está radiante com a vitória do “não” na Grécia. Seu partido difere de todos os anteriores: não é apenas favorável à saída da Itália da União Europeia, mas também à secessão da região norte da Itália do resto da Península; um duplo independentismo, portanto. As razões que o movem são também identitárias: o Norte da Itália é formado por descendentes de povos germânicos que ali se instalaram nas invasões bárbaras dos séculos V e VI, formando as atuas regiões da Lombardia, do Vêneto e do Tirol.  Já o Sul da Itália – onde estão a Calábria, a Sicília e a Campânia – situa-se à beira do Mediterrâneo e recebeu forte influxo de cartagineses, de árabes e mesmo de negros ao longo da história. Por consequência, enquanto os italianos do norte costumam ser branquinhos e frequentemente apresentam cabelos loiros e olhos azuis, como seus vizinhos alemães e austríacos, os do Sul tendem a ser moreninhos, parecidos com os povos do outro lado do mar Mediterrâneo. Há, claro, outro problema: o Norte da Itália é rico, desenvolvido, tem indústrias, tecnologia e cidades prósperas; já o Sul da Itália tem muita Máfia, muita pobreza, e seus habitantes emigram para o Norte em busca de trabalho. Salvini não quer nada com eles. Mesmo assim, simpatiza, com a Grécia, cujo povo tem muito mais semelhanças com os italianos meridionais do que com os do Norte: “Se eu estivesse na Grécia”, diz ele, “votaria no não, pela soberania. Se vence o não, pode ser o início de uma Nova Europa”.

Qual a razão para esse fenômeno? A pergunta se impõe quando temos em mente o tipo de apoio que a Grécia vem recebendo. Como regra geral, ele vem da esquerda, que critica as medidas de austeridade da UE e a sua consequência imediatada, isto é, o desemprego, a redução de salários e a pauperização da classe trabalhadora. Vem, em suma, das Lucianas, dos Zizeks e dos Stédiles do mundo todo. Se a esquerda apoia os gregos, porque a direita ser-lhes-ia favorável?

Para tentarmos compreender essa questão é fundamental sabermos de que direita falamos aqui. Não se trata da direita liberal à Roberto Campos, que os brasileiros tão bem conhecem, mas sim dos resquícios da antiga direita nacionalista pré-Segunda Guerra Mundial. Quando nos aproximamos de seu discurso, percebemos que ele gravita em torno de uma palavra: identidade. E identidade significa aqui nação, raça, passado comum. Quem defende esse tipo de discurso tem um inimigo declarado, e chama-se o globalismo. A União Europeia, que quer pôr sob o mesmo guarda-chuva nações tão distintas quanto gregos e alemães, é vista como um agente poderoso deste temido globalismo, e o fato de terem várias políticas de inserção dos imigrantes nas vidas nacionais e uma retórica pouco afeita ao nacionalismo só piora a sua imagem entre Le Pens e Jobbiks.

A UE foi, em grande medida, fruto do consenso político entre democratas cristãos e social-democratas, que aceitavam, de maneira geral, a democracia parlamentar e os principais pontos dos liberalismos político e econômico. Os comunistas e socialistas, apoiados pela União Soviética, eram, quando muito, tolerados. A direita nacionalista, perigosamente próxima do fascismo e do nazismo derrotados na Segunda Guerra, foi posta de lado. Os dois, comunistas e nacionalistas, são anti-liberais, cada um a seu modo. E são estes dois grupos que reaparecem agora na arena de discussões dentro da UE e no próprio governo grego, como já mostramos aqui. 

É cedo para dizer que o projeto da União Europeia está morrendo, como prevê Nigel Farage. Já não parece ser tão cedo, contudo, para afirmar que o consenso social-democrata e democrata-cristão está ruindo. E aí seremos obrigados, muito a contragosto, a concordar com o sr. Salvini: já se pode falar, aqui, do início de uma nova Europa.

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